Bahia vive mais um surto adesista

Atração pelo governismo é tanta no Estado que consegue fazer ex-carlistas migrarem para o território petista

Christiane Samarco / TEXTOS e Ed Ferreira / FOTOS, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

O continuísmo é uma tendência forte nesta disputa pelos governos estaduais, mas, no caso da Bahia, a campanha de 2010 é a prova reforçada de que a vocação adesista no Estado é absoluta. O ex-governador Paulo Souto (DEM) e o ex-ministro lulista Geddel Vieira Lima (PMDB) estão sentindo na pele das duas candidaturas porque um governador da Bahia nunca se elegeu contra o presidente da República no mesmo pleito ou em oposição ao presidente que estava no exercício do cargo quando não havia coincidência de mandatos.

A atração pelo governismo reinante é tanta que as adesões à candidatura de Jaques Wagner (PT) são chamadas de "revoadas" - que juntam antigos carlistas e petistas. "Estão migrando em revoada para o Wagner e a gente convive aos arrepios. Este palanque é um zoológico", apregoou a deputada Alice Portugal (PC do B-BA), na noite de quarta-feira passada, em um comício em Conceição do Almeida.

A vocação governista da Bahia também atinge a disputa por vagas no Senado Federal. Os últimos senadores que se elegeram na chapa contrária à do governador eleito foram Antonio Balbino e Josaphat Marinho. Mas isso foi em 1962, quando Lomanto Júnior (UDN) chegou ao Palácio de Ondina. Nos últimos 48 anos, nenhum outro oposicionista repetiu a façanha da dupla.

Todos os senadores vitoriosos pertenciam ao esquema político dos governadores. A tradição valeu até para a disputa de 1986, quando Waldir Pires rompeu por um breve período a hegemonia de Antonio Carlos Magalhães, elegendo-se governador pelo PMDB, com dois novos senadores peemedebistas: Jutahy Magalhães e Rui Bacelar.

Camisa 10. Diante da onda governista, a expectativa de que Souto reaja e volte a crescer nas pesquisas encolhe a cada dia. O DEM sabe que o PSDB baiano impôs a parceria goela abaixo da base partidária para facilitar a aliança nacional com o presidenciável José Serra (PSDB), mas também sabe que a maioria dos tucanos vota em... Jaques Wagner.

Não bastasse isso, fatia expressiva do espólio do carlismo que poderia apoiá-lo também está aderindo ao candidato do PT. A porta de entrada dos ex-seguidores de ACM no petismo é o vice Otto Alencar, o ex-deputado estadual mais votado por duas vezes e que Luiz Eduardo Magalhães queria para vice quando sonhava com o governo da Bahia. Ele acabou aposentado no Tribunal de Contas de Salvador.

Nos palanques interior afora, Wagner tem repetido que se orgulha de "abraçar" um leque muito maior de aliados, embora saiba que a luta política no município seja muito dura. "A paixão de cada um aqui eu respeito, mas puxei o camisa 10 do time de lá para fazer muito gol contra o adversário", disse ele a uma plateia de cerca de 4 mil pessoas no comício presenciado pela reportagem do Estado em Conceição do Almeida.

É no embalo da tradição, do prestígio do presidente Lula e do favoritismo duplo de Dilma Rousseff e Wagner que PT e PSB juntaram-se na Bahia para compor a chapa do "time de Lula" ao Senado. Os deputados Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB) partilham os apoios e fazem campanha casada até no programa eleitoral.

Wagner e Lula encarregam-se de pedir pelos dois, para dar tranquilidade à candidata Dilma, livrando-a do "inferno" que o Planalto experimentou com a oposição atual no Senado. O outro candidato da base governista é o senador César Borges (PP). Pesquisa do Ibope divulgada anteontem deu a liderança a Borges, com 29% da preferência dos baianos. Como a margem de erro é de 3 pontos para mais ou para menos, Borges está em empate técnico com Pinheiro (27%) e Lídice (26%).

Humor de Aleluia. À semelhança do que está acontecendo com Geddel, embora os três candidatos ao Senado sejam aliados, Wagner e Lula fizeram opção clara por Pinheiro e Lídice. Como a suplente de Borges é Tércia, sua mulher, restou ao candidato do DEM ao Senado, deputado José Carlos Aleluia (DEM), apelar ao bom humor para conquistar eleitores. "Não vote no casal, nem no casado. Vote no independente", sugere na TV.

Para desespero de Paulo Souto, o resultado do Ibope também mostrou que Wagner segue liderando a corrida estadual com 49% das intenções de voto, enquanto ele caiu mais quatro pontos porcentuais. Ele captura hoje 15% da preferência do eleitorado, metade do que as pesquisas lhe davam no início da campanha. Geddel mantém a terceira posição e as intenções de voto do levantamento anterior: 12%. Com a revoada, a oposição capitaneada por Souto praticamente cabe - como mostra a foto acima, e sem exageros metafóricos - na caçamba de um caminhão.

Os adversários dizem que a Bahia foi ultrapassada por Pernambuco, Ceará e Piauí. "Se não lhe faltou a amizade de Lula e os outros Estados cresceram mais é porque faltou gestão", critica o senador ACM Júnior (DEM-BA). Wagner se defende enumerando suas realizações. Diz que entregou 23 mil casas populares, levou água de qualidade para 2,5 milhões de baianos e fez 4 mil quilômetros de estrada, além da contratar 6 mil policiais militares.

O tonificante da campanha de Wagner, porém, o que reforça ainda mais o governismo local, é a extensão do Bolsa-Família na Bahia. O Estado é recordista brasileiro com 1,6 milhão de famílias com a bolsa, o que atinge cerca de 5 milhões de pessoas em um eleitorado de 9 milhões de baianos aptos a votar.

Embora diga que está tranquilo com a liderança, o governador passa o recibo da preocupação com a pecha de preguiçoso que Geddel tenta lhe impingir na campanha. "Tenho trabalhado 16 a 17 horas por dia", diz nos comícios. Wagner acredita que o time lulista elegerá cerca de 30 dos 39 deputados federais da Bahia e os dois senadores de sua chapa. Prevê, ainda, que a Bahia dará a Dilma de 2,5 milhões a 3 milhões de votos de frente sobre Serra.

Do início da campanha para cá, Souto, assim como Serra, só perdeu pontos nas pesquisas. Tal como o presidenciável tucano, o candidato da chapa DEM-PSDB é visto como um quadro técnico competente, mas não como um líder carismático.

Souto contava com a força eleitoral de um ex-ministro de Lula para ajudar a levar a eleição para um segundo turno. Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), porém, vem apresentando desempenho pífio e nas pesquisas não tem saído da faixa dos 10% das intenções de voto.

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