Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Aumento de buscas por 'racismo' sugere caminho de mudança social

Violência contra negros no Brasil e no mundo explica maior interesse, que bateu recorde de consultas desde 2006 no Google; para acadêmicos, compreensão dos fatos leva à reflexão individual e coletiva

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 10h00

O interesse das pessoas por determinados assuntos é, em parte, influenciado por acontecimentos que causam grande comoção, seja virtual ou na vida real. É, também, um indicador de que uma mudança social está ocorrendo, embora diferentes fatores influenciem esse movimento. E algo está acontecendo em 2020. Além do aumento de buscas no Google por palavras relacionadas a transtornos mentais — algo explicado pela pandemia de covid-19, mais brasileiros foram atrás de saber o que é racismo, termo que bateu recorde de interesse em junho no Brasil desde 2006.

Dados sobre tendência de buscas na plataforma mostram que a palavra sempre atingiu picos de popularidade nos meses de novembro, quando se comemora o Dia da Consciência Negra. Em uma escala de 0 a 100, que mede o grau de interesse pelo termo, a maior alta foi em 2017, com 70 pontos. Já no sexto mês deste ano, o indicador chegou ao máximo.

Segundo a análise do Google, o estopim para esse aumento foi a morte de George Floyd nos Estados Unidos, no fim de maio. O homem negro foi asfixiado por um policial branco que pressionou o joelho contra o pescoço da vítima. Imagens da ocorrência repercutiram em todo o mundo e desencadearam uma onda de protestos antirracistas e contra a violência policial em diversos países. O reflexo disso no Google foi o aumento repentino de buscas pelo nome de George, com alta de mais de 3.600% naquele mês.

O interesse de busca por “violência policial” também bateu o recorde da última década entre maio e junho deste ano. Por aqui, as investigações sobre a morte do adolescente negro João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, era o assunto em destaque relacionado ao tema. Ele morreu em 18 de maio após ser atingido por um tiro durante operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio. O caso resultou na abertura de inquérito civil público para apurar a participação da Polícia Federal na morte do jovem.

Eliete Edwiges Barbosa, mestre em psicologia social, observa que esses acontecimentos deram o impulso para que se buscasse entender um processo que estava oprimido. “A opressão racial estava tão naturalizada que as pessoas tinham atitudes preconceituosas e achavam que estavam dentro da normalidade. Mas não está. Vimos que, com a pandemia, a população negra foi a mais atingida, com número de mortes, pelo processo econômico e desmonte de políticas públicas”, afirma.

Mas essa tendência de interesse não é de agora. Ao longo dos anos analisados pelo Google, outros fatos marcaram a sociedade e levantaram o debate, segundo Julio Santos, diretor do Instituto Luiz Gama (ILG). “Tivemos em 2012 a lei de cotas no ensino superior, que foi um ato de governo e gerou descontentamento de um grupo social que foi falar em racismo reverso. Em 2014, foram as cotas no serviço público. A gente vem, nos últimos dez anos, com vários movimentos de combate a uma cultura racista que privilegia a cultura não negra”, explica. Ele lembra que racismo reverso não existe, afinal o racismo só é praticado por quem tem poder de privilégio “e a população negra, o máximo que pode, é praticar preconceito e discrimição. A prática do racismo como construção sociológica não cabe à população negra”.

No cenário político e ideológico atual, mais acirrado, acusações de racismo e homofobia, por exemplo, ganham visibilidade ampliada pelas redes sociais e as pessoas, sem querer ficar fora da discussão, vão em busca de informação. “É uma tentativa de compreender o que é realmente ser racista e há um sentimento de ‘será que eu sou racista?’, ‘o que é racismo?’. Termos que começam a ser muito trabalhados na sociedade dão fruto nas pesquisas”, diz Santos. Esse interesse, segundo ele, acaba sendo positivo porque “cada vez que as pessoas vão compreendendo que temos racismo velado, ele precisa ser questionado”.

