Isaac Orcino/Divulgação
Isaac Orcino/Divulgação

Balneário Camboriú não é a única: outras cidades têm projetos de alargar praias

Florianópolis e Natal fazem planos de aumentar a faixa de areia; Fortaleza fez obra em cartão-postal; mudanças climáticas e urbanização tornam estreitamento mais frequente

Júlia Marques, Fábio Bispo, Lorrâne Mendonça e Ricardo Araújo, Especiais para o Estadão

30 de agosto de 2021 | 15h00

FLORIANÓPOLIS, FORTALEZA E NATAL - Balneário Camboriú (SC) chamou a atenção com sua obra para triplicar a faixa de areia da praia central, mas não é a única. Destinos turísticos como Florianópolis, Fortaleza e Natal conduzem projetos de alargamento de orlas, que envolvem uma série de desafios técnicos. Com o avanço da urbanização e das mudanças climáticas, especialistas apontam que a erosão costeira será cada vez mais comum. 

Camboriú prevê aumentar a faixa de areia de 25 para 70 metros até outubro e diz fazer o maior alargamento de praia da América Latina, segundo a gestão local. A ideia é desfazer a fama de lugar onde arranha-céus fazem sombra no mar depois do meio-dia - a cidade também é conhecida pelo mercado imobiliário de alto padrão. “Trouxemos a draga mais moderna do mundo, a mesma que fez as palmeiras de Dubai e o Canal de Suez”, celebrou o prefeito Fabrício de Oliveira (Podemos). 

Segundo ele, parte da obra (estudos e projetos) foi custeada pela iniciativa privada. O restante poderá ser amortizado com verbas de outorgas cobradas dos empreendimentos na praia, que tem um dos metros quadrados mais caros do País. Em contrapartida, Oliveira promete uma ampla área de lazer à beira-mar. 

O processo de dragagem, porém, traz riscos, alerta o coordenador do Laboratório de Ficologia, ciência que estuda algas, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Paulo Horta. “Pode ter desde substâncias químicas, até cistos de algas que podem causar florações nocivas. É muito importante que exista monitoramento da atividade”, diz.

Florianópolis também projeta alargar a faixa de areia de três praias: Ingleses, Jurerê Tradicional e Armação para novembro de 2022 – as obras dependem de licenciamento ambiental. Além da questão turística, o objetivo é recuperar trechos onde a maré avançou nos últimos anos. Juntos, os empreendimentos somam mais de R$ 115 milhões em investimentos públicos. 

Natal projeta extensão de 75 metros da faixa de areia de seu mais famoso cartão-postal, a Praia de Ponta Negra. Conforme previsto pela pasta municipal, serão consumidos mais de um milhão de metros cúbicos de areia. Após concluído o serviço, o local deverá ter faixa de 100 metros entre o calçadão e o mar, na maré seca. Hoje, em marés cheias, o mar avança até o passeio público. Em alguns pontos, a erosão e o avanço do mar provocaram crateras.

“O Ministério do Desenvolvimento Regional nos pediu para apresentarmos projeto conjunto, que é o da proteção costeira com o enrocamento e da engorda da praia”, disse o secretário municipal de Obras Públicas, Carlson Gomes. Em junho, o ministro da pasta – Rogério Marinho, que é potiguar – anunciou R$ 39 milhões para bancar os serviços. No total, com medidas como a colocação de um muro de pedras ao longo do calçadão, a obra é estimada em R$ 65 milhões.

Alargamento em Fortaleza aposta no turismo, mas requer atenção extra de banhistas

Em novembro de 2019, a Prefeitura de Fortaleza realizou a engorda do Aterro da Praia de Iracema já existente e criou um novo aterro, com acréscimo de 80 metros de faixa de praia. Juntas, as faixas de engorda somam um trecho de dois quilômetros, área que equivale a quase 18 quarteirões. A mudança vai na esteira de outras adaptações urbanísticas na região da Avenida Beira Mar, como equipamentos de lazer, quiosques e banheiros.

Com as reformas da Feirinha da Beira Mar, que começaram em abril, foram colocados à disposição 707 boxes comerciais para vender artesanatos e produtos regionais. Para o secretário de infraestrutura de Fortaleza, Samuel Dias, é um trabalho que fortalece o turismo e a economia do município e do Estado. “Não é apenas uma obra urbanística", diz. "É emprego, renda, um lugar onde a cidade inteira convive e também nosso cartão-postal."

Para o coordenador do Laboratório de Gestão Integrada das Zonas Costeiras da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Fábio Perdigão, “recompor a praia é um dos melhores sistemas de recuperação ambiental, porque o local volta a ter um ambiente natural e não um ambiente degradado pela erosão, como estava acontecendo nos últimos anos, em que perdeu alguns sedimentos".

Por outro lado, a engorda também trouxe desnivelamento entre o mar e a faixa de praia, aumentando a profundidade da água. "Percebi que o mar ficou mais agitado e o mar ficou mais fundo", comenta o educador físico Paulo Roney. “Para os banhistas ficou muito perigoso, porque se der três passos entra em um buraco. Mas para quem pratica esportes ficou bom”, opina o militar aposentado Wagner Gadelha. A prefeitura diz planejar mais postos de salva-vidas na região. O investimento total da obra é de R$ 123 milhões.

Nos anos de 1969 e 1970, a Praia de Copacabana, no Rio, passou por um alargamento desenvolvido pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa e feito em parceria com a Superintendência de Urbanização e Saneamento do Estado da Guanabara.  Com a mudança, estima-se que houve crescimento da faixa de areia de 55 para 140 metros. Cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos de areia foram dragados da zona submarina.

Encurtamento das praias será mais frequente, diz especialista

O encurtamento de faixas de areia tende a se tornar um problema mais frequente, com origem nas mudanças climáticas e na urbanização desenfreada de praias. Em relação às mudanças climáticas, é comum pensar só na elevação do nível do mar, mas outros eventos estão por trás do fenômeno.  "Estamos falando da elevação do nível do mar, mas também do aumento da frequência e intensidade de eventos extremos, como tempestades, furacões, ciclones, que criam eventos erosivos, com ondas muito grandes", explica Paulo Horta, pesquisador dos programas de pós-graduação em Ecologia e Oceanografia da UFSC.

As construções no litoral também aumentam o processo erosivo sobre a orla, o que leva governos locais a planejar o engordamento da faixa de areia. "À medida em que fomos urbanizando todo o nosso litoral, as praias começaram a passar 'fome'", diz Horta. Essa "fome", explica, tem relação com o desequilíbrio no deslocamento dos sedimentos. 

"As dunas são doadoras de areias. Quando construímos casas, ruas, no sistema costeiro, comprometemos esse balanço. Além disso, fizemos muitas barragens ao longo dos rios. Tudo isso começa a conduzir esse desbalanço no sedimento. Ou seja, sai mais sedimento do que entra. E aí aumenta a frequência e a intensidade dos processos de erosão, como observamos em Santa Catarina."

Diante da erosão das praias, segundo ele, intervenções podem ser necessárias, mas não devem ser feitas sem considerar todo o contexto de mudanças climáticas e urbanização. O risco é de que ações mal planejadas piorem ainda mais o impacto no clima. E, se não há discussões e mudanças mais amplas no processo de ocupação das praias, as ações tornam-se paliativas. "Menos tempo dura um empreendimento como esse (de alargamento da faixa de areia)", diz o pesquisador.

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