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Humberto Werneck
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Áustero parlapastor

Em mais uma demonstração de que ninguém é ruim numa coisa apenas, o cada vez mais notório deputado-pastor Marco Feliciano, crente que estava abafando, lascou numa entrevista, faz uns dias, um constrangedor “medidas áusteras”. Mas não será por isso, por tratar a língua portuguesa com o mesmo respeito com que trata um gay, que o Altíssimo, chegada a sua hora, o fará flambar nas chamas do Inferno - Inferno que, fico a imaginar, o parlamentar (parlapastor?) atingiria após atravessar um corredor polonês em que seria esbordoado por capetas armados com gramática e vocabulário ortográfico. Se espezinhar o idioma não fosse um dos direitos humanos, no caldeirão do Inimigo já não haveria espaço para Sua Excelência, que também nesse particular é um lídimo - e áustero - representante do povo brasileiro.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S. Paulo

31 Março 2013 | 09h38

Você, que faz parte desse povo, mas que não maltrata com tamanha desenvoltura a língua pátria, nem se inclui entre as ovelhas do aprisco eleitoral do Feliciano, por favor não se ofenda com o que acaba de ler no parágrafo acima. Estou só falando, e me perdoe se já não é pela primeira vez, dessa mania que temos de “melhorar” as coisas pelo verbo, na impossibilidade (ou incapacidade) de melhorá-las de outra forma.

As coisas e também as pessoas: basta ler ou ouvir, por exemplo, a escalação de um time de futebol, onde pululam prenomes carregados de ípsilons e outras tortuosidades ortográficas, que não raro macaqueiam nomes importados. É como se os pais, já desconfiados das asperezas materiais que aguardam seu recém-nascido, buscassem contrabalançar a pobreza com uma pretensa sofisticação onomástica. E tome Richarlyson, Maicon e Maicosuel - enquanto entre os ricos ou remediados, curiosamente, se vai em sentido oposto, na busca do despojamento de João, Maria, Antônio, com o cuidado, porém, de não chegar ao Benedito e ao Sebastião. Procure se lembrar do surto de nomes pescados no Novo Testamento que assolou o país alguns anos atrás. Dos Doze Apóstolos, que eu saiba, só não tivemos Judas. E duvido que tenha sido por humildade que não sobreveio a moda do Jesus.

O empenho em “melhorar” a fala volta e meia desemboca no fenômeno que os gramáticos chamam de hipercorreção, em que, por excesso de zelo, o que estava certo é convertido em erro. O tal “medidas áusteras” do parlapastor Feliciano é apenas a ilustração mais recente da generalizada convicção nacional de que as palavras proparoxítonas são mais “chiques” que as demais. Não vejo outra explicação para “púdico” ou “rúbrica”. Mas vamos além - nós nos metemos a dar retoques também em língua alheia, com o que chegamos a ser mais franceses que os próprios franceses: derrubamos o beiço para dizer “laquê” quando na França se diz “laque”. Em São Paulo se dá pronúncia gaulesa - “balê” - a “balé”, embora esta seja a forma aportuguesada de “ballet”.

“Coisa de pobre”? Nananinana. Décadas depois da morte do escritor que em vida era unanimemente chamado de Oswáld de Andrade, com tônica no A, quando não de Oswaldo, gente ilustrada não se inibe em tascar circunflexo e sai dizendo “Ôswald”. Tem colégio fino que não abre mão do chapeuzinho. Matriculado lá, eu não me arriscaria. Pouco ou nada adiantou o professor Antonio Candido - amigo do escritor -, num artigo publicado há mais de 30 anos, chamar atenção para “essa bobagem de Ôswald”. O risco, advertiu nosso maior crítico, é que a moda pegue: “Na próxima geração, quando estiver sendo devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia do seu nome escocês deve ser reajustada”.

Se não valer o toque de Antonio Candido, nada restará a fazer. A não ser, quem sabe, que o pastor Feliciano tenha na manga alguma áustera medida para nos propor.

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