Benedita se encanta com o Palácio Laranjeiras

Dois anos depois de deixar o Morro do Chapéu Mangueira, a governadora Benedita da Silva (PT) mudou-se hoje com parte da família para o histórico e luxuoso Palácio Laranjeiras, residência oficial dos governadores do Estado. Acompanhada do marido, Antônio Pitanga, a governadora apresentou aos filhos, netos e sobrinhos os suntuosos cômodos da construção, que guardam inúmeras peças raras e obras de arte.Emocionada, ela disse que entra no palácio com a naturalidade de quem já cuidou de objetos caros quando trabalhava como empregada doméstica. "Limpei muitos tapetes, muitas peças. Trabalhei nessas casas chiquérrimas que colecionava grandes peças artísticas. Aprendi a conviver, sabia que não era meu. Por isso entro aqui com a maior naturalidade sabendo que no último dia desse governo terei que desocupar esse lugar." Ela acrescentou que jamais imaginou que "um dia seria a pessoa responsável por esse patrimônio."A única modificação já feita pela governadora - que ficará lá pelo menos até dezembro desse ano - foi no quarto do casal. Ela comprou uma cama maior. A antiga não era suficiente para o 1,78 metro de Benedita. "Para o Pitanga dava (ele mede 1,72 metro), mas para mim não", brincou a governadora, que só conhecia o palácio de festas promovidas por seu antecessor, Anthony Garotinho (PSB). Além de Pitanga, Benedita vai levar para o Laranjeiras o filho Pedro Paulo, de 38 anos, e os netos Ana Benedita, de 18, e Diego, de 11. O ator Rocco, de 21, filho de Pitanga, também terá um quarto. Todos já moravam com ela na casa de Jacarepaguá (zona oeste), para a qual a família se mudou depois de sair da favela do Chapéu Mangueira, no Leme, na zona sul. Hoje de manhã, os novos moradores e outros treze parentes foram conhecer as dependências do palácio. O clã percorreu as diversas alas distribuídas por dois pavimentos na companhia de uma guia, que passou informações sobre o estilo arquitetônico e o valor de peças como as mesas e cadeiras revestidas de ouro e as réplicas do piano que pertenceu à rainha Maria Antonieta no fim do século XVIII e do Bureau du roi, escrivaninha cujo original está no Palácio de Versalhes, na França. "Gente, cuidadinho, olha o tapete!", dizia a governadora aos parentes, para que eles tomassem cuidado com as raridades.Após a visita, Diego disse que adorou o palácio. "Pedi para morar aqui porque queria conhecer. É muito bonito", acrescentando que nada será danificado durante a estadia de sua família. Ana Benedita contou que os amigos do colégio brincam que ela deve dar uma festa para que todos pudessem conhecer sua nova casa. "Nunca imaginei que moraria num lugar assim", confessou a moça. "O que mais gostei foi o salão imperial. É lindo." Para Pitanga, a nova moradia "é como se fosse um sonho." "Esse é um momento ímpar na nossa vida. Vou viver esse novo personagem com toda a coerência. Imagina banhar-se numa banheira de Luís XV!"Benedita fez questão de frisar que "não tem o palácio como lar". E disse que vai promover suas famosas feijoadas na antiga casa do Chapéu Mangueira. A governadora quer ampliar o acesso do público ao palácio - que foi aberto à visitação há um ano. "Seremos porta-vozes do povo que não tem oportunidade de conhecer um lugar como esse", afirmou. "Mas o fato de um casal negro ter chegado até aqui não significa que acabou o preconceito. Foi muito tempo desde a lei áurea até agora." O palácio, tombado em 1983, foi construído entre 1909 e 1913, pelo arquiteto Armando Carlos da Silva Telles, o mesmo do hotel Copacabana Palace, a mando do empresário Eduardo Guinle, que o utilizou como residência. Em 1946, o palacete foi comprado pela União e destinado à moradia de presidentes da República. Recebeu, então, chefes de Estado como Harry Truman, em 1949, Charles de Gaulle, em 1965, e o papa João Paulo II, em 1980 e em 1997. Fatos históricos como a assinatura do Ato Institucional número 5 ocorreram lá.

Agencia Estado,

25 de abril de 2002 | 17h19

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