Avião desaparece no Atlântico com 228 a bordo; 59 brasileiros

O voo 447 (Rio-Paris) da Air France saiu do Aeroporto do Galeão às 19h30 de domingo e seguia desaparecido até a 0h30 de hoje. As autoridades já tratavam o caso como "catástrofe aérea", a pior da história da Air France e a primeira com um modelo Airbus A330. Trata-se ainda do primeiro acidente grave nessa rota - considerada segura - em mais de sete décadas e o maior no mundo desde 2004. Os 228 passageiros e tripulantes - incluindo 59 brasileiros - têm "escassas perspectivas" de serem localizados, nas palavras do presidente francês, Nicolas Sarkozy. Ele chegou a trocar condolências com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. As buscas, que seguiriam por toda a madrugada, serão intensificadas hoje em uma zona de algumas dezenas de milhas náuticas, perto da metade do caminho entre Natal, no Brasil, e Dacar, no Senegal. Acompanhe todas as notícias sobre a tragédiaOs passageiros e tripulantes compõem um mosaico de 32 nacionalidades, incluindo 72 franceses, 26 alemães, 9 italianos, 6 suíços, 5 britânicos e 5 libaneses. As dificuldades de identificação, aliás, já eram grandes desde a manhã, porque dezenas de passageiros têm dupla cidadania. Em Paris, à tarde, os painéis do Aeroporto Charles de Gaulle ainda apontavam o voo AF 447 como "em atraso". De acordo com informações oficiais, divulgadas pelo diretor-presidente da Air France, Pierre-Henri Gourgeon, até as 3h33 (22h33 no Brasil) não havia anomalias no voo. Naquele momento, o avião estava a 565 km de Natal, no Brasil, e voava a 840km/h e a uma altitude de 11 mil metros. "A última mensagem foi habitual. O controle aéreo foi informado de que o avião deixava o espaço aéreo brasileiro. Nesse momento, estava em velocidade de cruzeiro", explicou o executivo. Na sequência, o Airbus viajaria cerca de duas horas e meia em uma região sem controle de radares, sobre o Atlântico, até ingressar no espaço aéreo do Senegal.Às 4h13 (23h13 de Brasília), contudo, o sistema automático do avião passou a enviar, por ondas de rádio, uma dezena de mensagens nas quais acusava a pane de vários objetos elétricos da aeronave. O envio dos sinais se estendeu por 4 minutos, até que o sinal foi perdido. "Essas mensagens técnicas assinalaram uma série de situações imprevistas a bordo da aeronave. Depois delas, não houve mais trocas. É provável que pouco após essas mensagens tenha se produzido o impacto no Atlântico", informou Gourgeon. Segundo a companhia aérea, o avião enfrentava uma área de instabilidade, marcada por forte turbulência e tempestades elétricas. "Não é possível estipular até aqui se houve um vínculo entre as condições meteorológicas adversas e o acidente." Não houve novas comunicações da tripulação, que era bastante experiente. O comandante possuía 11 mil horas de voo, incluindo 700 em aeronaves do mesmo modelo do Airbus desaparecido. Um dos copilotos possuía 3 mil horas de voo e o outro, 6.600 horas de voo. O A330 estava equipado com motores da General Eletric CF6-80E e era considerado novo - começou a operar no dia 18 de abril de 2005. A última visita de manutenção em hangar ocorreu em 16 de abril deste ano. Hoje, dois investigadores franceses devem chegar ao Rio. A legislação aeronáutica estabelece que acidentes em águas internacionais sejam apurados pelo país de registro da aeronave, da companhia aérea ou da fabricante do jato - nos três casos, a França. Por enquanto, os militares brasileiros só darão apoio aos trabalhos.Os governos da França e do Brasil, com apoio da Espanha e do Senegal e de satélites do Pentágono, mobilizaram forças na localização da aeronave. A Marinha nacional iniciou as buscas com navios de Natal, Salvador e Maceió. As buscas brasileiras se concentram em uma área pouco distante do Arquipélago de Fernando de Noronha. No leque de hipóteses para explicar o acidente, chegou-se a levantar ainda a influência de um raio e até improvável atentado terrorista. A área onde o Airbus provavelmente caiu é de águas profundas, abismos oceânicos que vão de 3 mil a 7 mil metros. Essa massa de água bloqueia os sinais emitidos pela caixa-preta e pelos sensores de emergência. Se isso ocorreu, haverá grande dificuldade de resgate. A Organização Internacional de