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Balanço: namoro com o risco

Para essa nova geração, não basta dizer o que fazer e, sim, fornecer insumos e condições

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2015 | 03h13

2015 foi um ano em que muito se discutiu a questão de como os jovens lidam com o risco. Dezenas de trabalhos analisados aqui nesta coluna mostraram como problemas que impactam diretamente a saúde e o comportamento deles como violência, acidentes de trânsito, doenças transmitidas pelo sexo (DSTs), abuso de álcool e drogas, exposição na rede, entre outros, têm relação direta com a forma como os mais novos tomam decisões em momentos cruciais da vida.

Um dos temas que ganhou as páginas de revistas e jornais ao redor do mundo mostra como as novas tecnologias, em especial os aplicativos para celulares, que aproximam os jovens para encontros casuais (Grindr, Tinder, etc), estariam influenciando o aumento das DSTs, incluindo a aids, em diversos países. Movidos pelo “calor” do momento, pela impulsividade e pela recompensa imediata (sexo com parceiro ocasional), garotos e garotas estariam deixando de lado a proteção na hora do prazer.

Aliás, é justamente essa busca pelo prazer, sem medir muito impactos e consequências, tão peculiar dessa fase da vida, que levaria à exposição ao risco em diversas situações. Assim, brigas, porres, imagens ousadas “voando” pelas janelas das redes sociais e novas drogas seriam algumas das manifestações dessa realidade. Em tempos de baixa tolerância à frustração e de imediatismo, atitudes como prevenir e pensar no que se faz parecem cada vez menos frequentes.

A geração mais conectada, rápida e potencialmente melhor informada é também aquela que pensa nos problemas e dificuldades apenas quando eles se materializam na sua frente. Na complexa equação da contabilidade dos riscos, prevenção assume um peso menor do que as emoções do momento.

Outra característica importante desse jovem contemporâneo é a busca por uma maior horizontalidade na tomada das decisões. Padrões de comportamento impostos de cima para baixo (dos mais velhos, dos pais, dos professores) podem ser vistos como excessivamente tutoriais e acabar gerando uma resistência crescente. No caso do sexo, por exemplo, o discurso único que foca a camisinha como centro das ações de proteção, sem considerar emoção, prazer, medo de falhar, busca de intimidade, entre outros, pode estar com os dias contados! A questão da bebida é outra que enfrenta dilema semelhante. Proibir não basta!

Os resultados das ações alcançadas com o consumo do cigarro, em queda importante no País na última década, sobretudo nas faixas dos mais jovens, aponta uma estratégia interessante: uma abordagem em diversos níveis. Assim, além do preço mais elevado, das restrições de fumo em locais fechados, há uma crescente discussão dos problemas, riscos e possíveis alternativas para quem quer abandonar o tabagismo. A “desglamourização” do ato de tragar um cigarro ganhou forças!

Essa estratégia que pressupõe esclarecimento, debate, troca de informações, reconhecimento das dificuldades individuais e coletivas, educação, renegociação de limites, gerência da autonomia, construção conjunta de projetos de vida, valorização da autoestima, entre outras tantas possibilidades, acontecendo em diversos territórios (casa, trabalho, escola, comunidade), encontra muito mais eco entre os mais novos do que um discurso impositivo.

As manifestações e articulações em redes sociais, os rolezinhos, as ocupações recentes em escolas revelam uma maior politização e participação social desses jovens. Isso também se reflete no jeito que ele lida com a vida e a tomada de decisões. Para essa nova geração, não basta dizer o que fazer e, sim, fornecer insumos, ferramentas e condições para que os mais novos recalculem esses riscos. É isso! Aproveito a última coluna do ano para desejar um 2016 mais feliz e saudável para os mais jovens e, claro, para nós também!

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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