Barco em reforma na Marginal, a esperança de um Tietê limpo

Empresário quer transformar embarcação abandonada em símbolo da recuperação do rio

Mônica Cardoso e Tiago Queiroz, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Um barco "ancorado" na pista local da Marginal do Tietê, no sentido oeste - e não no rio -, desperta a curiosidade dos motoristas que trafegam por uma das principais vias de São Paulo. Entre as Pontes Julio de Mesquita Neto e da Freguesia do Ó, no bairro do Limão, zona norte, a embarcação já até serviu de abrigo ao morador de rua José Carlos de Martiniano, de 45 anos, por cerca de 30 dias. Depois de oito meses, o barco começa a ser reformado.Antes de deixar a embarcação num pequeno canteiro da Marginal, o empresário Enrico Vezzani queria motorizá-la para divulgar projetos de conscientização ambiental pela cidade. Em seguida, teve a idéia de colocar o barco em uma praça cheia de lixo pela qual passa todo dia quando vai ao trabalho. A embarcação enferrujada poderia, desse modo, chamar a atenção para a atual degradação do Rio Tietê."O objetivo agora é transformá-lo em uma representação do tempo em que o rio era navegável, suas águas eram limpas e a pesca e o banho podiam ser praticados", diz. A reforma da embarcação já começou, mas não tem data definida para terminar, pois como Vezzani diz, "o espetáculo é a reforma do dia-a-dia", assim como a recuperação do Rio Tietê, que tem de ser feita aos poucos.A proposta é utilizar apenas objetos usados e permitir a integração de toda a comunidade no projeto de restauração do veículo. Já foram doadas uma bússola e uma corda antigas para a velha embarcação. Essa é, aliás, umas das propostas do empresário: reaproveitar - o que, além de econômico, é ambientalmente responsável. "O ambientalismo de resultados gera dinheiro", reforça Vezzani. O barco mesmo era lixo, abandonado, no Departamento de Hidráulica da Universidade de São Paulo. Na década de 1940, serviu para batimetria - medir a profundidade da água e impedir o assoreamento nos Portos de Santos e Peruíbe. Vezzani tornou-se o "capitão" do barco porque um amigo, que coleciona objetos antigos, resolveu presenteá-lo.A ONG Ecos do Vitória, responsável pela educação socioambiental no bairro, está organizando o projeto. Vezzani, como um bom milanês, propôs durante o processo de restauro um "nhocológico". Todo dia 29 de cada mês, como manda a tradição, o italiano, que vive há três décadas no País, servirá um nhoque na praça.A praça onde está o barco foi adotada pelos voluntários e também está em fase de recuperação. Ela não tem nome, mas a proposta é batizá-la de Navegando na Ecologia, se a Prefeitura autorizar. A ONG Planeta Verde doou as mudas e será feito um viveiro com espécies nativas: sibipirunas, quaresmeiras, ipês e mognos. Para fertilizar o solo, será usado lodo de esgoto, para mostrar que tudo pode ser reaproveitado.Para Vezzani, o barco tem ainda a simbologia de solidariedade, em que "cada tripulante é responsável pelo bem-estar da tripulação", diz. "O meio ambiente depende de todos, tanto do poder público como da população". Ele espera que um dia o Rio Tietê possa ser recuperado e se torne navegável novamente. Para o italiano, tudo e todos podem ser recuperados. Por isso, Martiniano, do começo desta história, deixou o barco, ganhou um trabalho de Vezzani e hoje vive no Albergue Boracéia.

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