Dida Sampaio/ Estadão
Mensagem na base aérea de Anápolis, onde brasileiros vindos de Wuhan vão ficar em quarentena Dida Sampaio/ Estadão

Base aérea de Anápolis está preparada para fim da quarentena de brasileiros resgatados em Wuhan

58 pessoas que estavam em confinamento desde o dia 9 de fevereiro partem para o Brasil

Por Eduardo Rodrigues, enviado especial, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 09h20

Anápolis (GO) - Após um café da manhã festivo de despedida, a Base Aérea de Anápolis já está preparada para a cerimônia que marcará o fim da quarentena de 14 dias para 58 brasileiros que foram resgatados em Wuhan, China, epicentro dos casos de coronavírus no país asiático.

As 58 pessoas que estavam em confinamento desde o dia 9 de fevereiro partirão hoje para suas casas no Brasil, após o resultado negativo para coronavírus obtido após a terceira análise, colhida na sexta-feira e concluída neste sábado (22). Os exames foram realizados pelo Laboratório Central do Estado de Goiás e pela Fundação Oswaldo Cruz.

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, participarão da cerimônia de conclusão da Operação Regresso à Pátria Amada Brasil, prevista para as 10h.

A operação trouxe de volta ao País um grupo de 34 brasileiros, entre adultos e crianças, que pediu para deixar a região que se transformou no centro de contaminações. Os repatriados estavam acompanhados por mais 24 tripulantes, entre equipes de voo, médicos e pessoal de comunicação.

Uma das pessoas que está isolada é Caleb Guerra, estudante de Literatura de 28 anos. A pedido do Estado, ele está escrevendo relatos periódicos sobre a experiência na quarentena e a sua própria história de vida em Wuhan, onde estava há nove anos.

Com o fim da quarentena, os resgatados partirão ainda pela manhã em voos da Força Aérea Brasileira (FAB) para suas cidades. Um grupo com 20 deles irá para Brasília, sendo nove repatriados, nove militares, um profissional do Ministério da Saúde e um profissional da EBC.

Dois dos passageiros para Brasília seguirão em voos comerciais para o Maranhão e o Rio Grande do Norte.

Outro grupo de 13 passageiros irá para São Paulo, com 11 repatriados, um militar e uma integrante do Ministério da Saúde. Cinco repatriados serão levados pela FAB para o Paraná, três para Minas Gerais e uma para o Pará.

Apenas um repatriado permanecerá em Anápolis, enquanto onze militares que também ficaram em quarentena irão para o Rio de Janeiro.

Hoje, no Brasil, há apenas um caso suspeito de coronavírus - no Rio de Janeiro - e 52 casos investigados já foram descartados.

Nesse sábado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada de 599 novos casos de coronavírus, sendo 397 na China. Balanço mais recente também divulgado pela OMS aponta que 2359 morreram em decorrência da infecção e outras 77,7 mil estão infectadas pelo vírus.

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Coronavírus: Veja o que se sabe sobre a doença

Um vazamento de amônia líquida em uma unidade de refrigeração em uma instalação de armazenamento a frio em Xangai matou ontem 15 pessoas e feriu outras 26, informaram autoridades locais. O vazamento ocorreu na Weng's Cold Storage Industrial Co., localizada no distrito de Baoshan. A China, segunda maior economia do mundo, tem um histórico de problemas de segurança no trabalho. Em junho, 120 pessoas morreram em um incêndio em uma unidade de processamento de frango em Jilin.

Senado aprova projeto com regras de quarentena e de combate ao coronavírus

Texto que foi apresentado pelo governo segue agora para sanção do presidente Jair Bolsonaro; neta quarta, 5, dois aviões deixaram o país para resgatar brasileiros que estão em Wuhan, epicentro da doença

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 18h06

BRASÍLIA - O Senado aprovou, nesta quarta-feira, 5, o projeto que prevê regras para quarentena e medidas de enfrentamento do coronavírus. Com a aprovação, o texto seguirá para sanção do presidente Jair Bolsonaro e poderá virar lei imediatamente após a confirmação do chefe do Planalto.  O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que Bolsonaro vai sancionar o projeto entre esta quarta e quinta-feira, 6, de manhã.

A aprovação da proposta no Congresso foi rápida. O projeto foi enviado pelo governo nesta terça-feira, 4, passou pela Câmara e agora teve a chancela do Senado. Nesta quarta, dois aviões da frota presidencial deixaram o País para resgatar pelo menos 34 brasileiros em Wuhan, cidade da China, o epicentro do novo coronavírus.

