Autocombustão

Há alguns meses o ex-deputado e dirigente petista José Dirceu foi repreendido pelo comando da campanha da então candidata Dilma Rousseff, por ter dito numa reunião de petroleiros em Salvador que o PT pós-Lula na Presidência da República iria finalmente chegar de fato ao poder.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

A declaração foi considerada contraproducente do ponto de vista eleitoral: poderia desestimular o eleitorado ainda arisco por causa das peripécias de mensaleiros e aloprados, além de irritar os partidos aliados, notadamente o PMDB, que alimentavam a esperança de herdar capitanias mais substanciais na Esplanada dos Ministérios.

Pela conformação inicial da equipe de Dilma vê-se que Dirceu na época relatara a verdade aos companheiros. O PT ficou com a parte do leão e mais um pouco. Ao ponto de deixar o PMDB com o sapo engasgado para ser expelido em ocasião propícia.

Não obstante os privilégios concedidos, o partido continuou insatisfeito. Achou que há paulistas demais no ministério, que há espaço de menos para essa ou aquela tendência, que o PT de Minas tão sacrificado merecia mais que apenas abrigar Fernando Pimentel.

Achou também que deveria descontar na disputa pela presidência da Câmara, de onde a bancada implodiu as candidaturas de Cândido Vaccarezza e Arlindo Chinaglia em favor do gaúcho Marco Maia.

Quem? Pois é. Pouca gente sabe até mesmo se terá votos suficientes para se eleger.

Problema dos deputados e do PT, dirão os leitores. Mais ou menos: da última vez que o PT resolveu misturar suas brigas internas com a presidência da Câmara, foi eleito Severino Cavalcanti.

O partido quis agradar à esquerda, amuada desde que Lula resolvera governar com a política econômica do antecessor, e lançou Luiz Eduardo Greenhalgh sem levar em conta suas chances eleitorais. Era favorito, por ser apoiado pelo governo, mas perdeu.

Agora a lógica da briga interna prevalece outra vez. Queira o bom senso que não resulte no mesmo tipo de desastre.

Come cru. A pressa foi realmente inimiga da perfeição para os deputados favoráveis à aprovação do projeto de legalização dos bingos. Contrariando todas as expectativas, a Câmara rejeitou por expressivos 212 votos a 144.

Quiseram atropelar o processo, votar em regime de urgência aproveitando a distração geral com a formação do ministério, mas a atuação das áreas técnicas dos Ministérios da Fazenda e da Justiça junto à Receita e à Caixa Econômica Federal esclarecendo os malefícios do projeto foi fundamental para a derrota.

O lobby do jogo fica informado de que é preciso mais que uma aliança com a barra pesada do Parlamento para conseguir seu intento. É preciso, sobretudo, apresentar uma proposta decente a ser negociada com a sociedade e todas as instâncias de fiscalização da atividade em si e de prevenção à criminalidade.

Seria ponto a favor da Câmara se no dia seguinte os deputados não tivessem se reunido para aprovar um imerecido aumento de salário, considerando o desempenho de suas excelências na última legislatura, que começou com a farra das passagens e termina com a farra das emendas ao Orçamento.

Uma de duas. É verdade que o Exército resiste - e com razão - à transformação de seus batalhões em tropas de ocupação dos morros do Rio. Os militares alegam que a função deles não é essa e que há o receio de soldados terminarem sendo cooptados pelo crime.

Mas é verdade também que o efetivo das Polícias Civil e Militar, cujo trabalho inclui a cobertura do Estado todo, não é suficiente para assegurar a vigilância necessária aos territórios recentemente retomados pelo poder público na cidade do Rio de Janeiro. Até porque o cronograma da Secretaria de Segurança previa essa ação mais à frente.

Logo, ou se aumenta o efetivo policial em proporção inexequível em curto prazo ou não há jeito: o Exército precisa ficar. Só que as autoridades, estaduais e federais, têm a obrigação de assegurar a prevenção dos danos da referida contaminação.

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