Blecaute ajuda em lentidão recorde

Às 9h30, havia 155 km de congestionamento; 7 corredores foram os mais afetados por semáforos apagados

Camilla Rigi, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2008 | 00h00

Pela quarta vez em uma semana, o índice de congestionamento bateu recorde em São Paulo, no período da manhã. Às 9h30 de ontem, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou 155 quilômetros de vias com lentidão. Já não bastasse o grande número de veículos nas ruas, cerca de 4 milhões, a falta de energia na zona sul prejudicou ainda mais o trânsito.Os semáforos de sete corredores ficaram desligados e a CET teve de colocar várias equipes nas ruas para coordenar o trânsito. As avenidas mais afetadas foram Juscelino Kubitschek, Brigadeiro Faria Lima, Rebouças, Henrique Schaumann, Morumbi, Chucri Zaidan, República do Líbano, Antônio João de Moura, Santo Amaro, Ibirapuera e Luís Carlos Berrini. O apagão não chegou a durar uma hora, mas o caos já estava formado. Às 12h30, a situação começou a melhorar, mas o índice de 103 quilômetros de lentidão ainda era alto para o horário.Quem trabalha na Berrini normalmente já enfrenta problemas no trânsito, pela manhã. Ontem, com os semáforos apagados, os motoristas demoraram mais que o dobro do tempo. "Quando chegava nos cruzamentos, era um Deus nos acuda. Ninguém sabia quem deveria passar", diz a vendedora Adriana Campos, de 37 anos, funcionária de uma concessionária de automóveis. Normalmente, ela demora 50 minutos para ir de casa, na Vila Mariana, até o trabalho, no Brooklin Paulista. Ontem, demorou uma hora e 40 minutos. "Peguei bem o pior do apagão. Saí de casa às 7h30 e estava na Avenida Roberto Marinho quando apagou tudo", diz. "Não tinha nenhum fiscal na rua. Ninguém sabia o que fazer. Os ônibus passavam reto", diz. "Cheguei atrasada ao trabalho. Sorte que faltou luz até para a máquina de bater o cartão de ponto. E o chefe atrasou."Os motoristas de uma oficina mecânica também na Berrini exercitaram o "jeitinho" para conseguir percorrer os cruzamentos da avenida. "Nessa hora é com jeitinho, tem de olhar na cara do outro motorista e dar um farolzinho, uma buzininha, só assim pra saber quem é que segue", diz o motorista Carlos Alberto Soares, de 45 anos, que teve de sair duas vezes ontem pela manhã, enfrentando os cruzamentos apagados. "É um pânico."Quem escapou dos problemas na área, mas teve de seguir pelas Marginais, encontrou mais problemas. Houve um acidente na pista expressa da Marginal do Tietê, na altura da Ponte da Casa Verde, no sentido Ayrton Senna, envolvendo dois caminhões e um carro. Para socorrer duas vítimas que ficaram presas nas ferragens, um helicóptero da Polícia Militar teve de pousar na pista - o que causou a interdição de três faixas.SOLUÇÕESSegundo levantamento do Movimento Nossa São Paulo, o paulistano perde por ano 18 dias para se deslocar pela cidade. "Não é só perda de tempo. A cidade perde competitividade econômica. Não dá para marcar reuniões em locais diferentes no mesmo dia porque pode ser que não se chegue ao segundo local", afirma o economista e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, Marcos Cintra."O problema do trânsito é uma situação de emergência. Se continuarmos do jeito que estamos, em cinco anos teremos colapso total. Será como um filme: as pessoas vão ter de deixar os carros nas ruas e seguir a pé", diz Cintra. Para ele, a solução imediata para São Paulo é a redistribuição dos veículos nas ruas menos utilizadas. "Quem sobrevoa a cidade vê que 80% das vias são ociosas. O nosso modelo direciona o trânsito para as vias arteriais, que ficam sobrecarregadas."Cintra faz uma comparação com a ilha de Manhattan, em Nova York. "Lá a densidade de veículos é muito maior, mas eles fluem por todas as vias. Por isso o congestionamento é menor. É o que precisa ser feito por aqui, enquanto as soluções de longo prazo, como a melhoria dos transportes públicos, não chegam."Nas ruas, o aumento da lentidão nas últimas semanas vem sendo medido pelos paulistanos. Igor Longo, por exemplo, costumava demorar 20 minutos para percorrer um trecho da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na zona sul, por volta das 18 horas, até o fim do ano passado. Agora, garante levar 45 minutos. Já Isabel Marques, que atravessa metade da Avenida Pompéia, por volta das 19 horas, costumava gastar de 15 a 20 minutos num percurso que agora faz em meia hora.O especialista em planejamento de transporte e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Jaime Waisman não vê a Prefeitura empenhada em fazer ações no curto prazo. "Melhora não vai ter, porque não está sendo feito nada que propicie uma mudança e a economia está aquecida. Há mais gente trabalhando, mais gente se deslocando, mais negócios acontecendo. E a indústria automobilística bate recordes sucessivos."MULTASSegundo dados da CET, os investimentos aumentaram nos últimos anos. Em 2005, a receita da companhia foi de R$ 409,8 milhões, dos quais R$ 377,4 milhões foram arrecadados com multas. No ano passado, a receita subiu para R$ 450,5 milhões, sendo R$ 391,8 milhões de aplicação de penalidades por infrações de trânsito. "A lei define que o que foi arrecadado com multa deve ser investido na gestão do trânsito. É o que está sendo feito. Aliás, estamos gastando mais", disse o prefeito Gilberto Kassab . A previsão para este ano é de que R$ 557 milhões sejam arrecadados com autuações. Até a última sexta-feira, R$ 48.525.287,04 já haviam sido recolhidos aos cofres públicos. COLABORARAM VITOR HUGO BRANDALISE e NAIANA OSCARFRASEMarcos CintraEconomista e vice-presidente da FGV?Se continuarmos do jeito que estamos, em cinco anos teremos uma colapso total. Será como um filme, as pessoas vão ter que deixar seus carros nas ruas e seguir a pé?

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