Ulisses Sousa
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Barco com 70 pessoas naufraga no Pará; 10 corpos foram localizados

Entre os mortos, há seis mulheres, dois homens e duas crianças; embarcação partiu do município de Santarém

Carlos Mendes, Especial para o Estado

23 Agosto 2017 | 11h02
Atualizado 23 Agosto 2017 | 20h54

BELÉM – Um barco que saiu de Santarém rumo a Vitória do Xingu, no Pará, com mais de 70 pessoas a bordo, afundou no Rio Xingu - entre os municípios de Porto de Moz e Senador José Porfírio -, na madrugada desta quarta-feira, 23. Até o início da noite, os dados oficiais eram de 10 mortos, 15 sobreviventes e cerca de 40 desaparecidos. A embarcação Capitão Ribeiro não tinha registro na Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos (Arcon).

Segundo a Arcon, a embarcação pertence à empresa Almeida e Ribeiro Navegação e realizava “transporte clandestino de usuários”. Embora tivesse sido notificada pela fiscalização da agência no dia 5 de junho deste ano para que providenciasse a regularização, nenhum diretor da empresa compareceu ao órgão público.

Após sair de Santarém, a embarcação faria escala nos municípios de Monte Alegre e Prainha e teria como destino final Vitória do Xingu, em uma única viagem. De acordo com o governo do Pará, até 40 pessoas, sobretudo idosos, teriam embarcado em Porto de Moz.

Segundo o DJ e animador de festas em Altamira Bruno Costa, de 32 anos, um dos sobreviventes do acidente, ao notar a possibilidade de naufrágio, 25 pessoas decidiram nadar até a margem do rio, no meio da escuridão. Ele conta que os sobreviventes ficaram cerca de seis horas nadando sem saber onde estavam e conseguiram chegar à margem apenas às 3 horas. 

“Graças a Deus, estou muito bem, mas tive momentos terríveis em minha vida. Era por volta de 21h30 (de terça), quando começou uma tempestade muito forte. De repente, o barco começou a estalar e a afundar”, relatou Costa. Segundo ele, a lona amarrada em uma parte da embarcação para que a água da chuva não molhasse as pessoas impediu muita gente de sair do barco, provocando pânico entre os passageiros.

Costa relata que conseguiu pegar uma criança de 2 anos, embora estivesse sem colete salva-vidas, quando outro passageiro, na agonia de escapar, projetou-se sobre ele, rasgando suas roupas. “Eu fui para o fundo com a criança nesse momento, mas ao voltar à superfície vi várias pessoas perto de mim, gritando. Peguei um colete e me mantive na superfície, conseguindo também salvar a criança. Mas outras pessoas não tiveram a mesma sorte. Agradeço a Deus por estar vivo.”

Às 20 horas desta quarta, ainda havia informações desencontradas. O governo do Pará falava em 15 sobreviventes, mas outros órgãos apontavam até 25.

Entre os dez mortos confirmados, há seis mulheres, dois homens e duas crianças. As vítimas do naufrágio estão sendo levadas para o hospital municipal de Porto de Moz. Equipes do Instituto Médico Legal (IML) de Altamira estão se deslocando para a localidade para tentar identificar os corpos.

De acordo com o Comando do 4.º Distrito Naval da Marinha, no Estado do Pará, no ano passado, aconteceram 22 naufrágios. Em 2017, até agora, houve 7. O trecho do Xingu onde aconteceu o naufrágio é conhecido por fortes correntezas e tem profundidade de até 30 metros. 

Resgate. O Capitão Ribeiro foi içado do fundo do rio no começo da tarde desta quarta e o trabalho se concentrou na entrada dos mergulhadores para fazer uma varredura na tentativa de localizar pessoas presas dentro de compartimentos da embarcação. Além disso, lanchas e barcos procuram sobreviventes às margens do rio. As buscas devem ser retomadas na manhã desta quinta. 

A polícia abriu inquérito e começou a ouvir os sobreviventes. “Os bombeiros foram comunicados do naufrágio somente sete horas depois do acidente”, segundo informou ao Estado o subcomandante-geral da corporação, coronel Augusto Lima. 

Em nota, a Marinha do Brasil disse que enviou o navio-patrulha Bocaina e a Lancha Balizadora de Mar Aberto Marco Zero ao local para realizar buscas e coletar informações preliminares. “Um inquérito administrativo foi instaurado para apurar causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente”, diz o órgão. A Marinha diz, ainda, que a embarcação que naufragou está inscrita na Capitania Fluvial de Santarém e se solidariza com as famílias das vítimas. 

Embarcações na região são precárias, afirma engenheiro

Para o engenheiro naval Pedro Lameira, a segurança da maioria dos 60 mil barcos que navegam pelos rios amazônicos é problemática porque essas embarcações possuem “precárias condições para suportar um rápido alagamento” durante um acidente. Além disso, segundo ele, o excesso de carga e passageiros “compromete a estabilidade”. 

“Os rios na Região Norte são como ruas”, complementa o consultor Frederico Bussinger, ex-secretário de Transportes de São Paulo, especialista em transportes hidroviários. “Os rios ali são usados, centenariamente, para todos os deslocamentos, seja de pessoas, mercadorias ou combustíveis.” 

Como principal e às vezes única forma de acesso a diversas comunidades instaladas nas beiras dos rios, as embarcações se apresentam nas mais diversas formas. “Há catamarãs de altíssima qualidade e portos bem estruturados”, afirma ele. “Mas há também o transporte clandestino e portos que são trapiches instalados em barrancos nas beiras dos rios”, afirma Bussinger. “O transporte se intensificou mais nos últimos anos com a chamada ‘saída norte’, o transporte de mercadorias de Mato Grosso e Goiás, para os portos do Norte”. /COLABOROU BRUNO RIBEIRO

 

 

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