Autoridades e sindicatos repudiam tortura a jornalistas

As milícias controlam 63 favelas nas zonas norte e oeste da cidade, segundo levantamento da prefeitura

Márcia Vieira, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2008 | 17h46

A tortura à equipe de 'O Dia' por milicianos na favela do Batan, em Realengo (zona oeste), chocou autoridades estaduais e dirigentes de entidades ligadas à imprensa. O governador Sergio Cabral, em nota, disse que "considera absolutamente intolerável o fato ocorrido com a reportagem de 'O Dia' e determinou rigor máximo nas investigações." Cabral diz que "é preciso fixar que a liberdade de expressão deve ser assegurada. A imprensa precisa - e deve- fazer o seu trabalho".  O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, está indignado com o crime. "Isso mostra uma deterioração do aparelho do Estado na área de segurança. Chegamos a um ponto tão grave que gera situações como essa", disse. Azedo lembrou que ontem, quando saiu a edição do jornal O Dia relatando a tortura, foi o Dia da Imprensa e véspera do aniversário de seis anos do assassinato do jornalista Tim Lopes por traficantes na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão. " O que aconteceu é um sinal de que não se modificaram as condições que conduziram à imolação de Tim Lopes. Seis anos depois aconteceu de novo. É um milagre que a equipe de 'O Dia' tenha sobrevivido." Para lembrar a morte de Tim Lopes e protestar contra a tortura aos jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas do Rio vai fazer nesta segunda-feira, 2, na Cinelândia, um ato de repúdio ao estado paralelo, representado pelas milícias. Em nota, o sindicato diz que "assim como a bomba do Riocentro, em 1981, desmontou a ditadura dos carrascos militares, a tortura dos jornalistas em Realengo, destrói a ilusão de que as milícias possam representar alternativa ao narcotráfico nas áreas sem assistência do Estado". Para o sindicato "se o governo Sérgio Cabral não punir de forma exemplar os torturadores de Realengo, passará à História como cúmplice da tortura no Rio de Janeiro em plena vigência do Estado de Direito." A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, criada após o assassinato de Tim Lopes, também lamentou ontem a tortura à equipe de O Dia. Em nota, chama atenção para a responsabilidade das empresas de comunicação na "segurança de seus funcionários. A elas cabe avaliar os riscos que eles possam correr". A mensagem da Abraji conclui que uma de suas principais preocupações é "a luta pela preservação da integridade física dos jornalistas, um assunto que profissionais e empresas têm de se empenhar em debater com mais profundidade". A Associação Mundial de Periódicos divulgou na sexta-feira que desde novembro foram assassinados 28 jornalistas no mundo. Maurício Azêdo, presidente da ABI, acha que o risco é inerente à profissão. "Infelizmente esse é um traço na profissão que tem que ser assumido pelos jornalistas. Alguém tem que ser testemunha desta situação de terror que vivem estes moradores de favelas dominadas pelo tráfico ou pelas milícias". Chico Alencar (PSOL-RJ), da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, acredita que a expansão das milícias no Rio em contraponto aos traficantes é o caminho da bárbarie. "A ação das milícias é ainda mais desumana que a dos reconhecidos marginais: estes milicianos amparam-se na lei e em equipamentos do Poder Público para agir de maneira despótica e igualmente criminosa. Seu poder paralelo e violento é ainda maior que o dos traficantes." O prefeito Cesar Maia também acha que o ataque à equipe de jornalistas é um "fato de extrema gravidade, pois reproduz a lógica do tráfico de drogas, apenas trocando as fontes de receitas". Para o prefeito do Rio, a reportagem mostra que "o direito de ir e vir inexistia na favela e que as relações desses milicianos com os moradores é de terror."  Domínio das milícias As milícias controlam 63 favelas nas zonas norte e oeste da cidade, segundo levantamento da prefeitura. São grupos paramilitares, formados por policiais militares, civis e bombeiros da ativa e da reserva, que expulsaram facções criminosas e assumiram a "segurança" das comunidades. Além de cobrar por essa segurança, também administram serviços como distribuição de gás, água e gatonet (tevê a cabo). Os milicianos alegam que arriscam a vida para manter a favela livre do tráfico, por isso, acreditam, merecem ser pagos por isso. Eles também impõem um rígido código de conduta. Se desobedecidos, as punições são severas. Os milicianos têm o próprio tribunal e exercem todos os papéis - prendem o acusado, julgam e executam as penas. A favela de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, na zona oeste, foi a primeira a ser dominada por milícias. O local acabou inspirando a Favela da Portelinha, retratada na novela Duas Caras. Não há favelas dominadas por milícias na zona sul da cidade, ainda segundo o levantamento da prefeitura. (Colaborou Clarissa Thomé, de O Estado de S. Paulo) 

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