Balcão de bar é nova arma contra casos de violência

Ideia do MP é que donos façam curso para atuar em conflitos

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

06 Julho 2009 | 00h00

Não importa o endereço do balcão: na periferia da zona leste paulistana, na área nobre da zona sul ou qualquer outro das regiões norte, oeste ou central. Independentemente do tamanho, luxo ou estilo, os bares são observatórios da violência urbana. Por isso, projeto do Ministério Público de São Paulo, que já está em discussão, quer que os donos de bares deixem de ser só plateia para exercerem a função de "mediadores de conflitos". A proposta é transformá-los em instrumento de redução da criminalidade da capital. Pelo projeto, os proprietários passariam por curso de capacitação, que seria condição para conseguirem o alvará de funcionamento. "Assim como é preciso ter licença para ter uma arma, é preciso treinamento específico para ter um bar", afirma o autor da proposta e promotor do MP, Augusto Rossini, que é coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal. Rossini é idealizador da Promotoria Comunitária, projeto que começou em 2002 na área do extremo sul de São Paulo (Jardim Ângela, Campo Limpo e Parelheiros) e conseguiu nesses locais reverter drasticamente os índices de assassinatos, com a estratégia, inclusive, de monitorar os bares da região. As histórias que ilustram a proximidade entre bares e violência são inúmeras. Depois do exagero na bebida, maridos violentos voltam para espancar as mulheres, jovens universitários resolvem acertar as contas com desafetos e traficantes também costumam escolher os barzinhos como escritórios clandestinos. "Quem trabalha atrás do balcão vê tudo, escuta tudo e não fala nada", definia assim um dos garçons de um bar na frente da Universidade Paulista (Unip), perto do Morumbi, área nobre na zona sul de SP. O "berçário" do projeto " bares mediadores" foi a região de Santo Amaro, na zona sul, para atender a um problema trazido pela proliferação de botecos no entorno da Chácara Santo Antônio, depois que duas grandes universidades foram instaladas no bairro. "Elaboramos a proposta de um curso simples de capacitação para que os proprietários possam reconhecer um potencial assaltante e barrar uma violência doméstica", diz Olivia Augusta Costa, presidente do Conselho de Segurança Comunitária (Conseg) de Santo Amaro e coautora do projeto. Ela acredita que outros problemas podem ser atenuados, como barulho e sujeira. Se der certo, é um projeto social que faz o caminho inverso da maioria dos programas: nasce na classe média, mas tem uma enorme abrangência de atuação e, assim, "pode chegar às distantes periferias", diz. SIMPATIZANTES O curso proposto seria de um dia, ministrado por policiais civis e militares, guardas civis metropolitanos e serviria até de proteção aos profissionais, acredita Rossini. "Também são os bares que funcionam como ilhas de segurança para quem chega tarde em casa", observa o promotor. A ideia ainda é embrionária, mas já ganhou simpatizantes. Um ofício foi encaminhado à Subprefeitura de Santo Amaro e o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP) afirmou ter estrutura para oferecer os cursos de capacitação. O secretário da Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, ficou sabendo do projeto pela reportagem do Estado e aprovou a medida. "Acho ótimo. Atualmente, já oferecemos treinamentos de manuseio de alimentos, limpeza e higiene aos bares. A mediação de conflitos poderia ser agregada."

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