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Autores dos maiores sequestros de São Paulo estão livres

Os autores dos maiores seqüestros da história de São Paulo estão impunes. Faltam à polícia provas e sobram suspeitas. Ninguém foi preso, exceto parte da quadrilha que levou o empresário Abílio Diniz. Nunca mais se viu um tostão dos quase US$ 14 milhões pagos para libertar as demais vítimas ? empresários, banqueiros e publicitários. Eles viveram, ao todo, 280 dias em cativeiro, onde foram vendados, mal-alimentados e fechados em cubículos com pouca ventilação.Após o pagamento dos resgates, pouca coisa foi descoberta pela polícia sobre os seqüestradores. Entre as pistas seguidas está a do envolvimento de componentes de grupos da extrema esquerda, como o Movimento Esquerda Revolucionária (MIR) do Chile e a Frente Patriótica Manoel Rodrigues, braço armado do Partido Comunista daquele país.Dez membros do primeiro e da Frente de Libertação Popular (FPL), um dos grupos da guerrilha salvadorenha, foram presos e condenados pelo seqüestro de Diniz. A polícia tem fotografias de quatro foragidos, entre eles uma mulher que usava o nome de Maria Yvonne Braeckman. Ela seria integrante da Fração do Exército Vermelho, organização terrorista alemã mais conhecida pelos sobrenomes de seus dois fundadores: Andreas Baader e Ulrich Meinhoff.Falta de provasA ação desses extremistas explicaria quatro desses seqüestros: os de Diniz, do banqueiro Antônio Beltran Martinez, do publicitário Luiz Salles, e do publicitário Geraldo Alonso Filho. Três dos seqüestradores de Diniz chegaram a ser processados, mas absolvidos em 1999 por falta de provas, sob a acusação de participar do seqüestro de Salles: o líder do grupo, o argentino Humberto Paz, e os chilenos Pedro Lembach e Ulisses Gallardo.?Culpados existem; a única coisa que a Justiça decidiu é que não há provas contra esses três?, afirmou o publicitário na época. ?O modo de agir foi igual no meu caso, no do Diniz e no do Beltran, ou seja, trata-se do mesmo grupo, mas podem não ter sido as mesmas pessoas.? Nos outros dois casos, a polícia não reuniu evidências suficientes para acusar quem quer que fosse.No mais longo dos crimes, o do banqueiro Ezequiel Edmond Nasser, que era proprietário do banco Excel e passou 75 dias no cárcere, nenhuma pista. Nos demais, o dos empresários Antônio Peralta e Girz Aronson, as pistas seguidas foram a ação de uma quadrilha formada em Minas e especializada em seqüestros ou a do bando dos irmãos Oliveiras.RotinaO mistério que envolve esses crimes começou há 15 anos, em 7 de dezembro de 1986. Às 6 horas daquele dia, o banqueiro Beltran Martinez, então vice-presidente do Bradesco, acordou, fez a barba e despediu-se da mulher, Lecy, com um beijo, pouco depois das 7 horas. Ele deixou a casa, na avenida São Gualter, em Pinheiros, zona oeste, e foi à sede do banco, em Osasco, Grande São Paulo.Fazia sempre o mesmo caminho e tinha o hábito de telefonar para a mulher quando chegava ao escritório. Às 9h30, um entregador apareceu na casa e deixou uma cesta de flores com um bilhete. Era o aviso de que Beltran Martinez havia sido levado. A negociação, por meio de cartas, durou 41 dias e o filho do banqueiro pagou o resgate, de US$ 4 milhões.Três anos depois, no dia 31 de julho de 1989, foi a vez de o publicitário Luiz Salles ser dominado. Passou 65 dias no cativeiro e chegou em casa num táxi, após sua família ter deixado na rodovia dos Imigrantes US$ 2,5 milhões ? os seqüestradores liberam-no nas imediações da estação Conceição do metrô. Em 1999, quando soube da absolvição dos acusados, Salles disse: ?Nunca pensei em vingança: meu sentimento cristão é mais forte.?AmbulânciaEntão vice-presidente do Grupo Pão de Açucar, Abílio Diniz seria a próxima vítima. Ele foi apanhado pouco depois de sair da casa, no Jardim Europa, zona sul. Os seqüestradores fecharam o Mercedes-Benz de Diniz e puseram-no em uma Caravan, disfarçada de ambulância pelos