Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bahia quer apoio federal para monitorar região contaminada

Governo do Estado quer programa de monitoramento permanente da água utilizada pela população de Lagoa Real

André Borges, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 15h22

BRASÍLIA - O governo da Bahia vai pedir apoio de órgãos federais para que seja implantado um programa de monitoramento permanente da água utilizada pela população de Lagoa Real, no sudoeste da Bahia. O governador da Bahia, Rui Costa, vai procurar apoio da Agência Nacional de Águas (ANA), do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama, para que seja criada uma rede de inspeção que envolva todos os poços das famílias que vivem na zona rural do município baiano. 

A iniciativa foi desenhada pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia e será discutida nos próximos dias, em reunião com o governo federal, disse o secretário do Meio Ambiente Eugenio Spengler.

A decisão foi tomada a partir da reportagem publicada pelo 'Estado' no dia 22 de agosto, sobre a contaminação de um poço com alto teor de urânio em um sítio localizado em Lagoa Real. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que detém o monopólio de exploração do material radioativo no País, encontrou água com alto teor de urânio no poço, mas não comunicou o fato ao governo da Bahia, tampouco ao Ibama ou Ministério do Meio Ambiente. 

A primeira inspeção do poço, realizada pela empresa em outubro de 2014, identificou uma quantidade do minério tóxico mais de quatro vezes acima do limite permitido para consumo humano. Uma segunda checagem feita pela INB em março deste ano voltou a encontrar índice de urânio mais de três vezes acima do permitido pelos órgãos de saúde. Conforme revelou a reportagem, nada disso foi informado aos órgãos estaduais e federais. Apenas no fim de maio é que os dois boletins foram entregues à prefeitura de Lagoa Real. Foi quando a gestão municipal foi até o proprietário do poço contaminado para comunicá-lo de que não deveria mais consumir aquela água. 

A INB alega que não comunicou os órgãos porque o poço estaria fora da área de sua responsabilidade e que a inspeção foi um favor ao dono do sítio, que pediu à empresa que fizesse o teste em sua água. A estatal afirma ainda que não tem responsabilidade pela contaminação, porque o poço está a 20 km de sua mina e pertence a outra sub-bacia hidrográfica. 

O programa de monitoramento permanente que será implantado pelo governo baiano, disse Eugenio Spengler, vai englobar inicialmente 96 poços localizados nas proximidades da área de influência da mineração de urânio. "Nós vamos montar essa rede de monitoramento o mais rápido possível. Como é uma região que tem urânio, é muito provável que haja resíduo desse metal em outros poços também", disse Spengler. 

Três poços. Na semana passada, equipes técnicas organizadas pelo governo Bahia estiveram na região para coleta de amostras de água e verificação dos índices de urânio. Essa 'força-tarefa', no entanto, coletou água de apenas três poços. Questionado sobre as razões que levaram à coleta de somente três reservatórios, Spengler disse que "tinha a expectativa de que pelo menos dez poços fossem alvo das inspeções", mas que houve uma decisão técnica, "a partir da poligonal" que seria analisada. 

"A decisão de fazer coleta em apenas três poços foi tomada pela equipe técnica em campo. Ela entende que essa amostra será suficiente para se ter uma primeira avaliação. Não havia condições de coletar de todos os 96 poços", disse. 

O governo baiano informa que já enviou o material para testes de laboratório e prevê que os resultados sejam conhecidos até o dia 15 de setembro. "Tão logo o resultado da análise seja entregue, chamaremos uma reunião com a participação do Ministério do Meio Ambiente, Agência Nacional de Água, Ibama, Vigilância Sanitária do Estado, Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos), Casa Civil, Cerb (Companhia de Engenharia Ambiental e Recursos Hídricos da Bahia) e Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento)."

Seja qual for o resultado dos testes dá água, ou seja, tenha ou não alto teor de urânio, o governo da Bahia promete implementar o programa de acompanhamento. "Haja ou não urânio nesses poços, nós vamos montar uma rede de monitoramento permanente nessa região. Vamos começar com esses 96 poços identificados e, à medida que forem identificadas nascentes naquela área ou outros poços, eles passarão a ser monitorados."

Orientação. O encontro com órgãos federais será realizado, segundo o governo da Bahia, para definir medidas de apoio da União, entre outras questões de ordem prática, como a  periodicidade das coletas de água, os equipamentos que serão usados e os laboratórios para realização dos testes. Os órgãos ainda não foram oficialmente procurados pelo governo baiano.

"Até que esse trabalho seja definido, nossa preocupação tem sido a de orientar a população para que não use água desses poços para abastecimento humano. As pessoas devem evitar beber água ou dar para animais, enquanto não se sabe da qualidade dessa água", comentou Eugenio Spengler. 

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