Até o Natal, Joana troca casa por praça da Vila Olímpia

Maria Joana dos Santos, de 48 anos, mora dez meses por ano no Campo Limpo, e outros dois meses na Vila Olímpia, ambos bairros da zona sul de São Paulo. Desde 1995, a mudança ocorre sempre no fim de outubro, quando Joana sai em busca da solidariedade e do espírito natalino de quem passa pela Avenida dos Bandeirantes. "Nunca pedi nada. As pessoas passam por aqui, vêem a minha carroça e dão 1 quilo de arroz aqui, uma cesta básica ali", conta. Ela só volta para casa no dia 26 de dezembro.Desempregada, Joana está entre as pessoas que no fim do ano engrossam o número de moradores de rua da cidade. Casa, ela e a maioria desses sem-teto temporários têm. Mas, para economizar cada centavo que consegue - pela venda do papelão ou pela boa ação de um passante -, fica semanas sem voltar para casa. "Se vendo um monte de latinha, consigo R$ 2,70. A passagem é quase esse valor." O segundo endereço de Joana é fixo desde 1995. Com as amigas Flávia e Maria, que conheceu na rua, Joana monta à noite uma barraca na Praça Roger Patti. Ali, cozinham e dormem. De dia, a lona é desmontada e todos os pertences são amontoados num carrinho vigiado por uma delas. "A gente não faz sujeira. Não estamos roubando nem tocando campainha para pedir dinheiro. Só estamos pegando materiais recicláveis." A temporada fora de casa traz alguns benefícios. Em apenas um fim de ano, Joana ganhou 40 cestas básicas. "Dá para viver um bom tempo. A gente também divide com parentes", conta. Ao contrário dos outros anos, ela só conseguiu três cestas até agora. "Com essa propaganda da Prefeitura (contra esmolas) está mais difícil o pessoal ajudar."Os agentes da Prefeitura, segundo ela, também têm pressionado para ela e as amigas não ficarem na rua. "Na semana passada, ameaçaram jogar água em tudo, veio até polícia. Mas emprego ninguém oferece. Falam que vão nos levar para albergues, mas a gente tem casa, só não tem como ganhar dinheiro." O secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, afirma que todos os que são encontrados nas ruas normalmente são encaminhados para programas de transferência de renda ou requalificação profissional. "Não faltam programas."

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