bandidos. Levado para uma casa no Jabaquara, zona sul, o empresário ficou num cubículo construído especialmente para abrigá-lo.Um cartão de uma oficina deixado pelo mecânico no interior da Caravan foi a pista que levou a polícia aos seqüestradores. Na oficina, o proprietário ainda conservava o papel com o endereço do homem que havia deixado o carro, comprado por Maria Yvone Braeckman. Ali foi preso o primeiro dos acusados, até que se deteve Humberto Paz, que levou os policiais ao cativeiro. Ainda seriam necessários dois dias de negociações para que a quadrilha se entregasse ? tempo que a polícia desconfia ter sido usado para que os demais membros fugissem do Brasil.Condenados definitivamente a penas que variavam entre 12 e 18 anos de prisão, Paz, seu irmão Horácio, os cinco chilenos do grupo e os dois canadenses foram transferidos para seus países em 1999, onde deveriam terminar o cumprimento da pena. No mesmo ano, a Justiça determinou a transferência do único brasileiro do bando, Raimundo Rosélio, para o Ceará, onde ganhou a liberdade condicional.ParecidaO sucesso da polícia com Diniz não mais se repetiria nos grandes casos. Na noite de 8 de dezembro de 1992, o publicitário Geraldo Alonso Filho, que estava em seu Opala com a mulher, foi apanhado na porta de casa, em Cidade Jardim, na zona sul, e deixado no porta-malas de uma Caravan ? carro comprado por uma mulher muito parecida com Maria Yvone, uma das seqüestradoras de Diniz.Alonso Filho, proprietário da agência Norton Publicidade, ficou 36 dias nas mãos dos criminosos e a libertação custou US$ 3 milhões. Chorando, ele contou ter ficado em um quarto pequeno com paredes brancas, no qual havia uma cama. Comeu arroz, macarrão, carne e frutas e foi fotografado três vezes segurando jornais do dia, como prova de que estava vivo ? em uma dessas ocasiões, estava algemado. No fim, os seqüestradores deixaram-no na zona sul, não muito longe de São Bernardo do Campo, onde seria libertado o banqueiro Nasser.Seqüestrado em 28 de abril de 1994, o ex-proprietário do Excel foi dominado pelos criminosos quando ia para casa, no Morumbi, em seu Mercedes-Benz. Como Alonso Filho, ele também estava acompanhado da mulher. Os criminosos fecharam o banqueiro com dois veículos. Um terceiro carro dava cobertura.Quatro homens quebraram o pára-brisa do Mercedes e ordenaram à mulher da vítima que saísse e deitasse no chão. Um segurança do banqueiro, que o seguia em um Voyage, reagiu e foi baleado.Rei do CaféO cativeiro de Nasser também era um quarto pequeno, que permanecia sempre com a luz acesa e música em volume alto. Na época, a polícia chegou a suspeitar da quadrilha responsável pelo seqüestro naquele mesmo ano do fazendeiro Décio Ribeiro, o ?Rei do Café?, libertado após ter pago US$ 630 mil. Mas nenhuma pista ou prova confirmou essa tese.Haveria uma pausa de quatro anos até que outro grande caso ocorresse. Girz Aronson tinha 81 anos quando foi levado no dia 17 de setembro de 1998 pelos seqüestradores. Ele estava abrindo a matriz de sua rede de lojas na Rua Conselheiro Crispiniano, no centro de São Paulo. Passou o ano-novo judaico no cativeiro, emagreceu nos 14 dias em que esteve em poder dos criminosos e só retornou para casa após o pagamento, segundo sua família, de R$ 117 mil.O suspeito de chefiar o bando que levou Aronson é o mesmo que teria planejado a captura do empresário Antônio Peralta, a última grande no Estado: Moacir Francisco de Oliveira, acusado de ser um dos chefes da quadrilha dos irmãos Oliveira. Peralta, ex-dono da rede de supermercados que levava o seu nome, foi solto após pagar R$ 3 milhões. Ficou 42 dias no cativeiro e obteve a liberdade em 8 de janeiro de 1999. Mais uma vez, não houve prisões.Anos depois, o mistério permanece, enquanto as vítimas recusam-se a falar sobre o pesadelo que viveram, como explicou o publicitário Salles: ?Resolvi esquecer esses bandidos; que Deus os perdoe.?

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