Felipe Iruatã/EFE - 27/12/21
Felipe Iruatã/EFE - 27/12/21

Bahia tem dezembro mais chuvoso em 32 anos; 1/3 das cidades estão em emergência

Total de vítimas fatais das chuvas chegou a 21 pessoas, enquanto o número de feridos supera 358. Ao todo, 77 mil pessoas tiveram de deixar suas casas

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 15h46
Atualizado 29 de dezembro de 2021 | 18h52

A Bahia está enfrentando o pior acumulado de chuvas do mês de dezembro desde 1989, informou o governo estadual nesta semana. Como reflexo desse cenário, 136 cidades do Estado estão em situação de emergência, o que corresponde a praticamente um terço dos 417 municípios baianos. O total de vítimas fatais das chuvas chegou a 21 pessoas, enquanto o número de feridos supera 358.

Ao todo, 77 mil pessoas tiveram de deixar suas casas: são cerca de 34,1 mil desabrigados e 42,9 mil desalojados. A estimativa do governo é que mais de 470 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas no Estado. Os números foram atualizados pela Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia (Sudec) na tarde desta terça-feira, 28, com base em informações recebidas das prefeituras.

No fim de semana, um jovem de 19 anos tornou-se a 21ª vítima das enchentes acarretadas pelas chuvas no Estado. Foi a segunda morte registrada na cidade de Ilhéus. Os outros municípios baianos com vítimas fatais são: Amargosa (2), Itaberaba (2), Itamaraju (4), Jucuruçu (3), Macarani (1), Prado (2), Ruy Barbosa (1), Itapetinga (1), Aurelino Leal (1) e Itabuna (2).

Em Itamaraju, cidade com o maior número de óbitos, foram 769,8 milímetros (mm) de chuva no mês de dezembro, valor mais de cinco vezes maior do que a climatologia do município para o mês (148,0mm). Os dados são do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e foram divulgados pelo governo da Bahia.

Para se ter um outro parâmetro, a climatologia da chuva entre setembro e dezembro em Itamaraju é de 499,7mm; em Ilhéus, de 434,4mm; e em Porto Seguro, de 507,7mm. As chuvas deste ano nessas regiões, portanto, estão bem acima de suas médias, uma vez que, em alguns casos, acabaram superando esses números em poucos dias.

'Qualquer chuva pode acarretar em riscos a partir de agora', diz climatologista

Climatologista e coordenador do Cemaden, José Marengo explica que a Bahia contou com três principais períodos de chuva ao longo de dezembro: dos dias 1º a 4, de 7 a 12 e, por último, de 23 a 27. Somadas, as três janelas de fortes precipitações agravaram o cenário nos dias próximos ao Natal, uma vez que a infraestrutura do Estado foi ficando cada vez mais comprometida.

Desse modo, mesmo se não houver chuvas em igual proporção às de outros momentos do mês, Marengo alerta que no atual momento até mesmo precipitações mais fracas podem gerar riscos de deslizamentos e entupimento de bueiros. "O solo está muito umido, muito saturado", explica o climatologista. "É uma situação catastrófica, pouco frequente na Bahia. Qualquer chuva pode acarretar em riscos a partir de agora." 

Segundo ele, ao menos desde 2013, quando o Cemaden começou a coletar os dados, é possível se dizer com precisão que o mês de dezembro deste ano foi o mais chuvoso da Bahia. Para se analisar antes disso, o climatologista diz ser necessário observar outros dados em conjunto, como foi feito pelo governo do Estado. "Fato é que os números deste ano são extremamente altos", diz Marengo.

Conforme dados meteorológicos divulgados pelo governo da Bahia, os maiores acumulados de chuva entre 9h do último dia 23 e 9h desta segunda-feira, 27, – ou seja, no período mais recente apontado por Marengo – foram:

  • Valença: 215 mm; corresponde a mais do que o triplo da sua climatologia de dezembro (64,9mm)
  • Ilhéus: 209mm; corresponde a 70,2% a mais da sua climatologia de dezembro (122,8mm)
  • Salvador: 188mm; corresponde a mais do que o triplo da sua climatologia de dezembro (58,1mm)
  • Igrapiúna: 202mm
  • Camamu: 196mm
  • Barra do Rocha: 195mm
  • Gandu: 188mm
  • Itabuna: 187mm

Marcone Amaral, prefeito de Itajuípe, uma das 136 cidades em situação de emergência na Bahia, disse ao Estadão que apesar de o nível do rio que corta a cidade ter baixado nos últimos dias, agora “começa-se a entender qual foi realmente o prejuízo que as pessoas tiveram”. Confira a entrevista abaixo:

Para conter os danos causados pela chuva, integrantes do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) e de outros Estados permanecem empenhados nas operações de atendimento às vítimas. O governo da Bahia também tem feito campanhas para buscar donativos e, desse modo, atender a população desabrigada no sul do Estado, região mais afetada pelas enxurradas.

Sob o risco de novas cheias em várias cidades, a Bahia também está correndo para tirar moradores de áreas de risco e monitora o nível das barragens no Estado. No início da semana, o Corpo de Bombeiros divulgou comunicado sobre um possível aumento do fluxo das águas, com a abertura das comportas da barragem Machado Mineiro, no Rio Pardo, região de Águas Vermelhas, em Minas Gerais, vindo em direção à Bahia. 

Segundo a corporação, há risco real de enchentes nas cidades de Itambé, Canavieiras, Mascote e Cândido Sales, já bastante atingidas pelas chuvas, o que poderia agravar ainda mais a situação no Estado.

O governador da Bahia, Rui Costa, afirmou nesta terça que os repasses anunciados pelo governo federal para recuperar rodovias atingidas pelas enchentes no Estado são insuficientes. O presidente Jair Bolsonaro editou nesta terça medida provisória que destina R$ 200 milhões para recuperação de rodovias.

Aumento das chuvas é parte de fenômeno de convergência do Atlântico Sul

O aumento das chuvas na Bahia é parte do fenômeno de convergência do Atlântico Sul, quando o ar úmido do continente se encontra com os ventos polares do sul. O cenário afetou outros Estados e pode se intensificar ainda em outras regiões, como o Sudeste.

Quando as chuvas começaram a se intensificar na Bahia, no início de dezembro, a região norte de Minas Gerais também foi afetada. Na ocasião, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta de risco de chuvas intensas não só nos dois Estados, como em Goiás e Maranhão.

Atualmente, segundo a empresa de meteorologia Metsul, o corredor de umidade que causou o excesso de precipitação na Bahia está a caminho da região Sudeste, podendo afetar Estados como São Paulo e Rio de Janeiro.

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