Barco que naufragou no DF estava com estrutura comprometida

Segundo polícia, também houve imperícia no socorro e negligência na segurança durante passeio

Vannildo Mendes, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2011 | 20h23

BRASÍLIA - A Polícia Civil de Brasília já sabe que, além do excesso de passageiros, o barco Imagination estava com a estrutura comprometida por provável falta de manutenção. Além disso, houve imperícia no socorro e negligência nos cuidados de segurança durante o passeio que acabou em tragédia na noite do último domingo, no Lago Paranoá. Esse conjunto de erros deve render o indiciamento do dono do barco, do comandante e da responsável pela festa, todos por crime culposo - sem dolo, mas com o agravante de ter havido mortes.

 

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"Eu já tenho uma convicção formada e ela aponta para crime culposo, mas só vou tratar dos indiciamentos depois que a perícia técnica for concluída", disse o delegado Adval Cardoso Matos, da 10ª DP, após ouvir até esta terça-feira, 24, mais de 30 sobreviventes. Os dados serão cruzados com os depoimentos para saber as causas do acidente e as responsabilidades de cada um.

 

Os depoimentos de hoje confirmaram que houve duas panes elétricas antes que o barco começasse a afundar. A perícia encontrou uma rachadura em um dos tubos de flutuação do barco, que pode ter se agravado com o sobrepeso e causado o acidente. Tripulantes e pessoas que fizeram o passeio outras vezes indicaram que as panes vinham se repetindo nas últimas viagens do Imagination.

 

O dono da embarcação, Marlon José de Almeida, mesmo avisado, não suspendeu os contratos seguintes para fazer a revisão da unidade. Um dos alertas foi dado pelo comandante, Airton Carvalho da Silva Maciel, que partiu para o passeio de domingo com um número maior de passageiros que o permitido e ciente de que os problemas técnicos do barco tornavam a viagem arriscada.

 

Marlon negou negligência com as revisões e disse que seu barco tinha toda a documentação em ordem. Mas o delegado admitiu que ele será intimado a prestar novo depoimento se a perícia confirmar que os problemas técnicos eram antigos e que ele não agiu para saná-los. Já a empresária Vanda Pereira Dornel, responsável pela festa realizada no barco, assinou um contrato para levar a bordo no máximo 92 pessoas, mas vendeu lugares para 102, dez a mais que o permitido.

 

O barco afundou uma hora após ter zarpado de um clube e 93 pessoas foram resgatados com vida. Até hoje, oito corpos haviam sido retirados do fundo do lago. Entre as vítimas, há um bebê de sete meses, João Antônio, retirado sem vida na mesma noite da tragédia e sua mãe, Valdelice Fernandes. Restam dois desaparecidos, mas a polícia admite que possa haver mais vítimas porque alguns passageiros entraram no barco de última hora e não constavam da lista oficial.

 

Vanda, que é dona de um buffet e participou ontem do enterro da irmã, Flávia Dornel, uma das vítimas, será ouvida hoje. No seu depoimento, o comandante Airton disse que desceu ao porão, após a primeira pane, quando os controles indicavam algo errado. Mas embora o barco começasse a inclinar, a bomba de esgotamento estava funcionando.

 

Ao voltar à cabine de comando, ele viu que os instrumentos apontavam situação de emergência. Desceu novamente e já encontrou o porão inundado, a bomba inativa e a tripulação em pânico. Ele contou que então deu o alarme de evacuação. O que aconteceu em seguida foram momentos de desespero, conforme a descrição dos sobreviventes. Os que caíam na água agarravam-se nos pés de quem estava acima, para chegar à superfície. Para se livrar do "abraço do afogado", alguns tiveram de dar safanões nos desesperados.

 

Na hora do naufrágio, vários estavam no pavimento inferior, cercado por vidros, e que estava fechado por causa do frio. Os passageiros tiveram que se acotovelar para subir pela escadaria até o pavimento superior, de onde podiam pular na água turva e gelada do lago, que entrava rápido pela embarcação. Em menos de três minutos, o barco afundou.

 

Vários tiveram de sair do barco nadando no contrafluxo da água. Foi o caso de Sérgio Augusto Ribeiro Barreto, um brigadista de 27 anos, que estava na parte mais baixa e levou dois minutos para chegar à superfície. Lá, ainda teve que disputar um lugar fora da água com vários outros que tentavam subir agarrando-se nele. No tumulto, ele conseguiu segurar o bebê, já então desfalecido. Com ele, subiu na lancha de resgate, mas as tentativas de ressuscitamento não deram resultado. O bebê foi enterrado hoje e a mãe terá o corpo liberado amanhã para sepultamento.

 

Com onze membros a bordo do Imagination, a família do barman Hilton Carlos Soares Gomes teve melhor sorte. Todos se salvaram, inclusive ele, que sequer sabe nadar e estava sem colete. Na hora do naufrágio, Hilton afundou alguns metros, mas, agarrando-se à estrutura do barco, chegou ao topo, onde permaneceu por mais de vinte minutos acima da superfície, tempo suficiente para a chegada do socorro. Ele, a mulher, Luciane e todos os sobreviventes da família foram ouvidos hoje.

 

O depoimento do piloto José Carlos Souza Santos, da lancha que teria colidido e contribuído para afundar o Imagination, serviu para a polícia desfazer um grave equívoco. Na verdade, além de não ter colidido, a lancha prestou a primeira ajuda aos náufragos, evitando que muitos morressem. Santos, que apesar de não ter licença de Arrais, assumiu o comando porque o piloto havia bebido, fez cinco viagens de resgate e já no primeiro, quando levou os feridos e os mais fracos, acionou os bombeiros, que chegaram a seguir com as equipes de socorro.

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