Indício de mudança

Outras informações trazidas pelo Google indicam que o tipo de busca feita traz um desejo de análise do mundo e de si. A pesquisa sobre “o que é racismo estrutural” também atingiu o máximo de popularidade, com 100 pontos, em junho deste ano, um recorde desde 2004. Perguntas paralelas ao assunto surgiram como as principais sobre racismo ao longo de 90 dias no Brasil: “O que é preconceito?”, “O que significa racismo?”, “Como combater o racismo?” e “O que é racismo institucional?”.

Ao ampliar o debate, o tema “privilégio branco” também atingiu um recorde nos últimos 16 anos. “Na sua maioria, é um movimento de mudança, de autoidentificação e de compreender qual seu privilégio na sociedade. É um movimento de reformular as estruturas da sociedade”, aponta o diretor do ILG. Ele destaca que esse passo de querer compreender leva, automaticamente, a refletir sobre o racismo praticado individualmente e aquele chamado de racismo estrutural, “do qual nenhum de nós consegue escapar”.

“Acho que a gente tem estágios e estamos subindo outro patamar”, avalia Eliete. “Teve o processo de identificação — e se tivesse o Censo esse ano, muitas pessoas iam se declarar pretas e pardas porque não teriam vergonha ou desconhecimento —, depois as políticas de inclusão, com acesso a universidades e contratação de negros. Agora, estamos na metade da escada, está mudando, e espero que em breve as pessoas comecem a entender que o País é diverso, somos brancos, negros e índios”, diz.

Formas de lutar contra o racismo também foram consultadas pelos brasileiros no Google, o que colocou o País entre os cinco que mais buscaram por “antirracismo” em todo o mundo. “Como combater o racismo” sempre teve oscilações de busca desde 2010, mas ganhou maior destaque em novembro do ano passado, com 68 pontos, e atingiu o nível mais alto da década em junho deste ano. As pessoas também querem encontrar na literatura vozes que abordem o assunto, tanto é que a pesquisa por “livros sobre racismo” teve o dobro de interesse em 2020 ante 2019.

Esse é um importante começo, mas Santos alerta que a compreensão do problema apenas pelas redes é superficial. “Demanda estudos mais aprofundados, estudos sociológicos, econômicos e políticos, para que as pessoas realmente entendam esse fenômeno e como ele agrava quem é vítima desse processo.”

A importância dos movimentos

Com a discussão mundial acerca do racismo e da violência policial contra a população negra, o mote “vidas negras importam” também registrou alta de interesse em junho no Brasil. Já a versão em inglês, “black lives matter”, cresceu quase 50 vezes em todo o mundo desde o fim de maio. Essas declarações, que marcaram os protestos, se espalharam tanto pelas redes sociais quanto pelo mundo offline, com personalidades se posicionando a favor dos atos. A visibilidade dada a esses movimentos, que são antigos, tem dupla função: permitir que mais negros se identifiquem e que brancos reconheçam os privilégios que possuem.

“Está tendo uma maior identificação, mas porque tem muita gente e o pessoal do movimento negro falando bastante. Somos a maioria (da população brasileira), mas que ainda ocupa um estágio de grande vulnerabilidade na sociedade. Os benefícios, os privilégios, ainda estão na camada de sociedade da população branca, que ainda tem estranheza de ver um negro dentro do seu meio”, diz Eliete.

Entenda os termos

Racismo estrutural: é a construção social, política e econômica que tem por objetivo manter as estruturas do sistema, tendo o conceito de raça como prioritário na manutenção dos privilégios. Como se costuma dizer, é o racismo que está entremeado na sociedade, nas instituições, na escola, no trabalho, na mídia, em toda parte. Ainda assim, e justamente por estar ali há tanto tempo, é difícil reconhecê-lo.

Preconceito: é um juízo de valor que se faz previamente com base em estereótipos acerca dos indivíduos. Em uma definição sociológica, política e jurídica, o preconceito racial tem como alvo a pessoa de um determinado grupo racializado, que pode ou não resultar em práticas de discriminação.

Racismo: trata-se da discriminação racial, em que se atribui um tratamento diferenciado a indivíduos de grupos racialmente identificados. Nesse caso, o racismo tem como requisito fundamental o poder. 

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