A proposta prevê regras para o isolamento, a quarentena e a realização compulsória de exames em pacientes suspeitos de estarem infectados com o vírus no Brasil. Na Câmara, os deputados alteraram o texto para garantir a vigência das medidas enquanto perdurar o estado de emergência internacional relacionado ao coronavírus.

A falta de uma legislação específica sobre quarentena poderia dar margem para que as pessoas trazidas de volta ao Brasil se recusem a ficar isoladas. Com a lei, governo poderá determinar a "restrição excepcional e temporária de entrada e saída do País por rodovias, portos ou aeroportos".  

As pessoas submetidas à quarentena deverão ser informadas permanentemente sobre o estado de saúde próprio. A família também deverá receber assistência e o tratamento terá de ser gratuito. Não houve alterações no conteúdo da proposta durante a votação no Senado. 

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Relatos da quarentena (2): 'Como feijão salgado pensando nos doces em que vão feijão'

'Minha mente continua esculpindo dragões que voam pelas ruas de Wuhan oferecendo uma ajuda que eu não tenho nem condições de prestar', escreve Caleb Guerra, estudante de Literatura que está na base aérea em Anápolis

Caleb Guerra, Especial para o Estado

14 de fevereiro de 2020 | 10h00

ANÁPOLIS - O Estado iniciou nesta semana a publicação de uma série de relatos escritos por Caleb Guerra, de 28 anos, estudante de Literatura que morava em Wuhan. Ele  está entre os 34 brasileiros repatriados da província, área mais afetada pela epidemia de coronavírus. Guerra aceitou escrever um diário com suas impressões sobre a quarentena na Base Aérea em Anápolis, em Goiás. Este é o seu segundo texto. 

"Na China, feijão é servido doce. Às vezes, até caramelizado. E tem sido impossível comer feijão salgado todos os dias sem pensar nos doces que vão feijão: feijão com sorvete de menta, por exemplo, é um clássico. Feijão no pão doce, com leite à vapor ou na gelatina de coco. Feijão no leite com chá. Se os chineses descobrirem o quão fascinante sobremesas feitas com leite condensado são, talvez em alguns anos teremos uma versão chinesa de brigadeiro, feito com feijão preto em vez de chocolate.

No livro A Mente Literária e o Esculpir de Dragões, que foi escrito no quinto século, Liu Xie diz que a maior dádiva outorgada pelo universo ao homem se torna também uma das maiores maldições de sua existência: a realidade de que, estando ele parado na beira do rio observando toda sua beleza, ainda assim a sua mente vaga involuntariamente pelos palácios da corte imperial.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Wuhan ❤ Better days will come again and your streets will shine one more time.

Uma publicação compartilhada por Caleb Guerra (@calebwkyz) em

Ele atribui toda beleza da existência humana ao fato de que o homem sempre ocupa dois lugares ao mesmo tempo, vivendo duas realidades de uma vez só, experimentando o mesmo mundo de duas formas diferentes, simultaneamente. E a essa capacidade da alma do ser humano, ele dá o nome de “a arte de Esculpir Dragões”. Nossa vida se baseia no esforço do processo criativo de desenhar mentalmente suas escamas, pintar as camadas e ser fiel aos contornos na tentativa de criar algo tão majestoso e sublime. É essa percepção da realidade na mente que dá sentido e beleza ao nosso dia a dia mais natural e vulgar.

Mas enquanto esse dom concedido pelo cosmos trabalha para o bem da humanidade que cria e se desenvolve, paradoxalmente ele se torna a nossa maior sina. E é exatamente essa possibilidade que todo ser humano tem de Esculpir Dragões que me faz comer feijão salgado pensando em feijão doce. Não me leve a mal, sou muito agradecido pelo que tenho aqui. Mas a minha mente perambula.

Eu olho o pão francês servido quentinho pela manhã e me alegro. De repente minha mente me pergunta: “Cadê ovo cozido que passou a noite inteira mergulhado no chá e agora já está da cor marrom e com gosto de cravo?”. Eu vejo as camadas de presunto e mortadela no prato e tento buscar inconscientemente onde está na mesa o pepino ralado, o pimentão cortado, o pãozinho cozido à vapor, o repolho frito com cebola, a sopinha doce de arroz fermentado com milho e por último aquele prato de macarrão com molho de gergelim tão famoso que o povo de Wuhan adora comer às sete da manhã... 

Após o café da manhã, os médicos batem na minha porta para medir minha pressão, temperatura e fazer um questionário de perguntas sobre como estou me sentindo. Quando eles saem, a psicóloga chega. Preencho o formulário, digo que está tudo bem. Penso na senhora que mora no apartamento ao lado do meu lá em Wuhan. Será que ela tem alguém perguntando como ela amanheceu todos os dias?

