Bando invade hospital e livra preso

Resgate de integrante da cúpula do PCC envolveu ainda perseguição e tomada de reféns; três foram detidos

Josmar Jozino, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

Apenas um policial civil escoltava o preso Willian Franklin Vargas de Freitas, o Fantasma, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) resgatado às 15h30 de ontem do Hospital Municipal da Vila Nhocuné, na zona leste de São Paulo. Isso resultou numa perseguição por 10 km, tiroteio, três homens presos - Francisco Tiago Augusto Bobô, de 26 anos, Wellington Araújo Silva, de 28, e um baleado e não identificado - e uma família refém até as 18h23.Fantasma seguia foragido até as 23 horas. Ao ser preso, deu nome falso. As Polícias Civil e Militar não sabiam que ele era um integrante do PCC. Um organograma do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), de 2002 e 2003, põe o criminoso no primeiro escalão da facção.Segundo a Polícia Civil, de 8 a 15 homens armados com submetralhadoras, pistolas e granadas e usando coletes à prova de bala de uma empresa de transporte de valores invadiram o hospital para o resgate. Fantasma havia sido levado preso na madrugada ao 66º DP (Jardim Aricanduva), com o nome falso de Denis Felix da Silva. Seguiu-se perseguição envolvendo PMs de três batalhões - 51º, 39º e 18º. Houve intenso tiroteio. REFÉNSDurante a fuga, um criminoso foi baleado e outros se dividiram em vários carros e seguiram pelas Avenidas Radial Leste, Águia de Haia e Jacu-Pêssego. Dois integrantes do bando se refugiaram numa residência, onde havia cinco pessoas.Ali, a dona de casa Patrícia Celestino Fernandes, de 30 anos, assistia a uma perseguição policial na TV quando ouviu o irmão, o segurança Luciano Alves, de 35 anos, que estava na companhia de uma adolescente de 15, gritar: "Por que vocês estão invadindo a minha casa?"A perseguição "entrou" na residência da mãe de Patrícia, a também dona de casa Cinira Celestino, de 60 anos. Patrícia só teve tempo de correr para a cozinha, pegar o filho de 9 anos e sair para o quintal. Ao esbarrar na mãe, arrastou-a. Luciano e a adolescente foram levados para o quarto dos fundos, no qual ficaram reféns. Patrícia, o filho e a mãe se trancaram em outro cômodo até a chegada da polícia. Um dos criminosos exigiu a presença de um investigador do Deic, que negociou a libertação dos reféns. Enquanto isso, a residência chegou a ser cercada por dezenas de policiais civis e militares.Ontem à noite, PMs ainda prenderam mais seis suspeitos de envolvimento no resgate. Todos foram levados para a 7ª Delegacia Seccional (Itaquera), onde foram ouvidos pelo delegado Jair Barbosa Ortiz. Acabaram liberados porque não havia provas contra eles.QUEIXASA falta de segurança nos hospitais de São Paulo não é um problema novo. Esse é o quarto caso de tentativa de resgate de presos registrado na capital desde 2005. Associações de médicos afirmam que o Estado não tem atuado para coibir a ação dos criminosos.No dia 26 de julho de 2005, cinco homens armados invadiram o Hospital Heliópolis, na zona sul, para resgatar um dos sete presos que estavam internados no local. Os bandidos fizeram os médicos reféns e chegaram a trocar tiros com policiais. Um dos criminosos ficou ferido.Um ano depois, em 18 de dezembro, funcionários e pacientes viveram momentos de pânico no Hospital Filantrópico São Luiz Gonzaga, no Jaçanã, zona norte. Uma quadrilha de 18 bandidos invadiu o local para resgatar o preso Cícero Félix. Um policial estava no hospital e chamou reforço. Depois de cinco minutos de tiroteio, um dos bandidos morreu, um policial ficou ferido e a quadrilha fugiu.Já o instrutor de capoeira Ludmar Aparecido de Andrade foi executado a tiros no Hospital Cidade Tiradentes, na zona leste, no dia 2 de julho de 2008. Seis homens armados dominaram cinco seguranças, entraram na enfermaria, mataram Andrade e foram embora. "Há uma absoluta negligência", diz o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Cid Carvalhaes. Já o presidente da Associação Paulista de Medicina, Jorge Curi, defende a criação de um sistema em que o atendimento de presos seja restrito a determinados hospitais cuja segurança seria "permanentemente reforçada".

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