Bandidos usam granadas no Rio; Vitória também tem ataques

Um quartel do Corpo de Bombeiros foi atacado com granadas, e delegacias da Polícia Civil e postos da PM foram alvejados na noite de sábado e na madrugada deste domingo, última de 2006, no Rio de Janeiro, em novo episódio da ofensiva dos traficantes iniciada na última quinta-feira. Em Vitória, no Espírito Santo, um ônibus foi incendiado no quarto atentado do gênero nos últimos dias.Não houve feridos em nenhum dos incidentes no Rio, que já chegam a 38 desde o início da onda de violência, mas o clima continuou tenso, sobretudo entre policiais civis e militares, que permanecem em estado de alerta. O chefe da Polícia Civil, delegado Ricardo Hallack, disse que cem equipes da Operação Caçador permanecem nas ruas para evitar novos atentados.O ataque ao Corpo de Bombeiros do bairro de Santa Teresa foi praticado por traficantes do Morro dos Prazeres, que fica atrás do quartel. Criminosos lançaram três granadas contra a unidade em duas investidas, às 3h30 e às 5 h - uma não explodiu. Estilhaços atingiram uma ambulância, uma Kombi e um carro de combate a incêndio. "Socorremos todo tipo de gente, inclusive traficantes e seus familiares. Não acredito que o ataque tenha sido direcionado ao bombeiro, com intuito de matar o profissional. Foi apenas para fazer barulho", disse o chefe do Estado-Maior da corporação, coronel Marco Silva.A granada que não explodiu gerou um incidente entre a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros. Às 11h30, uma equipe do Esquadrão Antibombas chegou ao local, mas foi impedida pelos bombeiros de detonar o petardo. O artefato foi recolhido por um tenente-coronel bombeiro, que não permitiu a entrada dos agentes na unidade e ainda ameaçou de prisão os policiais. Os bombeiros aparentemente não gostaram da movimentação da Polícia, que atraía a atenção dos criminosos entrincheirados no morro."Não estamos vivendo numa ditadura. O policial foi à delegacia do bairro e comunicou o fato. Também pedi ao coronel Marco Silva providências contra esse tenente-coronel", afirmou o delegado Marcos Reimão, diretor da Coordenadoria de Operações Especiais da Polícia Civil, ao qual o Antibombas é subordinado.Apesar de o ataque ter ocorrido de madrugada, o policiamento em frente ao quartel não fora reforçado. Pela manhã, um traficante armado ameaçava repórteres que trabalhavam no local. AtentadosA retomada dos ataques começou por volta das 22h de sábado, quando traficantes passaram em dois carros e duas motos pelo Viaduto São Sebastião e atiraram em direção à 6ª DP (Cidade Nova, no Centro), cuja fachada já havia sido alvejada na quinta-feira e ao Batalhão de Policiamento de Trânsito. Um dos tiros acabou atingindo o restaurante do jornal O Globo, que fica a poucos metros da delegacia. Na madrugada, foi preso o traficante Ricardo Alves Calasanis Pedreira, o Playboy, do Morro da Mineira. Ele estava na Rua do Catumbi, próximo à delegacia. Com o criminoso, foi apreendida pistola calibre 380 e uma granada. Pela manhã, foi transferido para a carceragem da Polinter. A Inteligência da Polícia tinha informações de que ele poderia ser resgatado por comparsas. O policiamento ficou reforçado durante toda a manhã.À 1h, dois homens numa motocicleta fizeram disparos contra a Câmara de Vereadores de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Em Niterói, no Grande Rio, os ônibus das viações Pendotiba, Santo Antônio e Garcia deixaram de circular durante a madrugada, por medo de novos atentados.Ainda de madrugada, homens num Astra preto dispararam contra uma cabine da PM, na Praça Condessa Paulo de Frontin, no Rio Comprido, também pela segunda vez desde quinta-feira. O local serve de ponto final para duas linhas de ônibus. Os tiros atingiram ainda uma floricultura. Um posto do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais, na Linha Amarela, também foi atacado, mas os policiais revidaram.Policiais civis de prontidão conseguiram evitar o que seria o segundo atentado à 28ª DP (Campinho, na zona norte), onde um homem foi morto na quinta-feira logo depois de registrar queixa. Os policiais perceberam a movimentação de traficantes e interceptaram os criminosos antes que chegassem à delegacia. Houve troca de tiros. O bando conseguiu fugir. Barreiras foram montadas nas proximidades da delegacia, e carros, revistados."Os policiais estão cansados, trabalhando em turnos de 12 horas ou 24 horas, mas a mobilização vai continuar", garantiu Hallack. A modelo Bia Furtado, uma das feridas no ataque ao ônibus da Viação Itapemirim, tem 25% do corpo queimado, e não 40% como os médicos estimaram inicialmente. A extensão das lesões foi revista, porque Bia estava com a pele inchada e vermelha, informou boletim divulgado pelo Hospital São Lucas. O estado de saúde dela ainda é grave, embora estável. Bia foi atingida no rosto, mãos e costas, além das vias aéreas.Também permanece grave Fernanda Furtado, que teve 54% do corpo afetado. Já Maria da Penha Morais, com 20% do corpo queimado, apresentou melhoras. Ela está lúcida, acordada e se alimentando, embora muito abalada. As duas estão internadas no Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Municipal Souza Aguiar.Incidente isoladoAinda na madrugada, ocupantes de um Polo fizeram disparos contra um posto de gasolina, na Estrada do Quitungo, Vila da Penha. Uma das bombas de combustível foi atingida, mas não houve explosão. Um morador de rua ficou ferido. O comandante do 16.º Batalhão (Olaria), tenente-coronel José Luiz Nepomuceno Marinho, afirmou que o posto foi alvo de uma tentativa de assalto. Para ele, o episódio não está relacionado com a onda de violência que atinge a cidade.VitóriaQuatro homens armados incendiaram neste domingo um ônibus da empresa Transvitória no município capixaba de Serra, na Grande Vitória. Eles renderam os passageiros, ordenaram que descessem e atearam fogo ao veículo. Ninguém ficou ferido. Nos últimos dias, foram registrados quatro ataques na cidade, nenhum com vítimas. Quinze presos apontados pelas autoridades como mandantes dos ataques foram transferidos da Casa de Custódia de Viana para o Presídio de Segurança Máxima de Catanduvas, no Estado do Paraná, mantido pelo governo federal. De acordo com a imprensa local, o secretário de Segurança, Evaldo Martinelli, tinha conhecimento prévio dos atentados. O policiamento na região metropolitana e nos terminais de ônibus foi reforçado. O atentados teriam sido deflagrados por causa da proibição da entrada de malotes na Casa de Custódia e pela imposição de mais rigor para as visitas.

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