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Autoridades da Argentina ainda não definiram se resgatarão alpinista

Brasileiro Bernardo Collares sofreu um grave acidente nesta segunda, 3, quando descia do pico Fitz Roy, na Patagônia; clima na região torna missão de resgate perigosa

Ariel Palácios e Marcelo Auler, O Estado de S. Paulo

07 de janeiro de 2011 | 15h36

BUENOS AIRES - As autoridades argentinas ainda não definiram se resgatarão - ou não - o corpo do alpinista brasileiro Bernardo Collares, que nesta segunda-feira, 3, teve um grave acidente quando descia do pico Fitz Roy, na área do vilarejo de El Chaltén, na província de Santa Cruz, no extremo sul da Argentina.

 

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Por trás da decisão final, que está nas mãos da Justiça Federal da cidade de Río Gallegos, estão as graves dificuldades para aproximar-se do lugar do acidente, os problemas climáticos que afetaram a área nesta semana, além dos riscos que implicaria para os integrantes da missão de resgate. O Fitz Roy, uma agulha de granito, é um dos picos de mais difícil escalada na América do Sul.

 

Érika Collares Antunes, irmã do alpinista, chegou hoje de manhã a Buenos Aires e esteve com o vice-cônsul brasileiro Marcos Maia, que a informou que as autoridades argentinas já colocaram à disposição um helicóptero, todo o pessoal e equipamentos necessários para tentar o resgate. Érica voou para El Chatén, onde deve ter chegado no início da tarde.

 

"Eles estão em coordenação para ver a melhor maneira de fazer o resgate, é uma operação muito perigosa e eles não podem colocar em risco os funcionários da Gendarmería, por isto está demorando. Eles criaram uma comissão de análise não só com o pessoal da Gendarmería, mas também com os montanhistas da região que, no final das contas, têm muito mais conhecimentos técnicos de como sobre nas montanhas", explicou Maia, agora à tarde, ao Estado, por telefone. Ele não deu garantias de que o resgate possa ocorrer ainda hoje.

 

"A Justiça até pode determinar que seja formada uma missão para resgatar o corpo. Mas aí vai aparecer um problema: quem vai estar disposto a subir até lá? Descer com um corpo ou com uma pessoa ferida é uma tarefa complicadíssima. Seria mais ou menos como se o juiz ordenasse a alguém que pule por um precipício. Não é fácil", explicou em off ao Estado uma fonte das forças de segurança da região.

 

Collares. Presidente da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro e vice-presidente da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - sofreu um acidente na segunda-feira quando escalava o Fitz Roy acompanhado de sua colega Kika Bradford. Ele estava em plena descida pela via Afanassiev (que não era usada por alpinistas desde 1979) quando a corda do rapel que usava soltou-se do ponto onde estava ancorada. Collares, que despencou quinze metros, teria sofrido hemorragia interna e provável fratura da bacia. Para buscar socorro, Kika Bradford foi obrigada a deixar Collares na montanha.

 

As autoridades da província de Santa Cruz consideram que existem baixas chances de encontrar Collares vivo, já que na terça-feira à noite ocorreu uma forte tempestade na área.

 

O oficial Irález, da Gendarmería (corpo com funções policiais em zonas de fronteira) em El Chaltén, disse ontem (sexta-feira) ao Estado por telefone que "por enquanto não há nenhuma informação nova sobre o caso. Ainda não foi feita uma uma comissão para ir resgatar o corpo".

 

Segundo Irález, "o resgate, se for implementado, será uma missão complexa, já que as condições climáticas ao redor do pico são costumeiramente adversas. Para complicar, o lugar onde o alpinista ficou é de difícil acesso. Tentar chegar com um helicóptero é praticamente impossível devido aos fortes ventos, que poderiam chocar o aparelho contra as paredes da montanha, e à ausência de qualquer lugar no qual o helicóptero poderia aproximar-se para pousar".

 

O oficial sustentou que Collares e sua colega não informaram a Gendarmería nem as autoridades dos Parques Nacionais sobre a escalada ao perigoso pico. "Na realidade, não existe uma obrigatoriedade de informar. No entanto, seria conveniente que as pessoas avisem quando fazem esse tipo de escaladas".

 

Mortos. Em dezembro, um mês antes do acidentes de Collares a região ao redor do pico Fitz Roy foi o cenário da morte do alpinista mexicano Mario Corsalini, que ficou preso em uma geleira quando fazia trekking entre o vilarejo de El Chaltén e El Calafate. Em agosto passado foi a vez do alpinista argentino Felipe González, que perdeu-se quando escalava na área do passo Marconi. Seu corpo somente pode ser resgatado dois meses depois.

 

Ambos casos, antes do acidente de Collares, haviam gerado críticas entre os habitantes da região às autoridades argentinas sobre a falta de helicópteros para emergências similares.

 

Fumante. Os indígenas tehuelches chamavam o Fitz Roy de "El Chaltén", que em seu idioma significa "a montanha que fuma", em referência à frequente presença de nuvens que costumam cobrir o pico. O pico, visto pela primeira vez por homens brancos em 1877, é a montanha sagrada dos Tehuelches. Seu cume, de complexo acesso, somente foi conquistado em 1952 por dois alpinistas franceses.

 

Na mitologia tehuelche o Fitz Roy foi o cenário de uma épica protagonizada por Elal, um jovem que fugiu de seu pais e chegou ao cume do pico montado em um cisne. Depois, levou quatro dias para descer do topo. No meio do caminho foi atacado por Shie e Kokesne, espíritos da neve e do frio. Mas, Elal os afastou com fogo. Quando conseguiu chegar ao sopé da montanha foi recebido com carinho por um grupo de indígenas tehuelches. Como demonstração de agradecimento, Elal ensinou aos indígenas o uso do arco e flecha e como acender o fogo.

 

Notícia atualizada às 16h05.

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