Base de Alckmin quer investigar ''gravações falsas''

Despesas de R$ 4,4 mi da Assembleia paulista com vídeos, reveladas pelo ''Estado'', podem ser investigadas por Promotoria

Fernando Gallo, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2011 | 00h00

Deputados de diversos partidos, inclusive da base do governo, se rebelaram na Assembleia Legislativa de São Paulo contra as supostas fraudes no pagamento de R$ 4,4 milhões que a Casa fez por gravações não realizadas para sua TV - e ameaçam ir ao Ministério Público pedir investigação.

A manifestação mais simbólica partiu do deputado Pedro Tobias, que é presidente do PSDB estadual. Em discurso no plenário, ele sugeriu que todos os seus pares que se sentiram lesados assinem o pedido de apuração que Major Olímpio (PDT) prepara para levar ao Ministério Público. Tobias sustentou que vai assinar o documento e afirmou que os deputados foram usados como laranjas, repetindo expressão já usada anteriormente por Olímpio.

"Eu não pedi e não autorizei que ninguém fizesse isso (gravações). Nunca vi deputados serem usados como laranjas. Quase toda a Assembleia foi usada como laranja. Isso precisa ser apurado com urgência", afirmou Tobias, que foi além: "E, se não quiserem assinar, temos de perguntar "não quer por quê?"".

O caso surgiu a partir de revelação pelo Estado, na quarta-feira, de que deputados denunciaram fraude nas planilhas de um contrato que custou à Assembleia R$ 4,4 milhões em 2010, por 2.350 inserções de TV. Os parlamentares alegam não ter pedido tamanho volume de inserções. A quantidade foi informada pela Fundação Padre Anchieta, que operou a TV Assembleia entre novembro de 2008 e fevereiro de 2011.

Além de Tobias, outros parlamentares foram à tribuna ou procuraram Olímpio para se juntar à cobrança por investigação. Entre eles, Simão Pedro (PT), José Cândido (PT), Edson Ferrarini (PTB) e Luis Carlos Gondim (PPS). O hoje deputado federal Carlinhos Almeida (PT), que era deputado estadual e primeiro-secretário da Casa até março, aparece com 59 gravações, mas relatou ter feito apenas dois eventos no ano. Jorge Caruso (PMDB) tem uma, que ele não pediu nem se lembra de ter feito.

Nova lista. Ontem veio a público outra lista com o número de gravações feitas por deputado - esta apresentada pelo departamento de comunicação da Assembleia. Os números não batem com os informados pela fundação. Na primeira, Gondim, que aparece como recordista, tem 70 gravações. Na segunda, 84. Ele nega ter feito as gravações. "Estamos assistindo ao milagre da multiplicação das inserções. Não tem um número que bate", afirmou Major Olímpio.

A Assembleia publicou ontem no Diário Oficial ato da Mesa Diretora que suspende o serviço de gravação dos boletins - previsto também no contrato firmado entre a Casa e a atual operadora da TV - e nomeia uma comissão de cinco funcionários para apurar o caso. Todos são ligados diretamente à Mesa, responsável pelo contrato.

"Já demonstra que não há grande interesse em apurar de verdade. Se a direção da Casa me considerasse como deputado e tivesse realmente a intenção do esclarecimento, poderia me chamar e me nomear. Eu sei todos os detalhes dos contratos", provocou Olímpio. Ele foi o responsável pelo início da investigação, quando pediu oficialmente à Secretaria de Cultura esclarecimentos sobre o caso.

Os responsáveis pela investigação interna serão um funcionário da presidência, um da 1.ª secretaria, um da 2.ª secretaria, um da secretaria-geral de administração e um da procuradoria. Os três primeiros trabalham na própria Mesa e os outros dois estão diretamente subordinados a ela.

A Mesa Diretora foi eleita por chapa única e é comandada pelos deputados Barros Munhoz (PSDB), Rui Falcão (PT) e Aldo Demarchi (DEM).

A comissão terá 30 dias para apresentar um relatório com as conclusões da investigação. "Os cinco notáveis terão 30 dias para ver os simples desencontros e as loucuras das interpretações do Major Olímpio sobre os números apresentados pela fundação e pela própria Assembleia", ironizou o próprio deputado.

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