Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Bento do Portão, Menino Guga, Izildinha e outros 'santos populares' em SP

'Estado' publica terceiro capítulo da série sobre 'santos populares'. Distantes ainda de serem considerados santos pela Igreja Católica, como Irmã Dulce, eles são alvo de devoção dos fiéis

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 12h00

SOROCABA - Pessoas que, após a morte atraem a devoção popular, nem sempre encontram respaldo no clero católico para se tornarem candidatas a santas. Em São Paulo, há vários exemplos de "santos populares" que ainda não receberam um olhar da Igreja Católica. Muitos têm a própria existência envolta em lendas que dificultam a transição pelos rigorosos cânones católicos.

É o caso de Antônio Bento, o Bento do Portão, que viveu no bairro de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, entre fins do século 19 e início do século 20. Dizem que era mendigo, curandeiro e prestador de serviços eventuais, como buscar lenha e água para os moradores da época, que lhe pagavam em alimentos e cigarro de palha.

Antônio ganhou o apelido porque, quando tinha fome, sentava nos degraus dos portões das casas, esperando que lhe dessem um prato de comida. Ele morreu em 1917, próximo à entrada do cemitério de Santo Amaro. Quando houve necessidade de exumar seu corpo, ele foi encontrado intacto. Entre os supostos milagres, está o de uma mulher que, necessitando amputar as pernas, pediu a ele e ficou curada.

Antonio da Rocha Marmo, o "menino dos milagres", nasceu em 1918 no bairro do Bom Retiro, centro da capital. Desde criança, Antoninho gostava de simular a celebração de missas e abençoava as pessoas que passavam diante da janela de sua casa. Logo, a população passou a apreciar sua religiosidade. Ele ganhou fama de prever o futuro, tendo previsto a própria morte. O menino faleceu aos 12 anos de tuberculose e seu corpo está sepultado no Cemitério da Consolação. É um dos túmulos mais visitados. Mais de um século após sua morte, fiéis manifestam sua devoção ao "santinho" na página dedicada a ele em redes sociais.

Menina Izildinha

Menina Izildinha, como ficou conhecida Maria Izilda de Castro Ribeiro, morreu de leucemia, em 1911, aos 13 anos de idade, em Guimarães, Portugal. Na década de 1950, um de seus irmãos decidiu mudar-se para o Brasil e trazer o corpo da irmãzinha. Quando foi feita a exumação, o corpo continuava intacto, 40 anos após a morte da menina. O homem comprou um jazigo no Cemitério São Paulo e a comunidade portuguesa passou a visitar o túmulo.

Logo surgiram notícias de graças alcançadas por intermédio dela. Em 1958, já um empresário bem sucedido, o irmão decidiu mudar-se para Monte Alto, no interior, para abrir uma indústria, e levar o corpo da irmã. A fama da "santinha" a precedeu e a comunidade portuguesa da cidade se mobilizou para fazer um grande mausoléu na praça central.

Novos "milagres" foram relatados e o culto cresceu. Na década de 60, a menina virou objeto de disputa judicial. O irmão decidiu voltar para São Paulo e pretendia levar o corpo de volta ao antigo mausoléu. A população de Monte Alto se mobilizou e conseguiu que o corpo de Izildinha fosse incorporado ao patrimônio da cidade. O túmulo dela em São Paulo, mesmo sem o corpo, continua sendo venerado pelos fiéis.

Menino Guga

O Menino Guga, nome pelo qual João dos Santos Sobrinho ficou conhecido, morreu em 1946 aos três anos de idade. Contam as histórias que seu espírito era tão elevado que ele começou a falar com três meses e, ao seis, já estava andando. A criança previu sua morte com 15 dias de antecedência. Seu túmulo, em São Paulo, é venerado pelos que acreditam em seu poder de operar milagres.

Os devotos de Felisbina Muller atribuem a ela vários milagres, como a cura de pessoas e, principalmente, de animais de estimação. Sem registro de seu nascimento, a mulher morreu em São Paulo, em 1923. Houve várias tentativas de exumar seu corpo, mas ele permanecia sempre intacto.

Outros casos

O caso das 13 Almas Benditas remete a uma lenda do livro de São Cipriano, segundo a qual a cada sete anos, 13 espíritos de mortos em catástrofes apareceriam, ajudando as pessoas a resolverem seus problemas. No Brasil, as 13 almas seriam vítimas do incêndio do edifício Joelma, acontecido em fevereiro de 1974. Um curto-circuito teria provocado um incêndio no 12º andar e o fogo se espalhou, atingindo 20 dos 25 andares, deixando 179 mortos e 300 feridos. Muitas pessoas, em desespero, se jogaram do prédio.

Os corpos de 13 pessoas que ficaram sem identificação, por terem sido carbonizados no interior de um elevador, foram enterrados lado a lado no cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Muitas pessoas atribuem milagres a essas almas e, além de flores, depositam copos de água sobre as lápides, com o intuito de aliviar o sofrimento das vítimas do fogo. A Igreja Católica não reconhece essas pessoas como milagreiras, mas o local é palco de peregrinações e orações.

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