Black Bloc no Rio teria participação de políticos e professores, dizem investigadores

'Cabeças pensantes' seriam responsáveis por arregimentar pessoas para cometer atos de vandalismo

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2013 | 10h43

RIO - Investigações da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) da Polícia Civil do Rio sobre o Black Bloc  indicam que o grupo teria participação de políticos e professores. Segundo os investigadores, eles seriam as "cabeças pensantes" do Black Bloc no Rio: não entram em confrontos com a polícia e nem praticam vandalismo em protestos, mas seriam os responsáveis por arregimentar pessoas para cometer esses atos. Os policiais chegaram até o suspeitos após a Justiça autorizar a quebra do sigilo dos IPs dos computadores (código de identificação) e de contas de e-mails. Até o momento, 21 pessoas ligadas ao movimento já foram identificadas.

Três adultos e dois adolescentes acusados de administrar a página "Black Bloc RJ" numa rede social foram presos e indiciados ontem de manhã pela polícia pelos crimes de incitação à violência e formação de quadrilha armada. Os detidos teriam confessado serem os "CDC" (criadores de conteúdo) do perfil. As investigações tiveram início em julho, quando a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) instaurou inquérito para apurar os as mensagens que incentivam a violência em manifestações na página do Black Bloc.

A chefe de Polícia Civil, Martha Rocha, disse ontem que no dia 6 de julho foi publicado na página "Black Bloc RJ" um passo a passo de como fabricar um artefato de ação perfurante com pregos em suas múltiplas pontas, conhecido como "jacaré" ou "ouriço". Segundo a delegada, a mensagem pedia que cada seguidor da página produzisse dez instrumentos para serem levados aos protestos. A reportagem do Estado não encontrou o post ontem no perfil "Black Bloc RJ", mas os policiais mostraram aos jornalistas uma folha de papel com a mensagem impressa. De acordo com policiais, o "jacaré" é comumente utilizado por ladrões de carga: ao terem seus pneus furados, os caminhões são obrigados a parar, o que facilita a ação dos criminosos.

A Justiça expediu na terça-feira, 3, mandados de busca e apreensão nas residências de seis acusados, que foram cumpridos quarta pela manhã. Nestes locais, os policiais encontraram um "jacaré", uma faca, máscaras de gás e do filme V de Vingança (muito usada em manifestações), luvas, bonés e outras vestimentas pretas (usadas por Black Bloc), além de computadores e celulares.

"O artefato tem pregos, e quando jogado pode ferir manifestantes, policiais e jornalistas. Quando analisamos a página, há um comando para que cada integrante do grupo produza dez desses instrumentos, que podem ser usados em ações criminosas como em roubos de carga. A Polícia Civil entende que os cinco integram uma quadrilha armada, que é crime inafiançável. Por isso eles foram presos em flagrante e o caso será encaminhado à Justiça", afirmou Martha Rocha.

Daniel Guimarães Ferreira, de 21 anos, foi preso em casa, no Cachambi, zona norte do Rio. Ele também foi autuado por corrupção de menores, já que seu irmão também faria parte do grupo. Outro maior, identificado apenas como Jeahn, de 18 anos, também foi indiciado por pedofilia, pois segundo os policiais foram encontradas imagens de pornografia infantil em seu computador. Ele foi preso no município de Maricá. O terceiro maior, detido em São Gonçalo, na Região Metropolitana, foi identificado como Henrique Palavra Viana. Os três foram levados no fim da tarde de ontem para uma cadeia em São Gonçalo.

Mesmo indiciados, os dois menores foram liberados da DRCI após seus responsáveis se comprometerem a apresentá-los em juízo. Nenhum dos presos tinha antecedentes criminais. O advogado Gustavo Proença, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, refutou as acusações. "Com exceção dos dois irmãos, nenhum dos outros se conhecia. Jamais poderiam ser acusados de formação de quadrilha".

Os policiais chegaram a cumprir um mandado de busca em Itaipu, no município de Niterói, na casa de uma mulher também suspeita de administrar a página "Black Bloc RJ". A mulher não foi encontrada, já que estaria passando férias na Bolívia. O namorado dela, porém, estava no local e foi detido porque com ele foi encontrada pequena quantidade de maconha. O rapaz foi liberado após depor na DRCI.

Após a prisão de alguns de seus administradores, foi publicada na página "Black Bloc RJ" convocação para um protesto no próximo sábado, feriado de Sete de Setembro, no Centro do Rio. "É importante que todos compareçam, principalmente em apoio aos nossos companheiros administradores que foram presos recentemente. Nosso movimento não vai se intimidar com essas tentativas de desarticulação, estamos mais fortes do que nunca! PS: Só lembrando a todos para não irem de preto, deixem para se vestir no local", dizia a mensagem.

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