CARLOS MONTEIRO/AGÊNCIA O DIA
CARLOS MONTEIRO/AGÊNCIA O DIA

Aumento da violência no Rio de Janeiro resulta em 'vulnerabilidade completa'

O aumento da violência criminal no Rio faz parte de uma tendência nacional que os especialistas dizem ter sido exacerbada pela recessão econômica e política do Brasil

Ernesto Londoño, New York Times

19 Novembro 2017 | 17h32

RIO - Para os professores desta megacidade à beira-mar, o aumento da violência no Rio de Janeiro representa fazer julgamentos de vida ou morte com uma frequência desconcertante: decidir se devem ou não ser canceladas as aulas por causa de tiroteios nas proximidades.

Para os policiais, representou sepultar 119 dos seus até agora este ano e ceder cada vez mais território às gangues de drogas que retomaram as vendas ao ar livre em comunidades muito populosas que foram declaradas "pacificadas" há apenas alguns anos.

Muitos moradores desta cidade de cerca de 6,5 milhões começam o dia pesquisando aplicativos móveis que rastreiam relatórios ao vivo de locais onde houve tiroteios, antes de planejar seus deslocamentos.

Pouco mais de um ano desde que o Rio de Janeiro recebeu uma Olimpíada de Verão amplamente bem-sucedida, a cidade vitrine do Brasil está atormentada por um aumento da desordem que lembra seus períodos mais sombrios nas décadas de 1980 e 1990.

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No Estado do Rio de Janeiro foram mortas 4.974 pessoas, nos primeiros nove meses deste ano, em uma população de cerca de 16,5 milhões, aumento de 11% em relação ao ano passado, de acordo com as estatísticas do governo estadual.

O aumento da violência criminal aqui faz parte de uma tendência nacional que os especialistas dizem ter sido exacerbada pela recessão econômica do Brasil, pela corrupção que esvaziou os cofres do governo e pela acirrada competição entre organizações de tráfico de drogas.

No ano passado, 61,619 pessoas morreram em todo o Brasil, de acordo com dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o ano com mais mortes registradas.

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Apoio. Enfrentando o déficit orçamentário e cartéis de drogas cada vez mais armados e organizados, funcionários do Rio de Janeiro voltaram-se para o governo federal em busca de ajuda financeira e para os militares em busca de apoio.

“A situação é de completa vulnerabilidade”, disse Antônio Carlos Costa, chefe do Rio de Paz, uma organização que dá apoio às vítimas da violência. “As armas usadas pelos traficantes são armas de guerra”.

O ressurgimento da violência vem após o que foi considerado uma tangível redução do crime da cidade, embora de curta duração. 

Em 2008, quando o Brasil se preparava para sediar a Copa do Mundo de 2014 e foi abriu licitações para as Olimpíadas de 2016, funcionários do governo lançaram um plano ambicioso para garantir a segurança nas favelas da cidade, uma colcha de retalhos de comunidades criadas em encostas, não planejadas, que há muito foram negligenciadas pelo governo. Um sistema de policiamento comunitário foi estabelecido e os agentes da lei recebiam recompensas quando atingiram metas de redução de crime.

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Tentativa. Tratava-se de uma estratégia de contra insurgência. As chamadas Unidades de Polícia Pacificadora, estabelecidas nas favelas foram vistas como o primeiro passo para levar os serviços do estado para essas áreas. A presença policial constante tinha como meta erradicar as redes de crime organizado que se tornaram a autoridade de fato nas favelas e, em seguida, o plano exigia a expansão gradual de acesso a saneamento decente, cuidados com saúde e educação para comunidades historicamente marginalizadas.

Durante alguns anos, o plano pareceu conseguir vigor. De um pico de 65 mortes violentas por 100 mil moradores do Estado do Rio de Janeiro em 1994, a taxa caiu para 29 em 2012. Um investimento de US$ 10,7 bilhões em infraestrutura antes dos Jogos de 2016 trouxe esperança de que as Olimpíadas serviriam de catalisador para reduzir a desigualdade em uma cidade onde as exorbitantes abundância e miséria coexistiam em um acentuado contraste.

A principal razão para que isso não tenha acontecido pode ser resumida em uma palavra, de acordo com Monica de Bolle, especialista em Brasil no Instituto Peterson para Economia Internacional: corrupção.

Uma vez que se estavam reclamando territórios das favelas, dos traficantes de drogas, era preciso criar empregos”, acrescentou. “Havia a expectativa de que seria feito um enorme investimento em projetos sociais nas favelas, mas então o dinheiro acabou, completamente”.

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Setor público. A gigantesca empresa petrolífera estatal Petrobras, com sede no Rio de Janeiro e um dos motores econômicos da cidade, ficou incapacitada, com a revelação de um enorme esquema de corrupção em 2014. Esse escândalo evoluiu na mesma época em que o preço global do petróleo caia vertiginosamente.

Ao mesmo tempo, de acordo com os promotores federais, funcionários do estado, incluindo o ex-governador do estado, Sérgio Cabral, transformaram os gastos com as Olimpíadas em um processo de fraude que permitiu que altos funcionários do governo e empresários desviassem centenas de milhões de dólares do tesouro público.

Embora os Jogos Olímpicos tenham trazido ganhos duradouros para o Rio de Janeiro - principalmente através da atualização de seu sistema de transporte público - as oportunidades perdidas são evidentes em praticamente todas as partes da cidade.

Educação. A escola secundária C.E. Clóvis Monteiro em Jacarezinho, no norte do Rio de Janeiro, possui uma placa "Rio 2016" com o logotipo olímpico que diz "A Educação Transforma”. Mas pergunte à diretora, Andreia Queiroz, sobre a recente transformação da área, e você ganha uma visita a buracos de bala no prédio, incluindo um que estilhaçou uma janela de sala de aula.