Aviação Civil (Icao) alerta que a investigação poderá levar anos para ser concluída e se tornará uma das mais caras da história na busca por destroços.A lista oficial com o nome das vítimas não foi divulgada ontem. A justificativa foi a de que isso só será possível quando todas as famílias dos passageiros forem informadas. A Air France enfrentava dificuldades para isso porque passageiros não preencheram a ficha de embarque, que não era obrigatória. COLABORARAM ADRIANA CARRANCA, ADRIANA MOREIRA, ALBERTO KOMATSU, ALEXANDRE RODRIGUES, BRUNO PAES MANSO, BRUNO TAVARES, CLARISSA THOMÉ, DIEGO ZANCHETTA, EDISON VEIGA, EDUARDO REINA, FELIPE WERNECK, FERNANDA ARANDA, JAMIL CHADE, LUCIANA ALVAREZ, MARCELO GODOY, MARIANA BARBOSA, MÔNICA CARDOSO, PEDRO DANTAS, RENATO MACHADO, RICARDO RODRIGUES, RODRIGO BRANCATELLI, SILVIO BARSETTI, TÂNIA MONTEIRO, VALÉRIA FRANÇA e VITOR HUGO BRANDALISE Para informações, a Air France adotou os telefones gratuitos:No Brasil - 0800-881-2020Na França - 0800-80-0812REPERCUSSÃOSEM EXPLICAÇÃO - O desaparecimento do voo 447 da Air France foi manchete na seção Internacional do site do jornal The New York Times. A reportagem chamava atenção para o fato de os especialistas não conseguirem explicar como um raio, tempestade tropical ou turbulência poderiam provocar danos fatais a uma aeronave moderna como o Airbus 330-200. O site apresentou uma cronologia de acidentes aéreos e informou que, em 1988, um bimotor foi atingido por um raio e caiu, na Alemanha, provocando a morte dos 21 que estavam a bordo. QUESTIONAMENTO - O jornal francês Le Monde destacou em sua versão online que as buscas pelo avião da Air France continuavam, apesar de não haver quase esperança de encontrar sobreviventes. O site publicou também uma entrevista com o especialista em aviação civil Pierre Sparaco, que contestava a principal hipótese da Air France para explicar o desaparecimento do avião. "Relâmpagos são rotina no transporte aéreo", afirmou Sparaco. "Um avião é fortemente protegido contra raios. A priori, uma tempestade não pode causar o desaparecimento do voo."?ATRASADO? - A cobertura do acidente com o Airbus A 330 da Air France ocupou quase toda a primeira página do portal da internet do jornal francês Le Figaro. Um repórter enviado ao aeroporto Charles de Gaulle contava o drama das famílias que chegavam em busca de notícias e reparou que durante várias horas o painel de informações continuava indicando "atrasado" para o voo que saiu do Rio. Em um vídeo, o especialista em aviação Pierre Prier informava que, em média, cada aeronave é atingida por raios duas vezes por ano. TEMENDO O PIOR - A versão em inglês do site do jornal alemão Der Spiegel deu grande destaque para as declarações de autoridades francesas e brasileiras afirmando que temiam "o pior". Entre os passageiros do voo 447 da Air France que desapareceu no Oceano Atlântico, 26 eram alemães. O site também colocou no ar uma galeria de fotos com imagens de divulgação do modelo de Airbus que sofreu o acidente e fotos de parentes dos passageiros que foram aos aeroportos Charles de Gaulle, em Paris, e Galeão, no Rio, em busca de informações. IDENTIDADES - A versão online do jornal italiano Corriere della Sera levantou a identidade de 3 dos 9 passageiros do país: Giovanni Battista Lenzi, Luigi Zortea e Rino Zandonai. Eles viajaram à América do Sul para visitar a estrutura da emigração de Trento. No Brasil, compareceram a uma série de compromissos como a inauguração de uma piscina em uma associação para crianças com deficiência. A delegação havia trazido ao Rio uma doação de 22 mil para ajudar na reconstrução de uma região do Estado recentemente atingida por inundações.DRAMA - O site da rede britânica BBC informou que os governos locais tentam confirmar a identidade dos 3 irlandeses e 5 ingleses que estavam no voo 447 da Air France. O portal publicou uma entrevista com Patricia Coakley, de Yorkshire, mulher de um dos passageiros. "Nossos filhos estão perturbados, eles rezam pelo pai. Mas nós ainda temos esperança", afirmou Patricia. A cobertura também deu destaque para o que chamou de "mistério" sobre o desaparecimento, em circunstâncias muito diferentes da maioria dos acidentes aéreos.

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