Barriga de aluguel

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, perdeu as últimas eleições que disputou em Sergipe, mas nas duas vezes saiu ganhando: na primeira, a presidência da Petrobrás e na segunda o comando da subsidiária BR Distribuidora.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2010 | 00h00

Na eleição de 2010 foi mais prático e ajeitou-se como suplente de senador na chapa de Antônio Carlos Valadares, enquanto cuidava da campanha de Dilma Rousseff.

O plano óbvio era chegar ao Senado pelo meio mais fácil, amplamente difundido e atualmente responsável por pouco menos de um terço da Casa ser ocupado por gente que não recebeu um só voto.

Dutra, portanto, não é o único, não é o primeiro nem será o último a recorrer ao estratagema.

O que se inaugura agora é uma nova modalidade não só na forma de se conquistar uma cadeira no Senado, mas também de adoção de critério para preenchimento de cargos no ministério.

Conforme demonstrado diariamente, sabemos todos que não existe critério de mérito específico para a escolha de ministros. A mesma pessoa tanto pode ser cotada para a Saúde como para a Agricultura, pois o que importa é a força do padrinho.

Agora, em Brasília nunca se havia visto nada parecido com que acontece com o senador Antônio Carlos Valadares. É ministro nem que não queira para que o suplente possa ser senador. O que fará de Dutra o único senador indicado pela Presidência da República.

Já Valadares faz de conta que não sabia o que Dutra fazia em sua chapa e valoriza o passe: "A opinião pública pode interpretar isso como um arranjo para acomodar políticos", diz para justificar a recusa ao Ministério das Micro e Pequenas Empresas, ressalvando, porém, que se o convite for para uma pasta já estruturada tem conversa.

Tradução. Quando Marta Suplicy afirma que pretende ser "o braço direito" de Dilma no Senado, está dizendo que é candidata a líder do governo.

Matriz e filial. As duas alas em conflito no DEM falam em afirmação partidária e busca de identidade singular, mas, na prática, o partido continua funcionando como sucursal do PSDB.

Rodrigo Maia se movimenta sob orientação de Aécio Neves e Gilberto Kassab se mexe conforme a conveniência de José Serra. A briga interna no DEM absolve a situação de racha que se delineia entre os tucanos.

Aécio de um lado avançando com desenvoltura para se consolidar na posição de referência e Serra, de outro, articulando no bastidor para sustentar a influência no PSDB.

Nenhum dos dois assume o cisma, mas quem viver logo verá o espetáculo do crescimento das hostilidades.

Estranho no ninho. Tem gente no PMDB que engoliu vários sapos para ficar ao lado do governo na eleição, inconformada com a escolha do senador Garibaldi Alves para o Ministério da Previdência.

O currículo, de fato, contraria a lógica: foi o único presidente do Senado até agora a devolver uma medida provisória para o Palácio do Planalto; presidiu a CPI dos Bingos, também conhecida como CPI do fim do mundo; disfarçou mal - ou mal disfarçou - sua preferência por Serra na eleição.

Acontecimentos adiante que talvez desvendem o mistério.

Quanto pior. O deputado federal mais votado do Brasil aparece para dizer que sabe ler e escrever três meses depois de ser denunciado como inelegível por analfabetismo e falsidade ideológica, e quem é alvo de críticas é o promotor denunciante.

Há uma corrente (robusta) que considera a posição do Ministério Público uma perseguição tola, pois os votos recebidos pelo acusado funcionariam como salvo conduto a toda sorte de condutas.

Desse tipo de mentalidade, e não só das falhas do sistema e da falta de ética de políticos, é que se alimenta a desqualificação do Congresso Nacional.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.