Bernardo ataca idéia de Nakano, mas admite necessidade de cortes

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, atacou a proposta do economista Yoshiaki Nakano de reduzir os gastos do governo no equivalente a 3 pontos percentuais do PIB, embora ele mesmo defendesse, antes do período eleitoral, a redução das despesas governamentais. Bernardo acreditava ser possível chegar ao déficit nominal zero - quando as receitas empatam com as despesas, incluídos os juros. E hoje o déficit nominal do governo federal supera os 3% do PIB.Nakano é o principal assessor econômico do candidato Geraldo Alckmin, do PSDB, que tem se queixado de ?terrorismo eleitoral?. Para Alckmin, o presidente Lula e seus ministros têm se especializado em espalhar boatos. Nakano é cotado para o Ministério da Fazenda num eventual governo Alckmin.Bernardo afirmou na noite desta quarta-feira, em Curitiba, que o corte proposto por Nakano obrigaria o governo a acabar com o Ministério da Saúde, o da Educação e, provavelmente, com o do Desenvolvimento Social. ?Acabar e não fazer mais nada nessas áreas?, acentuou. ?Acho difícil que ele tenha falado nesses termos e, se falou, não leu o Orçamento.? Bernardo esteve em Curitiba a convite de empresários para discutir reivindicações do setor. Mas comunicado à imprensa sobre a visita foi distribuído pelo comitê de campanha pela reeleição do presidente Lula.O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca, foi na mesma linha. ?Pelo que eu entendi, o próprio Nakano e outros dizem que querem cortar (gastos) para aumentar investimentos, então o que sobra são (os cortes) de gastos sociais?, disse.Ocorre que, por caminhos diferentes, a equipe econômica de Lula tem formulação próxima da de Nakano. Antes do período eleitoral, Bernardo e o ministro Guido Mantega vinham dizendo que seu projeto para o segundo mandato era cortar os gastos do governo gradativamente, em degraus de 0,1 ponto porcentual do PIB, e manter a economia para pagamento de juros - o superávit primário, hoje com meta de 4,25% do PIB. Assim, o governo chegaria ao ponto em que sua arrecadação seria suficiente para cobrir a totalidade de suas despesas - o chamado déficit nominal zero.Detalhe: este ano, o déficit nominal do governo central alcançou 3,18% do PIB, de janeiro a agosto. Isso quer dizer que para chegar ao ponto desejado pelos ministros, será necessário cortar gastos em valor próximo dos 3% do PIB de Nakano. Antes, Bernardo previa atingir esse patamar até 2009 ou 2010.Alvo preferencialNakano virou alvo dos aliados de Lula desde segunda-feira, quando defendeu, em entrevista à agência de notícias Reuters, a redução dos gastos governamentais em volume equivalente a 3% do PIB. ?Com um corte grande e rápido, você pode fazer uma diferença significativa. Prefiro que isso seja feito no primeiro ano (de governo)?, disse.O coordenador da campanha pela reeleição do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, soltou nota para afirmar que os tucanos querem levar o País à recessão e que um corte de despesas do tamanho desejado por Nakano levaria à redução dos benefícios a idosos, interromperia a diminuição das desigualdades e causaria queda da renda da população. Mantega considerou impossível esse corte sem acabar com os programas sociais.Em seminário no Rio, o economista voltou a fazer declaração que gerou polêmica. Propôs que o governo adote, em casos especiais, instrumentos de controle de capitais - a tributação da entrada de investimentos do exterior, por exemplo.Diante de novas críticas, para evitar a exploração eleitoral das declarações de Nakano, o candidato Geraldo Alckmin tratou de desautorizá-lo anteontem mesmo. ?Pelo meu (eventual) governo, só falo eu?, afirmou o candidato tucano.Na realidade, a receita do choque de gestão de Nakano é baseada em trabalho persistente de cortar custos e evitar desperdícios na máquina pública. Quando foi secretário da Fazenda de Mário Covas, o economista reduziu o déficit orçamentário (excesso da despesa sobre a receita total, incluindo operações de crédito) de 21,7% da arrecadação, em 1994, para 2,8%, em 1995, e obteve pequenos superávits nos anos subseqüentes.Para isso, Nakano renegociou contratos, conseguiu fazer compras por preços menores, usando intensivamente o chamado pregão eletrônico, barateou obras e adotou licitações detalhadas que encolheram o valor dos bens adquiridos.Em grande medida, é o ambiente eleitoral o maior responsável pela aparente resistência às suas propostas. A acolhida foi diferente para idéia semelhante vinda do deputado Delfim Netto (PMDB-SP), que defendeu déficit nominal zero.A idéia de Delfim foi seriamente discutida no governo em 2005 e conquistou a simpatia do então ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Só não foi adiante pelo bombardeio da ministra Dilma Rousseff, que a classificou de ?rudimentar?.

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