Barbiere compara deputados a camelô, mas diz só revelar nomes a promotor

De volta à Assembleia após escândalo das emendas, parlamentar afirma que 'cada um tem uma maneira, um preço' e que alertou governo

Fernando Gallo, de O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2011 | 03h02

Ao retornar pela primeira vez à Assembleia após estourar o escândalo de um suposto esquema de venda de emendas parlamentares na Casa, o deputado Roque Barbiere (PTB) comparou a atividade dos parlamentares à de um camelô. Questionado sobre como funcionaria a prática, respondeu: "Isso é igual a camelô. Cada um vende de um jeito". "Cada um tem uma maneira, cada um tem um preço", afirmou.

Barbiere sustentou que, em duas audiências separadas, "há coisa de quatro meses", alertou o secretário de Planejamento, Emanuel Fernandes, e a subsecretária de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Delegada Rose, sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas.

"Eu disse pra ele: 'O dia que eu, Roquinho, destinar R$ 1 milhão pra São José dos Campos, você vai saber que eu vendi, filho. Eu nunca fui pra São José. Nem sei ir'. Viu como é fácil controlar? Não precisa eu ficar dando nomes", relatou Barbiere, que afirmou, em seguida, ver em Emanuel "uma pessoa super-honesta, de integridade acima de qualquer suspeita".

O deputado, que é de Birigui, usava São José dos Campos como exemplo por ser a cidade de Emanuel. Na segunda-feira, o Estado revelou que o deputado Gilmaci Santos (PRB) destinou oito emendas parlamentares a municípios do noroeste paulista, onde não tem votos. Todas elas estão dentro do limite de R$ 150 mil dentro do qual não é necessária licitação. Todas eram para pagar a mesma empreiteira.

'Ariscos'. Barbiere disse ter tido com Rose diálogo semelhante ao mantido com Emanuel. "Tive essa mesma conversa com a Delegada Rose, que é minha amiga também, uma pessoa íntegra", afirmou. "Eu disse pra ficarem ariscos pra que não acontecesse. Na ocasião disseram 'vamos ficar atentos a isso'."

O pivô das acusações, no entanto, dá mostras de ter recuado na intenção de contar quais deputados estariam vendendo emendas. Disse que mandará por escrito, ao conselho de Ética da Assembleia, as suas manifestações, e que não citará nenhum nome. "Nem com revólver na cabeça. O objetivo não é dedurar ninguém. É acabar com a prática (de confecção de emendas) ou dar a ela mais transparência."

Barbiere, no entanto, sustenta que poderá contar um malfeito específico ao Ministério Público. Mas diz querer a revisão de uma decisão do próprio MP. "Posso dar a eles alguma informação que prefiro não dar a vocês (jornalistas). Mas depende da maneira como eu for tratado", avisou. Em seguida, explicou: "Se o promotor for uma pessoa séria... vou levar um caso concreto para ele que envolve a Assembleia. E que tem o parecer de um promotor falando que está tudo ok. Eu acho que não tá. Se for um promotor sério, vai falar 'aqui o meu colega errou. Se fechar os olhos, por que vou dar mais informação pra ele?"

Indagado se o caso envolvia parlamentares ou ex-parlamentares, devolveu: "Ambos". Durante a entrevista, de meia hora, Barbiere afirmou que a prática de venda de emendas é muito antiga na Casa. "Estou contando histórias de 20 anos. Tem gente até que já morreu." Assegurou que os parlamentares com mais tempo de Casa também sabem do suposto esquema. "Para os mais antigos isso não é nenhuma surpresa. Se fingirem surpresa, é por hipocrisia."

Barbiere disse não sofrer pressão do líder do PTB, Campos Machado, para que não vá ao Conselho de Ética. "O Campos é meu companheiro. Não me pediu nada." O deputado criticou o governo ao responder sobre a necessidade da publicação das emendas anteriores a 2010. "Não tem como publicar por desorganização. Não é por desonestidade. O PSDB é ruim pra se comunicar, até entre eles."

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