Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Beija-Flor se prepara para enfrentar boicote no desfile das campeãs

Internautas criticam escola pela conquista de título com homenagem a Guiné Equatorial, país pobre governador há 35 anos por um ditador, e pedem foliões deixem arquibancadas da Sapucaí vazias

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 19h36

RIO - Vencedora do carnaval carioca, a Beija-Flor prepara-se para enfrentar boicote organizado no Facebook contra sua apresentação no desfile das campeãs. Por causa da homenagem à Guiné Equatorial, a escola tem sido criticada por internautas, que planejam deixar o sambódromo antes da entrada da campeã, prevista para acontecer entre 3h e 4h deste domingo.

Desde o anúncio do resultado do carnaval, na quarta-feira, a Beija-Flor virou assunto dos mais comentados nas redes sociais. Usuários reclamam do enredo em homenagem à Guiné Equatorial, país de população pobre governado há 35 anos pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Patriarca de família bilionária, ele ganhou cinco eleições consecutivas com quase 100% dos votos desde que tomou o poder, em 1968.


O governo guinéu-equatoriano sustenta que não deu dinheiro à escola e que o patrocínio - R$ 4 milhões a R$ 5 milhões - veio de 30 empresas locais. O principal motivo dos ataques nas redes não é a origem do dinheiro, mas o fato de a Beija-Flor ter louvado um país antidemocrático. Logo surgiram piadas na internet sobre possíveis próximos temas da escola, como tributos ao extremista Estado Islâmico e à Coreia do Norte, ditadura asiática.

“Estamos prontos para desfilar e vamos cumprir nosso dever. Só precisamos que a pista esteja lá para isso. Se querem boicotar, problema deles. O que se pode fazer? Não cabe à Beija-Flor comentar”, disse nesta sexta-feira, 20, Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, que comanda o desfile da escola. “Não acredito que 70 mil pessoas vão embora.” 

Ele não chegou a ver os “eventos” de protesto criados no Facebook, incitando boicote e vaias. Um deles é ilustrado com uma foto de notas de dólar sujas de sangue, referência à opressão a opositores na Guiné Equatorial. 

A escola ainda não esclareceu quem patrocinou seu carnaval, cujos gastos superaram R$ 10 milhões. Laíla e o carnavalesco Fran-Sérgio Oliveira declararam ter recebido apoio de empresas brasileiras com projetos infraestruturais na Guiné Equatorial, que vive um boom de obras públicas. Parte das empresas citadas negaram o patrocínio. Outras não comentaram.

Empreiteira. O Estado publicou na edição desta quinta-feira que a empreiteira Andrade Gutierrez não financiou a Beija-Flor nem tem projetos em andamento na Guiné Equatorial. A empresa confirmou nesta sexta não ter patrocinado o desfile, mas divulgou que tem projetos em andamento, sem discriminar quais são. 

Segundo a embaixada do país no Brasil, Teodoro Nguema Obiang Mangue, vice-presidente e filho do presidente, não assistirá ao desfile das campeãs. Na segunda-feira de carnaval, ele representou o pai no camarote da Guiné Equatorial e assistiu à passagem da beija-flor. Mangue é investigado pelo Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro desde 2013. Responde a processos nos EUA e na França, onde possui mansões e carros de luxo (Ferraris e Lamborghinis). Tem US$ 700 milhões (R$ 1,9 bilhão) em apenas uma de suas nove contas bancárias nos EUA. 


No Brasil, comprou um triplex nos Jardins por R$ 42 milhões e uma cobertura na praia de Ipanema por R$ 80 milhões. De acordo com investigação do Senado norte-americano, ele e o pai são suspeitos de se apropriarem dos lucros do país com a exportação de petróleo.

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