MARCIO FERNANDES/ESTADAO
MARCIO FERNANDES/ESTADAO

Cidade de Barra Longa faz limpeza com máquina emprestada

Município de 6,5 mil habitantes tenta retomar rotina com dificuldade; sem local para abrigar donativos, ajuda é dada até ‘na confiança’

Bruno Ribeiro, Enviado especial

10 Novembro 2015 | 03h00

BARRA LONGA - A destruição causada pela lama em Barra Longa, cidade de 6,5 mil habitantes na região de Ponte Nova, a 60 quilômetros de Mariana, foi tanta que, dos 21 distritos, sete continuavam totalmente isolados por terra até a manhã desta segunda-feira, 9. No centro, a lama misturou-se à poeira bege fina.

Funcionários da Samarco que ajudam na limpeza estão por todos os lugares. Mas nas estradas a prefeitura estima que só em 30 dias a lama será totalmente retirada, permitindo o acesso de carros menores às localidades rurais. “As 20 máquinas que estamos usando vão gastar de R$ 80 mil a R$ 100 mil só de óleo diesel”, diz o prefeito, Fernando José Carneiro Magalhães (PMDB). O orçamento municipal é de R$ 800 mil. “As máquinas e os caminhões são todos emprestados, de dez cidades vizinhas. O combustível e o pessoal da limpeza quem está pagando é a Samarco”, conta.

Quem chega à cidade se impressiona com uma enorme montanha de lama à esquerda da pequena estrada, de mão dupla, que serve de acesso. É o que já foi retirado do centro. “Temos 800 casas ali e 90 foram destruídas”, diz Magalhães.

O município encontra dificuldade até para organizar locais para abrigar os donativos recebidos. A distribuição é feita sem nenhum controle, exceto a confiança: todos se conhecem e sabem quem de fato precisa de água, comida, roupas e brinquedos armazenados. Mas o que mais tem saído do lugar são rodos e vassouras, expostos na porta do centro de distribuição - um galpãozinho ao lado da igreja (capela que fez 275 anos no sábado, mas cuja festa de aniversário foi cancelada).

A rua do centro da cidade está interditada pela lama. A população circula pela calçada. É nela que o comerciante Marcos Antônio Ferreira Xavier, de 74 anos, passa o dia. Ele tinha um salão que foi totalmente destruído pela lama. Desde sexta-feira, vê operários abrirem caminho pela lama até conseguir chegar de novo no “Barzinho”, a única casa noturna da cidade. “Saí com a roupa do corpo. Vim para a casa da minha irmã. Todo dia, à noite, lavo a roupa e visto de manhã. Só a camiseta que troco, e tive de comprar duas, além de um par de botas de plástico.”

Xavier havia fechado um show para o próximo sábado, com um casal de música sertaneja, e espalhado cartazes pela cidade. Agora, no trajeto da casa da irmã até a frente da igreja, vai retirando os anúncios que vê. 

A lama chegou a Barra Longa na madrugada de sexta. Os moradores haviam sido avisado pela TV e por amigos. “Aí o povo começou a tirar os móveis, as coisas de casa. Então muita gente salvou os pertences”, conta a dona de casa Sandra Maria da Silva, de 40 anos. “Eu consegui salvar tudo. Só perdi meu quintal, que tinha galinha e uns ‘trens’ que eu plantava”, conta.

Mais tensa é a situação nos vilarejos afastados do centro. Em Gesteira, com 12 casas, o acesso até domingo era feito só por helicópteros. “O médico foi até lá com o helicóptero dos bombeiros”, conta a encarregada do posto de saúde da cidade - que acumula o cargo de secretária de Saúde -, Marcela Carvalho Rola, de 33 anos. A cidade tem quatro médicos, três deles cubanos. Foi graças aos cadastros dos médicos e as visitas aos vilarejos que se confirmou que a cidade não teve mortes.

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