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Ativista de si mesmo

Luiz Inácio da Silva adora uma invenção de moda: inventou uma herança maldita hipoteticamente recebida do antecessor que acabara de lhe propiciar uma fase de transição civilizada como nunca antes neste país; inventou a Presidência espetáculo e agora dá sinais de que inventará a ex-Presidência esfuziante.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Avisa que participará de protestos, à exceção daqueles cujo alvo for o governo de Dilma Rousseff, e liderará uma campanha pela reforma política, com Constituinte exclusiva se preciso for.

Anuncia-se como arauto da liberdade de imprensa; proclama que lutará pelo povo pobre mundo afora e que fará política em tempo integral a partir de seu instituto com sede em São Paulo e sucursais a serem montadas em outros Estados.

São tantas as atividades a que se propõe como ex-presidente que já se desenha no horizonte a figura do ativista de si mesmo.

Na verdade, nada muito diferente do que fez nos oito anos como presidente da República. Período durante o qual não comprou uma só briga com setores cuja insatisfação poderia impedi-lo de construir a popularidade e a rede de sustentação política que construiu com pleno êxito.

Ao custo de avanço significativo nenhum em saúde, educação, infraestrutura, segurança pública, setores essenciais para que o Brasil consiga com sucesso prosseguir na trajetória ascendente dos últimos anos e chegar a uma condição satisfatória de desenvolvimento.

Evidentemente, a nova presidente terá de fazer frente a esses e a outros desafios.

Lula cuidou muito bem da própria biografia. Propagandeou o que fez e o que não fez. Falou dia e noite bem de si, contando para isso com o espaço natural de que dispunha como chefe da Nação nos meios de comunicação.

Pelo jeito, prepara-se para continuar em cena, criando fatos que o coloquem em constante destaque, instalando-se no centro de uma hipotética assembleia permanente a partir da qual possa continuar como protagonista.

Claro, dependerá da disposição da imprensa de criar uma espécie de "editoria Lula". Fará de tudo para isso.

Com qual objetivo? O pessoal tanto pode vir a ser uma futura candidatura à Presidência ou, como aventou outro dia um bom observador da cena, a governador de São Paulo a fim de tentar derrubar de vez a cidadela mais poderosa do PSDB.

O objetivo político mais geral está claro: consolidar um projeto de poder a partir da construção da hegemonia definitiva do PT.

Vida como ela é. Mal terminaram as eleições, o governador do Rio, Sérgio Cabral, abriu campanha contra a "hipocrisia e a demagogia" defendendo a descriminalização do aborto e a legalização do jogo.

Causas pertinentes se bem pesadas e medidas em face das demandas da sociedade e da precaução do Estado como guardião da legalidade e do bem-estar da coletividade.

Por isso mesmo, temas que governantes e candidatos a representantes populares deveriam debater em público preferencialmente antes de se submeterem a voto. Para não padecerem dos males da demagogia e da hipocrisia pré-eleitoral.

Síntese. O Poder Legislativo no Brasil não se dá ao respeito, não merece respeito e isso está traduzido na figura do palhaço de 1 milhão de votos que o eleitor decidiu mandar a Brasília para que suas excelências se lembrem permanentemente de como a população vê o Congresso.

Uma instituição à altura de um semianalfabeto que se deixou usar por espertalhões profissionais, cuja matéria-prima é a união da desqualificação do Parlamento com a despolitização de uma sociedade referida no entretenimento.

E agora há quem, entre os bem-pensantes que não votaram nele, o celebre dando-lhe status de vítima do preconceito elitista.

O mesmo raciocínio conferiu a Severino Cavalcanti, quando eleito presidente da Câmara, proteção das críticas por encarnar o esforço do homem simples que chegou lá. Há registros.

Isso meses antes de ser obrigado a renunciar, pego em flagrante delito de corrupção.

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