Barrigas de aluguel do tráfico

Para fazer o 'serviço sujo', criminosos seduzem jovens pobres, sem perspectiva e com problemas familiares

ADRIANA CARRANCA, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

O Brasil está no meio da rota do narcotráfico internacional, tendo o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, como o mais visado para o escoamento da droga via aérea, por concentrar maior oferta e frequência de voos para o exterior na América Latina. O intenso movimento de passageiros aumenta as chances de as "mulas" passarem despercebidas. Parte da droga fica no País, mas os principais destinos são os mercados da Europa e Ásia. Segundo a Polícia Federal, traficantes têm lucro maior na exportação.

Para fazer o serviço sujo, diz o delegado chefe da PF em Cumbica, Mário Menin, eles seduzem jovens "pobres, sem perspectiva". São a personificação da jovem do bem-sucedido longa Maria Cheia de Graça, que rendeu à protagonista Catalina Sandino Moreno a primeira indicação de uma colombiana ao Oscar de Melhor Atriz. Essas, porém, são Marias reais.

Alugar a barriga para carregar droga pode render até U$ 5 mil, a mais bem remunerada forma de transporte. As outras rendem entre U$ 3 mil e U$ 4 mil. A inglesa N.A.S., de 23 anos, trouxe cocaína na vagina. A sul-africana T.B., de 32 anos, passou por Lima e Bogotá até ser presa com 10 kg da droga em pacotes de café. Tenta provar que foi enganada por uma falsa promessa de emprego, passa os dias escrevendo cartas aos filhos, de 3 e 4 anos, e ensina inglês a outras presas.

Trinta quilos mais magra, sua conterrânea J.T., de 22 anos, está jurada de morte pelo homem preso com ela no aeroporto, com 4 kg de cocaína, suposto integrante do Primeiro Comando da Capital. Isolada na cadeia, ela aprende português, ganha R$ 300 por mês em serviços como passar o uniforme das presas e tem sonhado muito com sapatos - na África, isso significa desejo de liberdade. A mãe veio vê-la em setembro, em três visitas de 20 minutos.

A angolana L.C., de 23 anos, foi surpreendida com a droga na sola dos sapatos. Na cadeia, descobriu estar grávida de duas semanas. Há três meses não vê o filho, entregue a um abrigo após o período de amamentação. Ela tenta reduzir a pena de 7 anos e juntar algum dinheiro trabalhando na cadeia. "Não tenho ninguém", diz. Em Luanda, Angola, uma das mais caras cidades do mundo, recebia U$ 300 por mês. Um traficante lhe prometera R$ 3 mil para transportar a cocaína - pagos na entrega, é claro.

PREJUÍZO PRESUMIDO

As "mulas" são o ponto mais frágil de uma perigosa e lucrativa cadeia em que os chefões nunca perdem. Despacham "mulas" às centenas. As que morrem no caminho ou são presas entram na contabilidade como prejuízo presumido.

Maria, a espanhola que aguarda sentença na Penitenciária Feminina da Capital, desembarcou em São Paulo no dia 18. Seguiu para o endereço que lhe deram, de um hotel na Rua 13 de Maio, na Bela Vista, e lá esperou uma semana até ser contatada por um nigeriano. Voltaria para Madri na mesma noite. Horas depois, o homem trouxe as 130 cápsulas que marcariam a sua vida. Maria levanta a blusa e mostra a cicatriz de 30 centímetros, herança da cirurgia que lhe salvou, rasgando sua barriga da altura dos seios ao ventre.

Maria só não morreu porque as cápsulas se romperam parcialmente, liberando a droga em pequenas quantidades e devagar o suficiente para que os médicos tivessem tempo de retirá-las do seu corpo antes que ela sofresse uma parada cardíaca. "Quando se rompem completamente, a morte é instantânea", diz o chefe da unidade de emergência do Hospital Geral de Guarulhos, Fernando de Andrade Leal, que atende, em média, seis casos por mês. É para lá que vão as "mulas" presas em Cumbica com cocaína no corpo.

O tubo gastrointestinal é usado pelos traficantes por ter mais espaço para a droga - entre 70 e 100 cápsulas, com 5 g a 7 g cada uma. Segundo o médico, as mulas transportam cocaína pura, antes de misturada a outras substâncias para venda. Sua letalidade é maior. Se liberada no corpo, a cirurgia é a única saída.

Maria já voltou ao hospital três vezes com infecções - a primeira por dormir no chão sujo da cadeia onde passou os primeiros dias. A dor física é controlada com injeções de analgésicos que lhe deixam também os braços marcados. Maria chora um choro amargurado. "Pior é a dor dessa tristeza que me come por dentro", diz. "Nunca vou esquecer. Olha o que eles (traficantes) fizeram." Ela, então, se acalma com o pensamento de que talvez haja uma explicação divina para a sua tragédia. Quem sabe foi de Deus a ideia de, com a feia cicatriz, livrar Maria do destino para o qual ela não via saída.

Maria é prostituta desde os 17 anos, filha de prostituta, com carteirinha das prostitutas de Amsterdã, onde aluga uma das famosas vitrines quando o movimento em Madri está fraco. Não conheceu outra profissão. Topou com o nigeriano que a mandaria para o Brasil em um programa, em março. Cobrou 30, 10 para o aluguel da cama. Ele voltou algumas vezes, aproximou-se dela, ofereceu-lhe US$ 5 mil para se casarem - queria a cidadania da Espanha. Um dia, chegou dizendo que ela teria de viajar. Diante da negativa, ameaçou sua família - a essa altura, sabia muito de Maria, até da filha de 2 anos, que ela agora verá crescer por fotos.

Maria recebe da Embaixada da Espanha R$ 400 a cada três meses para pagar um advogado particular. Seu desejo é cumprir pena perto da família. No Brasil, a concessão é rara. Se economicamente não interessa manter presos estrangeiros sem participação no crime organizado, como as "mulas" que só fazem o transporte, aplicar penas rígidas e limitar as extradições ajuda a reduzir o uso do Brasil pelos traficantes como rota, no entendimento do advogado Fernando Coelho, especialista em Direito Internacional.

EXTRADIÇÃO

O Brasil tem tratados de transferência de presos com países como Paraguai e Bolívia. "Mas não é automática. O país de origem tem de solicitar a extradição e o preso querer", explica a professora de Direito Internacional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Carmen Tibúrcio. Às vezes, o condenado não quer, por sofrer ameaça em seu país ou temer penas mais duras.

Maria levanta as mãos unidas em direção ao céu. "Agradeço a Deus por não ter pena de morte aqui. Sei que perderei esses anos junto à minha filha. Mas, ganhei o resto dos meus dias para estar com ela." Quando voltar para casa, Maria quer ter outra vida.

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