Aumentam casos de homens anoréxicos, aponta o HC

´Nunca gostei de comer. Nem aprendi a mastigar direito porque prefiro engolir direto para não sentir o gosto. Em casa, só me alimentava de salada, bem picadinha. Agora, eu tenho de comer alimentos pastosos e não posso mais tomar laxantes. São as únicas coisas ruins daqui.´Assim, João (nome fictício), de 21 anos, resume sua relação com os alimentos. Com 1,84 metro de altura e 58 quilos, sofre de anorexia e, há três semanas, teve de interromper o curso de Educação Artística no qual está matriculado para se internar no Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo (Ambulim).Após identificar um crescimento no número de homens à procura de tratamento, a direção do ambulatório decidiu formar uma equipe para atendimento especializado ao sexo masculino, segundo o psiquiatra Táki Cordás, coordenador-geral do Ambulim. Iniciativa pioneira no mundo, o serviço dirigido especificamente a homens começou há seis meses - bem antes de a anorexia e a bulimia virarem notícia, em razão da morte da modelo Ana Carolina Reston. E a resposta obtida revela que o problema é bem mais freqüente do que se imaginava entre os homens.´Classicamente se diz que, para cada grupo de dez mulheres, haveria um homem com esses transtornos. Nós do Ambulim, em 14 anos de atividade, tínhamos diagnosticado anorexia ou bulimia em menos de dez homens´, conta Cordás. ´Mas foi só criar e divulgar o atendimento especializado que a demanda reprimida começou a aparecer. Em seis meses surgiram 15 casos´, afirma o psiquiatra. Ainda mais expressivo é o balanço atual dos pacientes: por apresentarem quadros tão graves que implicavam risco de vida, estão internados no ambulatório seis mulheres e quatro homens.Apesar de ressalvar que números confiáveis só poderão ser divulgados futuramente, Cordás já vislumbra uma revisão estatística que dobre a presença proporcional dos homens entre os pacientes de anorexia e bulimia. Algo em torno de dois homens para cada grupo de dez mulheres, segundo ele, é uma estimativa razoável.Além de redimensionar o problema, a experiência do Ambulim servirá para derrubar preconceitos, na visão do psiquiatra. Não se trata, por exemplo, de um transtorno que só afeta mulheres e homossexuais. ´Os heterossexuais são maioria entre os que têm procurado tratamento´, conta o psicólogo Raphael Cangelli Filho, coordenador da equipe especializada do Ambulim.As características que a maioria dos pacientes de ambos os sexos têm em comum são a faixa etária e certos traços de personalidade, diz o psicólogo. Quase todos são adolescentes ou adultos jovens com personalidades fortes, acostumados a ditar as regras nos lugares que freqüentam, sobretudo no ambiente familiar.Essa postura controladora é um dos obstáculos à recuperação. ´Muitas vezes, não é fácil convencê-los de que estão doentes e que precisam seguir o tratamento indicado´, relata Cangelli.Distúrbios causados por associações entre fatores biológicos (maior ou menor propensão genética) e ambientais (relações interpessoais e influências socioculturais), anorexia e bulimia exigem um tratamento que requer abordagem multidisciplinar, com a participação de psiquiatras, psicólogos e nutricionistas.

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