Atentado no Rio pode ser ação conjunta de criminosos

Uma ação conjunta entre criminosos paulistas ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e líderes de facções do Rio presos no complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste. Essa é a principal linha de investigação da polícia fluminense para chegar aos autores do atentado contra a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, na noite ontem, quando quatro homens explodiram uma granada em frente ao prédio, em Botafogo, e metralharam a portaria, ferindo dois funcionários. Eles deixaram um cartaz ameaçando responder à bala "qualquer ação arbitrária com nossos irmãos na cadeia". A polícia investiga ainda a possibilidade de o atentado ter sido uma reação à prisão de 32 pessoas ligadas ao tráfico, entre eles Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, e familiares de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê . "Atentados contra prédios públicos é prática reiterada em São Paulo e cidades próximas. Temos de saber se foi o próprio PCC, que quer demonstrar um poderio nacional, ou se há uma cópia de práticas dessa facção", afirmou o secretário de Segurança, Roberto Aguiar, que fará "contatos oficiais" com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.O mentor da política de segurança do governo fluminense, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, disse que a polícia vem acompanhando a "aproximação dos paulistas" há alguns meses. "Os primeiros indícios apontam para uma rede criminosa interestadual. Eu sugiro que ultrapassemos limites partidários e políticos e sejamos capazes de constituir uma grande coalizão, um pacto de segurança pública entre os Estados. Temos que estar à altura do desafio", defendeu.O atentado ocorreu às 20h40 de quarta-feira, quando ainda havia movimento na Rua Barão de Itambi, onde fica a secretaria, vizinha a um curso de inglês e a um supermercado. Os criminosos lançaram a granada e metralharam a portaria. Houve correria na rua. Pessoas tentavam se proteger no supermercado, que fechou as portas. O prédio da secretaria e edifícios vizinhos estremeceram. Carros ficaram danificados pelos estilhaços. Os criminosos atiraram ainda contra uma uma cabine da Coordenadoria de Vias Especiais do município, e num carro da Polícia Militar, na entrada do túnel Santa Bárbara, a 500 metros da sede do governo."Quero declarar que não vou me intimidar. A nossa polícia tem estratégia correta, vamos continuar a fazer o que estamos fazendo: prendendo quem tem que ser preso e garantindo a segurança da população do Rio de Janeiro", afirmou a governadora Benedita da Silva (PT), num curto pronunciamento a respeito do episódio.Ação política Aguiar não descartou a possibilidade de o atentado ter sido um ataque político para desestabilizar o governo de Benedita ou atingir a pré-candidatura à presidência da República de Luís Inácio Lula da Silva (PT). "É uma hipótese também: (uma tentativa) de invalidar uma força social que está crescendo. Pode até haver isso. Mas não conseguimos detectar ainda. Seria leviano dizer que é isso. Ma todas as hipóteses são válidas", afirmou. Roberto Aguiar disse que "medidas de segurança interna" foram tomadas para proteger a cúpula do governo. "Nossos secretários terão uma vida mais tranqüila", resumiu, evitando dar detalhes sobre o novo esquema de proteção. O secretário de Justiça, Paulo Saboya, confirmou que contará com mais seguranças. Já o diretor do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe), Edson de Oliveira Rocha Júnior, afirmou que voltou a andar armado e exibiu uma pistola.Desde que assumiram, Saboya e Rocha Júnior intensificaram vistorias nas celas. Eles agora tentam acabar com o domínio de dententos do presídio Serrano Neves (Bangu 3) em certas áreas da penitenciária. "Eles tomaram a cozinha e a lavanderia, onde os agentes não têm acesso. É uma situação inusitada", afirmou Saboya. A área teria sido repassada aos presos depois da rebelião de 21 de novembro, quando 27 pessoas foram feitas reféns, por detentos armados até de granada. Na ocasião, o então secretário de Direitos Humanos João Luiz Pinaud assinou um documento em que se comprometia a cumprir exigências dos presos.Primeiros depoimentosO delegado titular da 10.ª Delegacia de Polícia, Antônio Carlos Almeida Rocha, disse que começa a ouvir hoje as testemunhas do atentado. O porteiro Sidnei de Oliveira, ferido por estilhaços na orelha, deverá ser um dos primeiros a comparecer à delegacia.Além dos funcionários que trabalhavam na secretaria, os vizinhos dos prédios também prestarão depoimentos. Ontem, uma equipe do Esquadrão Anti-bombas vistoriou o local do incidente e recolheu o dispositivo que acionou a granada. Pela análise inicial dos peritos, trata-se de um artefato de uso exclusivo das Forças Armadas.O segurança Sidnei Rodestolado, atingido no peito por um tiro de fuzil, está internado na Centro de Tratamento Intensivo do hospital do Corpo de Bombeiros. Segundo os médicos, seu estado de saúde inspira cuidados.

Agencia Estado,

15 de maio de 2002 | 20h10

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