Bandidos invadem hotel no Rio e fazem 35 reféns

Tiroteio provocou uma morte; suspeitos foram deditos e reféns libertados do hotel Intercontinental

Márcia Vieira, Marília Lopes e Bruno Lupion, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2010 | 11h28

 

SÃO PAULO - Um tiroteio entre policiais militares e traficantes levou pânico a São Conrado, um dos bairros com IPTU mais caro do Rio, na manhã deste sábado. Adriana Medeiros, que segundo a polícia fazia parte do grupo de bandidos, morreu quando tentava fugir em frente a um prédio de classe média alta. Três policiais ficaram feridos. Dez bandidos foram presos. O coronel Henrique Lima Castro, chefe da assessoria de imprensa da PM, disse que junto com os presos foram apreendidos cinco pistolas, oito fuzis, granadas e farta munição. Entre os 35 reféns haviam hóspedes e funcionários do hotel.  Os policiais feridos foram encaminhados para o hospital Miguel Couto, zona sul do Rio. A cúpula da Secretaria de Segurança se reuniu em caráter de emergência e o secretário dará uma entrevista coletiva em local e horário ainda não confirmados.

 

O confronto começou por volta da 8 horas. Segundo a polícia, um "bonde" de traficantes da Rocinha, que fica no bairro, estava voltando para a favela depois de terem passado a noite no Vidigal, morro próximo, dominado pela mesma facção criminosa. Na Avenida Niemeyer, que liga Leblon a São Conrado, o grupo encontrou com policiais do 23.º BPM (Leblon). Começou então o tiroteio, que durou em torno de 40 minutos. Na fuga, 10 bandidos armados com fuzis invadiram o Hotel Intercontinental, em frente à praia, e fizeram 35 reféns na cozinha.

 

 

Foram quase duas horas de negociação com policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope). A mãe de um dos bandidos, morador da Rocinha, chegou a ser chamada para convencer o filho a se entregar. "Eu pedi, mas ele não quis me ouvir", disse Dinalva, chorando muito na porta do hotel. Mesmo assim, minutos depois, o grupo libertou os reféns e se entregou à policia.

 

Além do Bope, policiais de outros dois batalhões cercaram a área. Até o caveirão, o carro blindado da policia, foi chamado para ajudar na operação. O relato dos moradores revela um cenário de terror. Motoristas que estavam dentro do túnel Zuzu Angel, que liga São Conrado à Gávea, chegaram a voltar de marcha a ré. O trânsito acabou sendo fechado pelos funcionários da CET-Rio durante mais de uma hora. Bandidos invadiram condomínios de classe alta tentando fugir da polícia. Outros entravam em ônibus que passavam pelo lugar. No meio do tiroteio, moradores se jogavam no chão para tentar se proteger. Lojas foram atingidas pelos tiros.

 

O professor Felipe Gomes que passava de carro na rua ao lado do hotel foi parado por um grupo de bandidos armados. "Eles abandonaram a van e entraram no meu carro. Eram uns cinco. Alguns estavam machucados." Aos gritos de "arranca vagabundo", mandaram Gomes seguir em direção ao Hotel Intercontinental. "Tinha uma cancela impedindo a entrada do carro, mas eles me mandaram seguir em frente assim mesmo. Depois que eu passei, eles entraram correndo no hotel."

 

Pelo menos 400 pessoas estavam hospedadas no Intercontinental, que abrigava também um congresso de Odontologia. Uma moradora de um condomínio que fica nesta avenida viu homens invadindo o condomínio com armas. O porteiro ligou e avisou que havia gente na portaria, para ela não sair de casa. "Estava dormindo quando escutei barulho de tiros. Fui até a janela e vi muitos homens armados correndo. Alguns inclusive passando para dentro do meu condomínio. As pessoas gritavam muito e pediam para ficarem abaixadas", contou.

 

O Shopping Fashion Mall, famoso por suas lojas de grifes sofisticadas, não abriu. O cientista político Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, e morador de São Conrado, resumiu a situação, em seu Twitter: "Estou no Afeganistão? Não, sou repórter de guerra na Zona Sul do Rio de Janeiro. Se moradores dos prédios estão assustados, imagino na Rocinha".

 

Testemunhas

 

Clarissa Cohen, moradora de um condomínio na Rua Aquarela do Brasil, disse que ouviu os tiros enquanto lia o jornal e viu os criminosos se movendo "como se fossem uma guerrilha. Vi pela janela uns dez adolescentes pulando para dentro do prédio. Eles se movimentavam se arrastando pelo chão, como numa guerrilha, e atiravam com fuzis. Algumas pessoas se jogavam no chão, outras saíam correndo. O porteiro abriu o portão do outro lado do prédio para que eles fugissem. Eles atiravam em direção à rua. Roubavam carros. Foi um terror

 

A paulistana Heloisa Dias de Toledo, 34 anos, produtora de eventos, estava hospedada no hotel e despertou com as rajadas de metralhadora, por volta das 8 horas. "Acordei com o barulho dos tiros, mas achei que fossem fogos de artifício. Aí lembrei que estava ao lado da favela da Rocinha e pensei que podia ser algo mais grave", disse. Ela abriu a janela do seu quarto, no primeiro andar do hotel, e viu "uma caminhonete cheia de bandidos, com metralhadoras e outras armas pesadas". "Na hora, me joguei no chão e liguei para uma amiga que estava no 17º. Corri lá pro quarto dela", disse Heloisa, que está no Rio a trabalho. Segundo ela, a polícia entrou no quarto por volta das 11h e levou todos do andar para a suíte presidencial. "Depois fomos conduzidos para fora do hotel, muitos vestidos com as roupas de dormir", contou.

 

 

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