SILVIO AVILA / AFP
SILVIO AVILA / AFP

Boate Kiss: réus são ouvidos e julgamento da tragédia entra na reta final

Os quatro réus já prestaram depoimento, etapa que foi encerrada nesta quinta-feira, 9, em Porto Alegre. Declarações remontaram o dia do incêndio e foram marcadas por evasivas sobre responsabilidade

Eduardo Amaral, especial para o Estadão

09 de dezembro de 2021 | 14h58
Atualizado 09 de dezembro de 2021 | 17h20

PORTO ALEGRE - O julgamento da tragédia na Boate Kiss encerrou a última fase de depoimentos. Os quatro réus acusados pelo incêndio que deixou 242 pessoas mortas em 2013 já foram ouvidos. O último acusado terminou de falar na tarde desta quinta-feira, 9. Os depoimentos têm sido marcados pela descrição das circunstâncias do incêndio e por comportamentos evasivos quanto à responsabilidade pelo incêndio.

O julgamento teve início no dia 1º de dezembro com a expectativa de se estender por duas semanas. Agora haverá a exposição de argumentos por parte da acusação, sob responsabilidade do Ministério Público, e a fala dos advogados de defesa, o que pode se estender ao longo desta sexta-feira. Depois dessa etapa, é esperada a votação dos jurados, que irão decidir pela condenação ou absolvição dos acusados. O processo não tem prazo para ser encerrado e pode seguir durante o fim de semana.

São acusados o músico da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, o produtor musical Luciano Augusto Bonilha Leão e os sócios da boate Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Lodeiro Hoffmann. Spohr e Leão falaram primeiro. Hoffmann falou nesta tarde e foi seguido por Santos.

Em seu depoimento, Spohr negou que tenha autorizado a banda Gurizada Fandangueira a utilizar artefatos pirotécnicos dentro da boate e também negou as acusações de superlotação do espaço, afirmando que havia um controle onde eram permitidas no máximo 800 pessoas.

A questão da colocação da espuma anti-som, apontada como o principal fator de propagação das chamas, também apareceu no depoimento.

De acordo com ele, a estrutura foi colocada após diversas tentativas de minimizar o som que perturbava uma vizinha da boate. "Tentei de tudo para resolver. Ofereci pagar o aluguel de um apartamento para ela e eu usaria aquele de estoque, só para não haver mais esse incômodo", afirmou o ex-proprietário da Kiss.

Sem sucesso, ele compareceu ao Ministério Público, prometendo resolver o problema. Foi então que ele encaminhou a obra, orçada em R$230 mil, dos quais R$60 mil foram apenas para mão de obra. Ele afirmou que conseguiu resolver os problemas com uma vizinha, mas começou a ter problema com outra. Kiko disse que foi orientado por um engenheiro a fazer um tratamento acústico na casa, o que incluía a colocação de espuma.

No momento do incêndio, ele se encontrava do lado de fora da Kiss, resolvendo um tumulto com um cliente. "Conversei um pouco com ele e o levei até a rua. Quando eu virei, o Fabiano veio correndo e disse: 'Deu alguma coisa no palco'. Só vi a correria das pessoas. Abri as portas e gritava: 'sai, sai, sai'."

Kiko respondeu apenas os questionamentos do juiz Orlando Faccini Neto. Faccini questionou se ele havia comunicado os integrantes da banda que havia espuma no teto. "Não cheguei a ter essa conversa com eles. Eu acredito que eles realmente acreditavam que esse treco não pegava fogo."

Emocionado e aos prantos, ele afirmou: "Perdi amigos, funcionários. Por que eu ia fazer isso? Querem me prender, me prendam. Eu não aguento mais!"

'Se for para tirar a dor dos pais, tô pronto, me condenem'

Na manhã desta quinta-feira foi a vez de Luciano Bonilha iniciar os depoimentos. Ele era o responsável por comprar o artefato pirotécnico utilizado pela banda. Emocionado desde o primeiro dia, quando entrou no Foro Central de Porto gritando "Eu não sou assassino!", Bonilha prestou um depoimento marcado por vários momentos de choro.

