Bangu abandonou seu projeto de segurança

Caso fosse convidado a elaborar um novo esquema de segurança para Bangu 1, o engenheiro Charles Finkel, autor do projeto original de proteção da penitenciária, recusaria a empreitada. Considerado um dos maiores especialistas mundiais no setor e mentor, entre outros, do sistema que vigorou no World Trade Center, Finkel diz que só tem interesse em trabalhar com clientes responsáveis, o que no caso de Bangu 1 implicaria mudança da filosofia carcerária em vigor no País. Para o engenheiro brasileiro radicado nos Estados Unidos, Bangu 1 é uma prova de que um esquema de segurança perde o valor se não for bem operado. Segundo Finkel, o projeto feito em 1992 vigorou por seis meses, mas foi sendo abandonado gradativamente. "Não sei o que aconteceu lá." O modelo implicava o isolamento total dos detentos, tráfego limitado, monitoramento por câmeras, acionamento de portas e outros mecanismos por sistemas remotos e mínimo contato direto com funcionários e visitantes. "Um presídio que não cumpre esses requisitos não pode ser considerado de segurança máxima. No Brasil, nenhum estabelecimento pode levar esse título", afirma. E, ao contrário do que muitos imaginam, a eficiência das fortalezas é inversamente proporcional ao número de funcionários. "Quanto maior a segurança, menor a quantidade de funcionários", diz Finkel. "Hoje, os sistemas de vigilância podem ser operados a distância. Nada contra o ser humano. Mas no caso dos presos de alta periculosidade, quanto maior o isolamento, melhor." Finkel cita como exemplo, o presídio de Phoenix, no Arizona, mais conhecido como Corredor da Morte, onde os 220 condenados não têm contato físico com os guardas nem com os parentes, que só são vistos através de um vidro. Caso essas regras tivessem sido seguidas em Bangu 1, o engenheiro garante que seria impossível a Luíz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, continuar líder do tráfico de drogas. "Sem meios de comunicação como ele iria fazer?" O engenheiro também considera simples a montagem de um esquema contra o funcionamento de celulares. "Até uma tela de galinheiro tem esse poder." Finkel, no entanto, acha que essa alternativa é desnecessária. "O que se tem de fazer é impedir a entrada dos aparelhos. E essa é uma questão de responsabilidade funcional. O agente tem de se conscientizar da importância de sua função." O engenheiro, que desenvolveu projetos de segurança para outras 18 penitenciárias brasileiras, não quis apontar um culpado pela rebelião em Bangu 1. Mas admitiu ter ficado surpreso com a ocorrência do motim e a dificuldade que as autoridades tiveram para controlá-lo. "São apenas 48 celas. Não entendo como pode ser tão difícil gerenciar um presídio tão pequeno." 11 de setembro - Um dos maiores orgulhos de Finkel é ter sido responsável pelo programa de segurança do World Trade Center, após o atentado a bomba em 1992. "Venci uma concorrência com 36 outras empresas." Considerado o maior dos Estados Unidos, o programa de vigilância das Torres Gêmeas tinha uma eficácia de 99,99%. "Só o software que dava acesso às garagens era capaz de checar 11 requisitos de segurança em apenas 4 segundos", relembra. A neutralização de todo esse aparato sob o impacto de aviões dominados por terroristas, em 11 de setembro do ano passado, deixou o engenheiro inconformado. "Foi algo totalmente imprevisível, que mostrou o quanto um gigante pode ser frágil."

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