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ah, o azul de Anapolis ❤

Uma publicação compartilhada por Caleb Guerra (@calebwkyz) em

Devolvo o meu prato na cozinha e me lembro dos fins de semana tomando chá com meus amigos chineses e de como a casa ficava vazia quando eles iam embora e eu me sentia tão sozinho novamente lavando a louça suja. Penso no meu colega que acabou de perder o pai para o vírus, mas não pode nem enterrá-lo porque ele mesmo tem passado os últimos dias em uma cama de hospital infectado. Será que ele tem alguém ao lado para dar as mãos e orar junto com ele? E aquela garota americana que toca flauta tão bem e foi confirmado o diagnóstico positivo para o vírus? Acho que vou mandar uma mensagem e perguntar como está o coração dela. Será que ela vai ler? Será que vai responder?

Estar no Brasil agora é um privilégio do qual sou grato. Mas eu não esqueço do feijão doce. Enquanto os dias passam embaixo do céu limpo e azul de Anápolis, minha mente continua esculpindo dragões que voam pelas ruas de Wuhan e é incontrolável o desejo de voar junto com eles batendo de porta em porta oferecendo uma ajuda que eu não tenho nem condições de prestar. Mas fico pensando que consolo um abraço, uma oração ou um sorriso traria às pessoas do outro lado da porta? O povo de Wuhan está de coração partido, e esculpir dragões comendo feijão salgado me faz lembrar disso o tempo todo."

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Brasil tem 11 suspeitas de coronavírus; governo gastará R$ 140 mi em insumos

Ministério da Saúde fará aquisição emergencial de produtos como máscaras, luvas e óculos de proteção

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 16h50

SÃO PAULO - O número de casos suspeitos de coronavírus no Brasil caiu para 11, segundo boletim divulgado na tarde desta quarta-feira, 5, pelo Ministério da Saúde. No boletim de terça-feira, eram 13 infecções em investigação. De acordo com a pasta, cinco casos foram descartados nas últimas 24 horas (um em Santa Catarina e quatro em São Paulo), mas três novos registros foram notificados (um pelo Rio Grande do Sul e dois por São Paulo).

No balanço atual, portanto, quatro Estados brasileiros seguem com casos em investigação: Rio Grande do Sul (5), São Paulo (4), Santa Catarina (1) e Rio de Janeiro (1). Outros 21 registros suspeitos já foram descartados. De acordo com o ministério, a maioria dos pacientes com diagnóstico descartado apresentavam, na verdade, o vírus da gripe (influenza).

O ministério também divulgou o valor que deverá ser gasto com a compra emergencial de equipamentos de proteção para profissionais de saúde e outros agentes públicos que podem ter contato com casos suspeitos. Serão R$ 140 milhões direcionados para a compra de itens como máscaras, luvas, óculos, aventais, entre outros.

"Vamos trabalhar com um cenário intermediário (de número de casos). Esse é o valor que temos. O ministério não tem tradição de adquirir esses itens (são Estados e municípios que compram), então pode ser que tenhamos uma redução do preço por causa da escala", disse João Gabbardo dos Reis, secretário-executivo da pasta.

Ele ressaltou, no entanto, que pode haver dificuldade de comprar os itens pela possibilidade de o mercado estar desabastecido. "Se não conseguirmos no mercado nacional, podemos abrir uma licitação para adquirir no mercado internacional insumos sem registro", destacou o secretário.

Leitos de UTI

Gabbardo dos Reis detalhou ainda como será a contratação, também extraordinária, de mil leitos de UTI caso haja um surto de coronavírus no País. "O que o ministério vai propor aos Estados é que esses leitos já fiquem com o processo de licitação concluído, prontos para serem instalados e vamos colocando de acordo com a demanda pelos casos. As empresas vencedoras terão o prazo de uma semana para colocar os leitos em funcionamento", disse ele.

O secretário afirmou que os leitos serão disponiblizados nos hospitais de referência dos Estados que tiverem necessidade, conforme a eventual confirmação de casos. Nos 12 primeiros meses, os leitos serão custeados pelo ministério. Ao fim do contrato, eles serão doados para as unidades que os receberão, que passam, então, a ser responsáveis pelo custeio. "A estimativa de custo é de R$ 20 mil a R$ 30 mil por leito por mês", disse.

Na China, epicentro do surto e onde mais de 24 mil casos da doença já foram confirmados, o governo tem construído hospitais novos em poucos dias para atender as vítimas da doença. A promessa é entregar 11 hospitais temporários em 12 dias na cidade de Wuhan, local mais afetado pelo surto.

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