Beira-Mar esperava ser transferido para o Espírito Santo

Durante as seis horas de viagem entre Maceió e Brasília,onde o avião da Polícia Federal parou para abastecer, o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, tinha uma preocupação e uma certeza. Ironicamente, queria saber dos agentes que o escoltavam como estava a onda de violência no Rio de Janeiro. Além disso, esperava ser transferido para o Espírito Santo. Depois de receber a notícia de que estava sendo levado para São Paulo, o então sorridente e falante Beira-Mar entrou em depressão e passou o resto da viagem calado e de cabeça baixa. "Aquilo lá é um inferno, doutor", disse Beira-Mar ao delegado Daniel Sampaio, chefe do Comando de Operações Táticas (COT), quando deixou a penitenciária de Presidente Bernardes, há 40 dias, para ser transferido para Alagoas. O traficante tinha certeza de que iria para o Espírito Santo. "Minha advogada viu esta informação em um site na internet", comentou ele com um dos policiais que o escoltava na transferência de ontem. "E tudo se confirma: a transferência estava marcada para o dia 5. Eu acho que vou mesmo para o Espírito Santo", acrescentou.Fernandinho Beira-Mar estava tranqüilo e conversou durante as seis horas de viagem até Brasília. Muitas vezes até mesmo sem receber a devida atenção dos policiais. Nos 20 minutos em que permaneceu em Brasília, não quis descer do avião, e somente após a decolagem soube do seu destino. "Vamos para Presidente Prudente", comunicou o delegado Sampaio ao piloto da PF. Beira-Mar se assustou com a notícia, que foi confirmada pelo policial. Ele tinha certeza que não voltaria para apenitenciária de segurança máxima por outro motivo: recebera a informação de que preso nenhum retornou a não ser por ter cometido falta grave, o que não considera ser o seu caso.De bermuda jeans, sandálias havaianas, camisa listrada, Beira-Mar não teve tempo de se vestir em Alagoas. Ele seguiria de helicóptero para Aracaju, mas a operação foi abortada por causa do mau tempo. Por isso, cada minuto era precioso para evitar transtorno numa viagem noturna."Posso calçar o tênis?", perguntou ele a Sampaio, recebendo resposta negativa e algemas. Até então, nem mesmo os policiais sabiam do destino de Beira-Mar. Tinham apenas a orientação para pousar em Salvador ou BomJesus da Lapa e Brasília (BA) para reabastecer.O piloto preferiu a capital baiana, onde o Caravan da PF pousou sem levantar nenhuma suspeita. Apesar de o Aeroporto Luiz Eduardo Magalhães estar lotado, ninguém desconfiou que no avião estava o traficante mais famoso doPaís. Beira-Mar ficou sentado, mas sempre puxando conversa com agentes que faziam sua escolta. Falou sobre tudo, desde o tratamento dentário a que foi submetido antes da transferência até a situação da violência no Rio, um assunto que conhecia bem, pois recebeu revistas semanais na PFde Alagoas. Mas quando chegou no destino final, só disse duas palavras:"Valeu, doutor!", se dirigindo ao delegado Sampaio, que fez todas as transferências do traficante.Veja o especial:

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