Barracos e outras confusões dos desfiles

Vaidade a mil e nervos à flor da pele: combinação explosiva dos bastidores

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

23 Fevereiro 2009 | 00h00

"Não saaaaaaaio! Daqui eu não saaaaaaaio", gritava a destaque da Unidos do Peruche, Cristiana Cobes, de 34 anos, inaugurando a série de barracos do carnaval de São Paulo. Em seu 20º desfile, a mulata queria brilhar na primeira fila do carro de diamantes. Acontece que na segunda fila, atrás dela, havia um diamante vazio e era preciso que ela pulasse para lá, permitindo que outro destaque subisse. "Não saaaaaaaio", repetia, do alto de seu diamante falso, feito de madeira e papel de alumínio. E ela não saiu. Um guindaste teve de içar a outra sobre Cristiane para alcançar a plataforma. Holofotes acesos no sambódromo, elas abrem o sorrisão e a plateia não imagina que segundos atrás estavam se descabelando, se esgoelando na concentração. Ali são feitos ajustes nas fantasias e nos carros, o último ensaio das coreografias e da bateria. E os nervos costumam estar à flor da pele. "Desce daí. Já", gritava uma integrante da Rosas de Ouro, a segunda a desfilar, para a destaque Kátia Magro, de 28 anos, posicionada na plataforma da frente do carro havia quatro horas. "Eu cheguei primeiro", respondeu. Não foi ouvida. E teve de deixar o posto para a outra.No mesmo carro, a amiga Kátia Rodrigues, de 29 anos, tentava argumentar: "Eu paguei! Não fui convidada, não!" E pagou caro: R$ 700 por um lugar previamente definido, segundo ela. "Sabe quando que eu vou torcer para a Rosas de Ouro ganhar? Nuuuuuuunca", esbravejava. Uma terceira destaque tentava acalmar as duas: "é melhor do outro lado, bobas. A TV Globo só filma do lado direito."As câmeras de TV, no entanto, tinham o foco em uma só musa: Ellen Roche, que provocou confusão, com tanta gente em volta dela, deixando de lado a bela mulata Elaine de Abreu, 1.ª princesa do carnaval e ex-rainha da Rosas. "Eu não queria, mas fui ?convidada? a passar a faixa", disse. Lado a lado na avenida, as duas eram só sorrisos.Pouco antes da entrada, as oito costureiras que desfilariam na Rosas não tinham aparecido - estavam presas no trânsito. Elas sairiam em um carro que quebrou, e dez homens ainda arrumavam quando a escola entrou na avenida. Os carros alegóricos são a maior dor de cabeça das escolas.No sábado, o primeiro carro da Pérola Negra errou a direção e bateu em uma estrutura cheia de gente no lado esquerdo da avenida, no início do sambódromo. Mais de 60 pessoas correram para ajudar a colocá-lo na direção certa. A manobra quase estragou o desfile. Na Acadêmicos do Tucuruvi, dois de seis holofotes que iluminavam os destaques do quinto carro quebraram, mas a escola já estava na avenida e seguiu sem eles. Em outro carro, da Mocidade Alegre, um folião histérico ameaçava não desfilar sem que pudesse levar consigo a sua bolsa, enorme. "Sem a minha sacola eu não su-bo!", gritava.Na mesma escola, seis meninas que desfilariam no carro Moulin Rouge discutiam sobre onde colocar uma flor, parte da fantasia. Algumas queriam exibir o artefato na perna e outras na cabeça. "Sua burra! É na cabeça!", gritou uma à outra e daí para pior. O carnavalesco Sidney França teve de ser chamado e à pergunta da repórter sobre onde, afinal, deveria ir a rosa, ele respondeu: "o que é que você acha, meu bem?". Eu? Era na Gaviões da Fiel, no entanto, que os ânimos pareciam mais alterados. Ajustes nas fantasias tiveram de ser feitos às pressas, as crianças se recusavam a subir em uma roda-gigante e houve brigas entre os integrantes. Na dispersão, novo barraco. O auxiliar de cinegrafista Luis Finotti, da Globo, filmava o final do desfile quando foi agredido por três componentes da escola. "A equipe vem atrapalhar a bateria na frente dos jurados" esbravejava o vice-presidente, Renato Luís de Souza. "Não pode!"

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