Bienal termina, mas pichadora de andar vazio segue na cadeia

Colega foi liberado 7 dias após ataque; se condenada, jovem deve pegar de 1 mês a 2 anos de detenção

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2008 | 00h00

A 28ª Bienal de São Paulo chega ao fim amanhã e deixa duas polêmicas: o proposital espaço vazio no segundo andar e a prisão por 40 dias de Caroline Pivetta da Mota, de 23 anos, por pichar as paredes desse pavimento. Estudante do ensino médio e artesã, ela foi a única integrante de um grupo formado por cerca de 40 pessoas que pichou o segundo piso, no dia da abertura da exposição.Após ser detida pelos seguranças, a garota foi levada ao 36º Distrito Policial (Paraíso) e três dias depois foi presa na Penitenciária Feminina Sant?Ana, no Carandiru. Ré primária, divide a cela com uma detenta.Seu companheiro de grupo, o taxista Rafael Martins, de 27 anos, foi preso, mas liberado após sete dias. Os dois podem responder processo por destruição de prédio público, com pena de um mês a dois anos de prisão. A acusação pode agravar porque o prédio é tombado.De acordo com Cristiane Carvalho, advogada de Caroline, a jovem continua presa por falta de comprovante de residência. A advogada já apresentou o documento há duas semanas e pediu reconsideração. Caroline mora em Diadema, onde divide uma casa com um amigo. "Não houve invasão nem depredação, mas manifestação política, pois eles pregam a contracultura, de que o artista de periferia não tem oportunidades para expor", disse Cristiane. A mãe, que soube da prisão pela imprensa, veio do Rio Grande do Sul e deve visitá-la hoje. REPERCUSSÃOO curador da 28ª Bienal, Ivo Mesquita, argumentou que a garota foi detida por vandalizar um prédio tombado . "Uma coisa é a pichação como parte da cultura urbana. No entanto, o histórico desse grupo mostra uma atitude contrária à ética dos demais. No Centro Universitário Belas Artes e na Galeria Choque Cultural, eles picharam trabalhos. No túnel da Avenida Paulista, eles picharam um mural grafitado. Isso é censura porque é o apagamento do trabalho do outro", disse. O líder do grupo, Rafael Augustaitiz, de 24 anos, o Pixobomb, disse que "as instituições têm oprimido a imaginação e desonrado o intelecto, degradando as artes". Essa foi a terceira invasão no ano do grupo PiXação: Arte Ataque Protesto. Para o artista plástico José Roberto Aguilar, a Bienal deveria retirar a acusação contra a garota. "Achei uma hipocrisia porque o segundo andar era um convite à contravenção. É como se estivesse escrito em letras garrafais ?me invada?". Ele vê a pichação como manifestação válida. "Se a invasão fosse no Museu de Artes de São Paulo (Masp) seria um crime. Foi uma reação à falta de conteúdo."Pichadores e grafiteiros ouvidos pelo Estado foram unânimes: consideram absurda a prisão. "É um exagero, pois apesar de ela ter feito interferência no patrimônio, trata-se de uma pena pesada", afirmou o grafiteiro Oswaldo Júnior, o Juneca - que já foi pichador.

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