Basta!

Há 60 anos, quando o Masp foi criado, os estatutos da instituição foram elaborados por indivíduos que, como verdadeiros mecenas, deram-lhe vida, adquirindo seu acervo e dirigindo, de maneira personalista e, até certo ponto, autoritária, o maior e mais importante museu brasileiro e do Hemisfério Sul. O poder público, por meio do comodato do terreno na Avenida Paulista e por importantes subvenções, ajudou significativamente a instituição.Hoje, não são mais aceitáveis políticas personalistas e pouco transparentes sem cobrança da sociedade civil. O poder público não dispõe de recursos para subsidiar a maioria das instituições culturais. O furto dos quadros de Picasso e de Portinari das paredes do Masp foi a gota d?água na série de problemas e omissões que afetam a instituição como resultado de sua crônica má gestão. A falta de recursos financeiros para prover o essencial - como o pagamento do sistema de alarme, de sensores, de seguro, para não falar das contas de luz, do INSS e do salário dos funcionários - é conseqüência do desgoverno encastelado no museu há mais de 12 anos. Os problemas se acumulam pela ausência de uma administração transparente, de uma política cultural clara, de um plano de trabalho, de competência e credibilidade para captação de recursos. A atuação do competente curador Teixeira Coelho - contratado recentemente, depois de pressão por parte de alguns conselheiros que conseguiram vencer a resistência da presidência - está indiretamente servindo para maquiar e disfarçar a debilidade da instituição. Chegou a hora de a sociedade civil dar um basta a esta situação de falta de credibilidade e de transparência da direção do Masp.O relatório de avaliação do museu elaborado pela empresa de auditoria Deloitte, contratada após a crise do corte de luz e depois de muitas críticas por parte de alguns membros do Conselho de Administração, deveria ter sido divulgado para conhecimento geral. Enquanto membro do conselho (até outubro de 2006) insisti, sem sucesso, que o documento em sua íntegra fosse tornado público.Mais recentemente, a Fiesp propôs coordenar um grupo de associados com a finalidade de contribuir para a recuperação do Masp, desde que os estatutos e a direção do museu fossem mudados e a verdadeira situação financeira revelada. No tocante a esta questão, as informações não são transparentes e, segundo alguns, o déficit já chegaria a mais de R$ 15 milhões. Escusado dizer que a proposta da Fiesp, propondo outro modelo de respaldo institucional, ficou sem resposta, por não servir aos interesses de autoperpetuação da atual diretoria. Como mostra o noticiário, as Secretarias da Cultura do Estado e do Município não estão satisfeitas com a gestão do Masp. O ocorrido mostra "imperfeições na administração", como observou diplomaticamente o secretário estadual João Sayad, acrescentando que "a situação é preocupante". O governo, no entanto, pouco pode fazer, por ser o museu uma associação civil de direito privado. Na nota emitida pelo Masp, menciona-se que, em 60 anos, trata-se da primeira vez que se registra um furto de obras de seu acervo. Não são mencionadas as tentativas de assalto ocorridas há poucos meses e muito menos qualquer tentativa, o que seria no mínimo imperativo diante desses fatos, de se providenciar uma adequada e tão necessária segurança. A Secretaria da Cultura do Estado, na correta percepção da defesa do patrimônio sob cuidados do Masp e buscando uma solução para a crônica inadimplência do museu, solicitou a interferência do Ministério Público. A sociedade espera que o MP, que instaurou inquérito civil em agosto passado, realize uma análise incisiva das finanças e administração do museu, tomando talvez como ponto de partida a avaliação da Deloitte.Diferentemente de 60 anos atrás, o modelo autoritário praticado no museu está superado. Embora ainda precário, nosso estágio de maturidade institucional permite alternativas nas quais a sociedade civil poderia preencher o vácuo deixado pelo desaparecimento dos mecenas que fundaram os grandes museus no pós-guerra. A governança precisa ser aperfeiçoada.A Pinacoteca do Estado se estabilizou graças a uma gestão séria, que criou uma sociedade de amigos. A proposta da Fiesp teria sido um possível modelo alternativo. O Masp, verdadeiro ícone de São Paulo, deve ser apoiado por todos - governo, artistas, empresários e público - de modo a ver sua saúde financeira e cultural recuperadas. A sociedade civil, se conscientizando dessa situação calamitosa e colocando de lado a indiferença, deveria exigir a renúncia da direção do Masp. Basta de má gestão na direção desse precioso acervo avaliado em bem mais de US$ 1 bilhão. * Rubens Barbosa foi membro do Conselho Deliberativo do Masp entre 2004 e 2006

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.