Autoria de pintura em prédio de SP é mistério

Moradores do edifício Brasilar, no centro, querem descobrir o autor para conseguir patrocínio para a restauração do afresco e o tombamento

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

Procura-se o autor do painel acima com urgência. Moradores do edifício Brasilar, no centro, buscam o artista que, entre os anos 40 e 50, fez um afresco em seu hall de entrada com 2,65 metros de altura e 3,65 metros de comprimento. Por causa das enchentes que atingiam o local, boa parte da pintura está praticamente apagada. Junto com as cores, também está desaparecendo a memória do edifício e da própria região central. A pintura, em tons pastel, retrata, ao que tudo indica, a Ladeira da Memória. Ao fundo, o telhado de uma casa antiga e, ao que parece, um trecho da Rua Xavier de Toledo. Dois casais elegantes estão em meio a homens que deveriam ser escravos. Um anjo também compõe a cena. O painel não está assinado e não se sabe se foi uma decisão do artista ou se o nome foi apagado pelos anos."Nós estamos lutando contra o tempo, porque a pintura está a cada dia mais deteriorada", afirma o artista plástico Pedro de Kastro, de 37 anos. Português, mora no prédio há seis anos e sempre teve a certeza de que estava em frente de uma obra de arte que se perdia. "No começo, achava que era de Di Cavalcanti." O desejo de Pedro de descobrir o autor da pintura era o mesmo da síndica do Brasilar, Edeíldes Soares, de 69 anos. Moradora dali há 36, ela tem na memória o afresco. "Era lindo, mas, naquela época, na correria do dia-a-dia, nunca prestei atenção no autor." Mas ela lembra bem da deterioração. "Todo o verão, dava muita enchente. Era tanta água que chegava a bater no meio do painel." Há dois anos, ela se tornou síndica e descobriu que o prédio não era tombado. A partir daí, começou a busca pela história do edifício e do painel - descobrir seu autor pode ajudar a conseguir patrocínio para a restauração e seria um passo para o tombamento. Há dois meses, depois de bater em muitas portas, as esperanças dos moradores aumentaram. A Associação Viva o Centro se interessou pela jornada da comunidade e levou o curador de arte Fábio Magalhães para ver a pintura. Ele não conseguiu identificar o autor, mas incentivou os moradores a continuar na busca.A arquiteta e restauradora Cândida de Arruda Botelho ficou sabendo da mobilização e foi ao prédio, ontem, examinar o painel. Ela foi atraída ao local por ver semelhança entre o afresco e a obra do artista suíço John Graz (1891-1980), de quem ela é especialista e escreveu um livro a respeito. Ficou encantada com o que viu. "As características são muito típicas de Graz", afirmou. Cândida comparou, por exemplo, as manchas nas figuras humanas, muito comuns nas obras do artista suíço e presentes em todas as que estão no painel. O tom pastel também foi típico do autor, nessa época. Graz chegou a São Paulo em 1920. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna. Aos 89 anos, morreu em São Paulo."Tomara que seja dele mesmo", vibrou a síndica. Cândida vai estudar a obra, para descobrir se pertence mesmo ao suíço. Quem tiver informações sobre a pintura ou seu autor, pode entrar em contato com o Viva o Centro (avc@vivaocentro.org.br).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.