Osservatore Romano/AP
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Bento XVI nega ser coautor de livro que defende celibato de padres

Segundo secretário pessoal, papa emérito sabia da obra, mas não autorizou que fosse colocado como um dos autores

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 07h45

CIDADE DO VATICANO - O papa emérito Bento XVI pediu a retirada de sua assinatura de um livro do cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, que define o celibato como "indispensável" para a Igreja Católica.

O livro se chama Des profondeurs de nos coeurs (Das profundezas de nossos corações, em tradução livre) e exibe na capa as fotos e os nomes de Bento XVI e Sarah. Alguns trechos divulgados antecipadamente foram interpretados como uma pressão para o papa Francisco não autorizar a ordenação de homens casados na Amazônia.

Em declaração à agência de notícias italiana Ansa nesta terça-feira, 14, o secretário pessoal de Joseph Ratzinger, monsenhor Georg Gänswein, disse que o papa emérito sabia do livro, mas não que ele seria incluído como coautor.

"O papa emérito sabia que o cardeal preparava um livro e tinha enviado um texto seu sobre o sacerdócio, autorizando-o a fazer o uso que quisesse. Mas não tinha aprovado qualquer projeto para um livro com dois autores nem autorizado a capa", afirmou Gänswein, que classificou o episódio como um "mal-entendido". "Posso confirmar que, nesta manhã, sob indicação do papa emérito, pedi para o cardeal Robert Sarah contatar os editores do livro e pedir-lhes para tirar o nome de Bento XVI como coautor e sua assinatura da introdução e das conclusões", contou o monsenhor.

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(Bento XVI) não tinha aprovado qualquer projeto para um livro com dois autores nem autorizado a capa
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monsenhor Georg Gänswein, secretário pessoal de Joseph Ratzinger

Horas antes, Sarah havia feito uma reconstrução diferente e dito que Ratzinger sabia que o projeto "tomaria a forma de um livro" e que eles chegaram a "trocar rascunhos" para "fazer correções".

De acordo com o cardeal, o texto enviado por Bento XVI era "muito longo para ser um artigo". 

"Então, propus imediatamente ao papa emérito o lançamento de um livro", disse Sarah.

Segundo ele, Ratzinger afirmou, explicitamente: "Da minha parte, estou de acordo que o texto seja publicado da forma que você quer".

Após o pronunciamento de Gänswein, o cardeal declarou que a nova assinatura do livro será "Cardeal Sarah com a contribuição de Bento XVI", mas que o texto não será alterado.

A polêmica

Algumas passagens do livro atribuídas a Ratzinger dizem que a "impossibilidade de uma ligação matrimonial" nasce da "celebração cotidiana da eucaristia, o que implica um serviço permanente a Deus", e que "não é possível" conciliar o casamento com a "vocação sacerdotal".

A divulgação dos trechos repercutiu na Igreja Católica, já que Francisco trabalha atualmente em uma exortação apostólica sobre as propostas do Sínodo da Amazônia.

O relatório final da reunião episcopal, realizada em outubro, sugere que homens casados, com liderança reconhecida pela comunidade e preferivelmente indígenas, sejam ordenados na Amazônia para administrar os sacramentos.

A ideia seria uma forma de combater a escassez de padres na floresta, o que abre espaço para o avanço de igrejas neopentecostais e impede que fiéis recebam a comunhão com regularidade. /ANSA

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