Ele confirmou que era o responsável pela compra dos artefatos, um pedido que partia de Danilo, líder da banda que foi uma das 242 vítimas fatais do incêndio. "Foram colocados dois (fogos de artifício), um em cada ponta do palco, e um terceiro era dado para o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos”, explicou Bonilha sobre como foi o procedimento de montagem dos artefatos e afirmando que foi ele que entregou o mesmo ao vocalista da Marcelo dos Santos.

Bonilha ainda contou no depoimento que tentou apagar o fogo com água e que viu Marcelo e outra pessoa tentando usar o extintor de incêndio, ambos sem sucesso. "Não tinha lacre e parecia vazio”. Bonilha ainda falou que o espaço na boate era "muito apertado".

Ele também confirmou que o uso de artefatos era uma constante nos shows da banda, inclusive na Kiss. "Na Boate foram de 3 a 4 shows. No palco novo, foram duas vezes usando artefatos pirotécnicos, se não me engano”.

Bonilha se dirigiu aos familiares das vítimas que acompanham o julgamento. “Eu sei que o coração dos pais não entende a minha dor. Se eu tivesse morrido lá, hoje aqui sentado, tenho a maior joia da minha vida, minha mãe. Ela está ali sentada com eles. Esses pais não têm mais o abraço, o carinho dos filhos. É legítimo deles lutar por justiça. Mas eu tenho a consciência de que não foi o meu ato que tirou a vida desses jovens. Se for para tirar a dor dos pais, tô pronto, me condenem”. 

Mauro Hoffman foi o terceiro réu a depor. Nas respostas, ele buscou se eximir de qualquer responsabilidade administrativa, afirmando que nunca passou de um investidor do negócio. “Não me sentia dono, eu era sócio”, afirmou.

Durante o depoimento ele ainda disse que exigiu de Spohr que a documentação da boate estivesse em dia para ingressar na sociedade, afirmando ainda que esperou o fim da reforma para resolver o vazamento acústico.  “Não tinha alvará de bombeiros, mas Kiko (Apelido de Spohr) disse que estava por vir.” 

'Dia 27 nunca saiu de mim'

Último réu a depor no julgamento da Boate Kiss, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, contrariou a ideia de desconhecimento do uso de artefatos pirotécnicos pelo grupo. Em seu depoimento, Marcelo reviveu os acontecimentos daquela noite e os fatos que levaram ao incêndio.

Ele confimou que o artefato, já acesso, foi entregue a ele por Luciano Bonilha. De acordo com o vocalista da banda, uma outra pessoa que o fogo havia iniciado e um homem subiu ao palco para lhe entregar o extintor que não funcionou. “Larguei o microfone, peguei o extintor na mão. Eu gritei 'fogo, fogo, sai'. Quando me deram o extintor, eu achei que ia apagar. Só tive uma chance, mas o extintor não funcionou”, relatou. 

Após as duas tentativas frustradas de conter o incêncio com o extintor, Marcelo contou que  entrou em desespero, assim como as demais pessoas presentes.  “As pessoas correndo, querendo sair. Eu olhava e não podia fazer nada.” Marcelo afirmou ainda que os fogos de artifício eram utilizados apenas em estabelecimentos que autorizavam os músicos. 

No julgamento, Marcelo disse que a tragédia ainda o acompanha. “Dia 27 nunca saiu de mim. Eu acordo e durmo pensando no dia 27. Não tô bem, eu nunca tive bem.” Na época do incêndio, Marcelo também precisou ser hospitalizado por ter respirado a fumaça.  “A médica queria me encaminhar para o mesmo local onde outras vítimas da Kiss se tratavam e eu não quis ir, de vergonha”, contou.

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