Bispos conservadores reagem à abertura da Igreja em relação a gays

Religiosos expuseram descontentamento com primeira versão de relatório do sínodo, que propôs avanços em temas polêmicos

O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2014 | 14h19

Atualizado às 21h29

VATICANO - Preocupados com uma abertura sem precedentes da Igreja em relação aos homossexuais e às pessoas divorciadas, bispos católicos conservadores reagiram nesta terça-feira, 14, durante os debates do Sínodo da Família, no Vaticano. O encontro, que começou há uma semana, reúne 200 bispos e atende ao pedido feito pelo papa Francisco de discutir abertamente assuntos controversos para a Igreja.

Um dia depois da divulgação de documento que sinaliza que a Igreja pretende “garantir um espaço de fraternidade em sua comunidade” aos gays e rever o veto à comunhão para os divorciados, alguns bispos propuseram reflexões adicionais “para reunir vários pontos de vista”, que devem estar em um relatório final que será concluído no sábado. Eles enfatizaram os benefícios dos fiéis católicos, os fundamentos da doutrina da Igreja e os perigos do pecado.

Isso foi visto como uma indicação da preocupação e consternação expressas por bispos conservadores e membros da Igreja Católica em relação ao documento original de segunda-feira. Há a preocupação de que o seu tom de boas-vindas quase revolucionárias possa confundir os cristãos sobre a doutrina original da Igreja.

No documento, o Vaticano disse que gays têm dons a oferecer à Igreja e que os relacionamentos, mesmo que moralmente problemáticos, fornecem um precioso suporte a casais homossexuais. Foi dito que a Igreja deve acolher divorciados e reconhecer os aspectos positivos dos casamentos civis. As reflexões foram elogiadas por grupos que lutam pelos direitos dos gays, que as classificaram como uma mudança no tom para a aceitação de homossexuais.

Linha-dura. Diversos bispos conversadores que participaram do Sínodo imediatamente se colocaram contra o relatório. O líder da Conferência de Bispos Poloneses, cardeal Stanislaw Gadecki, classificou como “inaceitável” e um desvio dos ensinamentos da Igreja.

O cardeal americano linha-dura Raymond Burke, responsável pela Suprema Corte do Vaticano, reclamou que estavam sendo divulgadas informações “manipuladas” sobre o Sínodo, que não refletiam o “consistente número de bispos” que se opõem a tal tom. 

De acordo com o resumo do debate, bispos sugeriram que a versão final do relatório destaque que os católicos devem evitar situações de “imperfeições familiares”. Sobre gays, foi dito que prudência é necessária para que não se crie a impressão de uma avaliação positiva de tal tendência por parte da Igreja.

Polêmica. Os bispos destacaram que a palavra “pecado” mal aparecia no documento e que a versão final deve explicar melhor a “lei da gradualidade”, um conceito teológico que encoraja a fé de avançar um passo por vez em busca da santidade.

Por fim, o resumo apontou que alguns bispos acreditam fortemente que não há espaço para mudança na polêmica de católicos que se divorciam e voltam a se casar sem conseguir uma anulação podem comungar.

No entendimento atual, a Igreja entende que, sem a anulação, esses católicos estão vivendo em pecado e portanto não devem receber os sacramentos. No resumo desta terça-feira, o Vaticano se posicionou dizendo que “foi dito que é difícil aceitar exceções a não ser que na realidade elas se transformem na regra comum”. / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.