Kelly Nascimento/NascimentoSouzaPress
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Autor de disparos em escola de Goiânia é levado a centro de internação

Por questões de segurança, Juizado não informou para qual unidade o garoto foi encaminhado; ataque deixou 2 mortos e 4 feridos

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 17h33
Atualizado 23 Outubro 2017 | 21h48

GOIÂNIA - De chinelo e bermuda, com o rosto coberto por um colete da Polícia Civil, o adolescente de 14 anos apreendido por ataque a mão armada em um colégio de Goiânia foi transferido na tarde desta segunda-feira, 23, da Delegacia de Polícia de Apuração de Atos infracionais (Depai) para um centro de internação. O local, definido pelo Juizado da Infância e Juventude (JIJ), não foi divulgado pela Depai por questões de segurança. Ele deve cumprir no máximo 45 dias de internação provisória.

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No último sábado, 21, a juíza plantonista Mônica Cezar Moreno Senhorelo havia decidido pela internação no Centro de Internação Provisória (CIP) de Goiânia. A advogada do estudante, Rosângela Magalhães, no entanto, fez um pedido para que o adolescente fosse levado a outro local, sob a alegação de que o CIP não seria seguro, uma vez que o caso é de grande repercussão e o jovem é filho de policiais militares.

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Goiás possui apenas um Centro de Internação Provisória (CIP), que fica em Goiânia. Em todo o Estado são 10 centros de atendimento socioeducativo. Rosângela confirmou ao Estado que o adolescente não foi para o CIP, mas disse que não poderia confirmar se ele ficaria em Goiânia ou se iria para uma cidade no interior.

A advogada frisou que o estudante correria risco se fosse transferido ao CIP. Questionada se acreditava que o adolescente teria melhor atendimento no local para onde foi levado, Rosângela disse que a única preocupação é com a segurança dele. "Nós queremos apenas que ele não morra", afirmou.

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O adolescente ficará no local para onde foi transferido provisoriamente, até sair a sentença definitiva de onde ele deverá cumprir a medida socioeducativa e por quanto tempo. O prazo máximo de internação para adolescentes é de três anos.

Investigação

O auto de investigação foi remetido de forma preliminar ao Juizado da Infância e Juventude (JIJ) na sexta-feira, 20, dia do atentado na escola. Agora, a Polícia Civil manda peças complementares com outros pontos da investigação, como depoimento de testemunhas.

O delegado titular da Depai, Luiz Gonzaga Júnior, disse que as circunstâncias já estão bem esclarecidas, assim como o que aconteceu e a eventual motivação centrada na questão do bullying, o qual o adolescente alegou sofrer. O delegado afirma, no entanto, que a promotoria deve requisitar o acompanhamento psicológico do adolescente para traçar com mais profundidade a motivação e o psicológico do estudante. 

Gonzaga lembrou que o jovem se baseou nos massacres de Columbine e Realengo, sendo o bullying sofrido o estopim. Em depoimento na tarde desta segunda-feira, o pai do adolescente disse que não sabia que ele sofria bullying.

Abalado

A advogada Rosângela Magalhães afirma que o estudante está muito abalado e se diz arrependido. "Está chocado, choroso. Ele acertou um amigo, né? Ele disse que o João Vitor era amigo dele", pontuou.

João Vitor Gomes e João Pedro Calembo, ambos de 13 anos, foram alvejados na cabeça e morreram no local. Outros quatro estudantes ficaram feridos. Um deles recebeu alta hospitalar na manhã deste domingo, 22.

Para a advogada, no decorrer do processo será possível entender melhor o que aconteceu e a motivação do adolescente. "No fundo, no fundo é inexplicável. Mas com o decorrer da instrução do processo, vai ser importante para a gente esclarecer os fatos de alguma forma. Porque é muito dolorido para todos os envolvidos", disse.

CDF

O adolescente que realizou o ataque é um bom aluno, muito inteligente e tem um bom relacionamento com a família, segundo informou o pai do jovem em depoimento na Depai nesta segunda-feira.

"Era tido como 'CDF', por ele (pai), pela família. Foi confirmada essa informação na escola, que ele era muito inteligente", disse o delegado titular, Luiz Gonzaga Júnior.

No depoimento, o pai afirmou ainda que não sabe como o filho teve acesso à munição e ao carregador, que ficavam trancados. O homem disse também que não tinha conhecimento do bullying sofrido pelo jovem.

Gonzaga explicou que até o momento se sabe que o adolescentes efetuou de 10 a 12 disparos. Ele chegou a recarregar a arma, mas foi impedido de continuar pela coordenadora da escola, Simone Maulaz Elteto. 

O adolescente tem um irmão mais novo, de 8 anos. A advogada do jovem, Rosângela Magalhães, disse que ambos nunca tiveram acesso às armas dos pais, que são policiais militares.

Recuperação

Uma das adolescentes baleada durante o ataque recebeu alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na manhã desta segunda-feira. A jovem, de 13 anos, continuará o tratamento em um leito de enfermaria do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). Neste momento, conforme a unidade, ela está consciente e respira sem auxílio de aparelhos. 

A outra paciente que continua no Hugo, também de 13 anos, está em estado regular, consciente e também respira de forma espontânea. Ela segue internada em uma UTI do hospital.

Outra vítima, um garoto de 13 anos, recebeu alta hospital na manhã deste domingo, 22. Ele foi atingido nas costas. Seu pai, Thiago Gomes, afirmou que a bala ficou alojada nas vértebras e passou a menos de um centímetro da medula.

Ele deve ser ouvido na Depai na próxima quarta-feira, 25. Inicialmente, o adolescente seria ouvido na tarde desta segunda-feira. No entanto, o delegado titular Luiz Gonzaga Júnior remarcou o depoimento para quarta-feira. De acordo com ele, nenhuma testemunha será ouvida nesta segunda-feira.

As duas vítimas que morreram, João Vitor Gomes e João Pedro Calembo, ambos de 13 anos, foram enterrados no sábado, 21.

 

Arma

O tenente-coronel Marcelo Granja, assessor de comunicação da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMEGO), disse ao Estado que a corporação vai abrir um procedimento administrativo para apurar como o estudante de 14 anos que atirou nos colegas teve acesso à arma da PM, uma pistola calibre .40. 

De acordo com ele, ainda nesta segunda-feira deve ser instaurada uma portaria para uma sindicância ou inquérito policial militar (IPM). No caso do primeiro, serve para apurar indícios de transgressão ou crime e tem prazo de 30 dias, sendo prorrogáveis por mais 20. Já o inquérito, com prazo de no máximo 60 dias, é para quando já se vislumbra o crime. Quem define qual será o procedimento é o corregedor.

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