Bispos da Renascer são levados para cadeia de imigrantes

Os fundadores da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sonia Hernandes, saíram nesta quarta-feira, 17, do Federal Detention Center (FDC) - prisão em Miami onde, durante nove dias, dividiram celas com detentos federais - e foram transferidos para o Krome Detention Center, cadeia destinada aos imigrantes. Com a mudança, o casal conseguiu ir para um lugar com regras menos rígidas, mas perderam na qualidade das instalações e alimentação. Conforme definição usada por um agente do FBI destacado para o caso, eles trocaram "um hotel quatro estrelas por outro bem pior, de duas estrelas". A defesa do casal tentava a transferência desde a semana passada. Na tarde desta quarta, o advogado dos Hernandes no Brasil, Luiz Flávio Borges D?Urso, definiu a nova situação de seus clientes como "semiliberdade". "Agora, eles estão só sob responsabilidade da Polícia de Imigração", afirmou.Ocupado em sua maioria por imigrantes que tentaram entrar nos Estados Unidos ilegalmente e com celas mais apinhadas de gente, o novo endereço dos Hernandes não altera sua situação processual. Eles continuam sob custódia porque terão uma audiência judicial em 24 de janeiro. Até lá, não podem ser liberados. Estevam e Sonia foram presos ao tentar entrar na Flórida com US$ 56,5 mil e ter declarado apenas US$ 10 mil às autoridades alfandegárias.O argumento usado pelo advogado Maurício Azdazabal - representante dos líderes da Renascer nos Estados Unidos - é que eles já haviam quitado US$ 5 mil correspondentes ao sinal do valor da fiança para o crime de lavagem de dinheiro, mas continuavam presos apenas por conta da acusação de falsificação de documento público, um crime inafiançável. Como estavam detidos apenas por um crime apurado pela Polícia de Imigração, teriam direito de sair da penitenciária federal.ExtradiçãoO Ministério da Justiça recebeu nesta quarta o pedido de extradição dos Hernandes, enviado pela 1 ª Vara Criminal de São Paulo. Pela tramitação definida na lei, cabe agora ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, solicitar a extradição ao Ministério das Relações Exteriores - que deverá remetê-lo, em nome do governo brasileiro, às autoridades americanas.A defesa do casal entrou com pedido de habeas-corpus no Tribunal de Justiça de São Paulo contra o pedido de extradição. Se ela for mantida, os Hernandes voltarão ao Brasil após resolver suas pendências com a Justiça americana e serão presos, por conta de uma ordem de prisão decretada pela 1 ª Vara Criminal.Bens bloqueadosO Departamento de Justiça da Flórida deve definir nos próximos dias o seqüestro dos bens registrados em Miami em nome de Estevam e Sônia Hernandes, fundadores da Igreja Renascer em Cristo. A medida já havia sido determinada há quatro meses pelo juiz Antônio Paulo Rossi, titular da 1ª Vara Criminal de São Paulo, mas ainda não foi colocada em prática por conta de entraves burocráticos nos Estados Unidos.O Estado apurou que, na última semana, promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) forneceram as informações que faltavam aos policiais do FBI que acompanham o caso na Flórida - e a documentação já foi encaminhada ao Departamento de Justiça.Levantamento feito pela promotoria de Miami mostra que o rol dos bens dos Hernandes inclui quatro casas, uma mansão em Boca Raton comprada com financiamento feito no Washington Mutual Bank e avaliada em US$ 465 mil, títulos do Resort Las Palmas - condomínio com clubes e chalés em Avon Park - e pelo menos 14 automóveis, entre eles um Land Rover, um Mercedes-Benz, um Cadillac e uma van. O casal tem ainda uma conta bancária em Miami - que também será bloqueada.O seqüestro dos bens dos Hernandes na Flórida é uma determinação do processo que apura no Brasil os crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e estelionato contra fiéis. Mas está em curso no Estados Unidos com a ajuda da equipe do FBI que acompanha o caso e chegou a monitorar Sônia Hernandes no período em que ela esteve foragida do Brasil por conta da decretação de sua prisão preventiva. Disfarçados, os agentes chegaram a abordá-la em sua casa, em Boca Raton.No Brasil, o bloqueio judicial do bens dos Hernandes chegou a dez empresas, oito contas bancárias por onde teriam passado R$ 46 milhões e do Haras Agropastoril Reobot, em Atibaia, registrado em nome da filha dos Hernandes, Fernanda.Alvo de uma operação de busca e apreensão feita por promotores do Gaeco, o haras pode agora ser alvo de intervenção. O juiz Antônio Paulo Rossi pediu os registros contábeis da propriedade ao seu administrador, José Hernandes, irmão de Estevam Hernandes. Se não apresentar a documentação, ele será afastado da administração e um interventor com plenos poderes será nomeado.Cismas na RenascerAs acusações contra o casal Hernandes já provocam cismas dentro da Igreja Renascer. Também denunciados no processo que tramita na 1 ª Vara Criminal, os empresários Ricardo e Leonardo Abbud prestaram depoimento responsabilizando Estevam Hernandes pelos ´golpes´ dados no mercado por meio de empresas abertas por eles.Os Abbud afirmaram que Estevam os convenceu a usar suas empresas alegando que iria procurar cartórios de registros para transferi-las para seu nome - mas não o fez. Também disseram que não sabiam que as empresas poderiam estar sendo usadas para fins ilícitos.Ricardo Abbud é executivo de uma construtora e coordenou grupos de orações para empresários na Renascer. Leonardo também é ligado à Igreja. Ambos são irmãos de Antonio Carlos Ayres Abbud, bispo primaz da denominação, fundador da empresa RGC - aberta para tentar comprar a extinta TV Manchete -, e dono da Abbud Comunicação, acusada de usar o mesmo CNPJ da Fundação Renascer para conseguir financiamentos nunca pagos.Desde que seus problemas judiciais vieram à tona, o bispo Abbud deixou de ser visto nos eventos públicos da Igreja - e não esteve nem mesmo na gravação de Natal da TV Gospel. A família foi representada por sua esposa, Rosana AbbudMatéria alterada às 20h54 para acréscimo de informações

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