Bairro ao lado da pista vai sumir

Prefeitura e Infraero alegam ?risco de acidente?; decisão surpreende Defensoria, 1 ano após União negar retirada

DIEGO ZANCHETTA e BRUNO TAVARES, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

Vizinho do cemitério de aviões da falida Vasp, em Cumbica, o floricultor Manuel Craveiros, de 52 anos, não acredita mais "nesse papo de desapropriação". "Moro aqui há mais de 15 anos e sempre ouvi que teríamos de sair", diz, em meio ao campo de flores copo-de-leite que cultiva a 70 metros da cabeceira de uma das pistas.Craveiros vive no Jardim Portugal, loteamento que será riscado do mapa em 2009. A desapropriação, decidida por "medida de segurança operacional", atingirá 572 famílias. Até o ano passado, antes da desistência do governo de construir a terceira pista em Cumbica, o projeto previa a remoção de 20 mil pessoas que vivem às margens do Rio Baquirivu-Guaçu.O valor das indenizações no Jardim Portugal será definido por meio de um estudo socioeconômico encomendado pela Infraero. A Defensoria Pública do Estado ficou surpresa ao ser alertada pela reportagem sobre a desapropriação do Jardim Portugal. "Fui informado de que não haveria remoções.Para mim é novidade", afirma o coordenador do Núcleo de Habitação da Defensoria, Carlos Loureiro, que está em férias. "Quando voltar ao trabalho, vou analisar as providências a serem tomadas, até porque os moradores chegaram ao bairro antes do aeroporto."O comerciante Adauto Felipe da Silva, de 42 anos, também não acredita na remoção. Ele está há 14 anos na região e o barulho ensurdecedor das turbinas dos aviões quase o dia todo não é problema. "Estamos acostumados. Se for para sair daqui, que paguem o preço de uma casa boa, igual à minha", afirma Silva, que mora com a mulher e os dois filhos. "Antes, eu morava de aluguel. Não quero nunca sair da casa própria."Urbanizado com rede elétrica, de telefonia e coleta de lixo, o bairro tem hoje 78,41% dos imóveis regularizados. "O local está muito próximo da pista de taxiamento", argumenta Roberto Moreno, coordenador de Assuntos Aeroportuários da Prefeitura de Guarulhos. "A remoção estava prevista mesmo após a desistência da terceira pista. E a maior parte dos moradores já manifestou desejo de sair da área, por causa do ruído das aeronaves", acrescentou.Elton Soares, coordenador do Movimento de Luta por Moradias de Guarulhos e principal líder da oposição à terceira pista em Cumbica, diz que a Infraero tem de dar opções às famílias. Levantamento inicial mostrou que 68% dos moradores não têm renda fixa e 18% vivem com até dois salários mínimos."Os interesses econômicos da Infraero não podem prevalecer sobre o direito à moradia da população carente de bairros vizinhos do aeroporto, eles precisam ser indenizados", adverte Soares.

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