Este ano, Andreia Queiroz muitas vezes começou seu trabalho matutino de madrugada pesquisando relatórios sobre combates armados, contando com uma série de conversas de grupo que ela acompanha pelo WhatsApp. Decidir quando fechar a escola é mais arte do que ciência, um ritual sombrio ao qual ela e outros educadores de toda a cidade já se acostumaram.

Até o final de outubro, houve apenas 11 dias este ano em que pelo menos uma escola na cidade não foi fechada como resultado da violência, de acordo com o sistema de educação municipal do Rio de Janeiro. Isso significou que mais de 161 mil estudantes tiveram seus estudos interrompidos pelos confrontos.

Andreia Queiroz disse que o colapso da segurança e a desaceleração econômica levaram até 400 dos 1.500 alunos matriculados em sua escola a deixar de frequentar regularmente as aulas este ano.

“Aqui temos alguns alunos que sustentam suas famílias”, disse ela. Os que continuam vindo mostram-se sobressaltados, acrescentou. "Vejo a dificuldade deles em se concentrar”, diz. “Estão aqui, mas sua cabeça está sempre lá fora”.

A observação das paredes da escola revela pistas da violência devastadora lá fora - e a forma como ela vai moldando a política nacional.

As letras CV - sigla de Comando Vermelho - e as palavras “Fora Bolsonaro”, estão rabiscadas em todas as paredes.

A primeira é sinal de fidelidade à poderosa gangue que tem sido a autoridade de fato em vários bolsões do Rio de Janeiro há décadas. O segundo é o repúdio a um congressista de extrema-direita, Jair Bolsonaro - atualmente em segundo lugar nas pesquisas para as eleições presidenciais do próximo ano - que prometeu capacitar as forças de segurança para matar ainda mais daqueles que ele chama de "bandidos".

As linhas de frente para o tipo de repressão que Bolsonaro prometeu estão sendo formadas na vizinhança fora da escola.

Em uma tarde há pouco tempo, homens jovens armados com espingardas posicionaram-se nos pontos de entrada de um setor de Jacarezinho controlado por narcotraficantes. Os alunos caminharam em ziguezague através de ruas entupidas e estreitas, onde barracas de produtos compartilham espaço na calçada com mesas onde ambulantes vendem pequenos pacotes de cocaína e maconha.Várias paredes da comunidade estão salpicadas por buracos profundos de explosões da munição despejada por metralhadoras.

“Ficamos no fogo cruzado”, disse Maria, uma mulher de 63 anos que é manicure em um pequeno salão apenas com bulbos de lâmpadas e se recusou a fornecer o sobrenome por preocupação com segurança. “Já perdi muitos negócios”.

Fuga. Uma pesquisa realizada pela empresa de pesquisa Datafolha no início de outubro constatou que 72% dos moradores do Rio de Janeiro mudariam para uma cidade mais segura, se pudessem. A pesquisa, que incluiu 812 entrevistados e teve uma margem de erro de quatro pontos percentuais, descobriu que menos de uma em cada dez pessoas achava que a polícia militar, principal instituição responsável pela segurança, era eficiente na prevenção de crimes.

Os moradores aqui falam com igual desalento sobre a polícia e as gangues de drogas.

Ana Paula Oliveira, uma ativista da comunidade cujo filho de 19 anos foi morto pela polícia em 2014, disse que residentes de baixa renda das comunidades sentem-se sitiados toda vez que a polícia adota repressões temporárias, apenas para depois desaparecer e permitir que as áreas voltem a ficar sob o controle de traficantes. Entre janeiro e setembro, pelo menos 800 das pessoas mortas no estado foram baleadas por policiais.

“Eles chegam até a gente com um discurso de que há uma guerra”, disse ela. “Mas isso não é uma guerra. É um massacre de pessoas pobres que vivem em favelas. Para garantir que a elite goze de segurança, é necessário matar as pessoas pobres”.

As áreas de elevado padrão do Rio de Janeiro, incluindo centros turísticos como Copacabana e Ipanema, sentem-se como um mundo à parte, graças à forte presença policial. Mas eles não foram poupados do aumento da criminalidade. E a violência teve um impacto considerável sobre a indústria do turismo.

Turismo. A cidade perdeu cerca de US$ 200 milhões em receita de turismo entre janeiro e agosto, de acordo com a Federação Nacional de Comércio, Bens, Serviços e Turismo. Dois turistas foram mortos por tiros até agora neste ano na cidade, incluindo uma mulher espanhola morta por um policial no mês passado enquanto passava por uma favela.

Embora a segurança no Brasil seja historicamente responsabilidade dos governos estadual e municipal, o governo federal nos últimos meses enviou centenas de soldados para conter explosões de violência no Rio de Janeiro. Em um sinal de que os militares estão se preparando para exercer um papel prolongado aqui, pressionaram com sucesso o Congresso no mês passado, para aprovar uma lei permitindo que os soldados que cometeram crimes contra civis durante as operações sejam julgados em tribunais militares, em vez de tribunais civis.

Roberto Sá, o secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, disse em resposta a perguntas por e-mail que a "calamidade financeira" que afligiu o estado ao longo do último ano e meio tornou impossível implantar uma política de segurança abrangente.

“Para colocá-la em prática", disse Sá, “precisamos de recursos financeiros que o Estado não tem à sua disposição”.

Ciara Long e Lis Moriconi no Rio de Janeiro contribuíram com relatórios.

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