Boicote de pilotos esvazia Congonhas

Uma semana depois do maior desastre da história da aviação civil brasileira, pilotos das principais companhias aéreas do País - TAM, Gol, Varig e Ocean Air - entraram em acordo e decidiram não pousar em Congonhas, na zona sul de São Paulo, em dias de chuva. Eles temem a repetição de acidentes. Em caso de chuva, seguem para Cumbica ou Viracopos. A BRA suspendeu os vôos em Congonhas desde sexta-feira. "É impossível manter o controle de uma aeronave lá", disse um piloto com 10 mil horas de vôo - ele foi um dos que se recusaram a pousar no aeroporto paulistano. Outro comandante afirma que, após a reforma, tanto a pista principal como a auxiliar estão mais inseguras. A pista principal deve ficar fechada pelo menos até amanhã, segundo informações do governo. Ontem, até as 19 horas, 38,1% dos 1.637 vôos programados para todo o País tiveram atrasos superiores a uma hora e houve 20% de cancelamentos. Apenas em Congonhas, os cancelamentos nesse horário chegaram a 67,9% (146 pousos ou decolagens). Somente a TAM suspendeu 68 vôos e remanejou 22 para Cumbica, culpando a chuva de ontem em São Paulo. Apesar do receio crescente, o histórico de vôos do Airbus A320 da TAM diminui a possibilidade de que a chuva e a pista do Aeroporto de Congonhas tenham sido decisivas na tragédia que matou ao menos 199 pessoas. Isso porque, no dia do acidente, o avião de prefixo MPK já havia pousado duas vezes na pista principal do aeroporto, uma delas enquanto chovia quase três vezes mais do que no momento do desastre. Em nenhuma das aterrissagens houve queixas de pista escorregadia ou problemas mecânicos. Informações não oficiais sobre a caixa-preta do Airbus A320 também reduzem a influência da pista na tragédia. Ainda em análise nos Estados Unidos, a caixa-preta com as principais informações do vôo indica que o piloto não tentou - ou não conseguiu - arremeter e a aeronave estava em trajetória descendente quando se chocou com o prédio da TAM Express. A informação foi dada ontem, em Washington, pelos deputados Efraim Filho (DEM-PB) e Marco Maia (PT-RS), integrantes da CPI do Apagão Aéreo. Para especialistas ouvidos pelo Estado, isso reforça a tese de falha humana, desencadeada por algum problema na aeronave. Falta ainda medir os parâmetros da frenagem, que podem indicar a influência de uma falha de reverso no caso. A Aeronáutica, com base em imagens de pista da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) e informações de controladores de vôo, ainda acredita que houve uma tentativa de arremetida. As autoridades aeronáuticas se apressaram ontem a negar que haja qualquer informação preliminar sobre a caixa-preta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também solicitou que o governo fique afastado da discussão sobre as causas da tragédia. Ele e os ministros que fazem parte da coordenação política avaliaram ontem que o governo sofrerá uma forte rejeição com a decisão de fazer o Aeroporto de Congonhas voltar a ser, como era até o início dos anos 90, apenas um terminal local e para vôos da ponte aérea São Paulo-Rio. Isso também causará um aumento nas passagem aéreas e um desgaste político. Outro desgate pode vir da cartilha que vem sendo distribuída nos Jogos Pan-Americanos com "brincadeiras de aeroporto". Na história em quadrinhos, duas crianças levantam dúvidas sobre aviação. Já nos bastidores, o Planalto optou ainda por aprofundar o processo de intervenção na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), usando o Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac) como instrumento legal. Como a Anac é uma agência reguladora, o governo não pode determinar o que deve fazer em casos como o da crise aérea, que dura dez meses e já fez 355 vítimas. Mas pode fazer o Conac ordenar como a agência deve agir. O conselho passará a fazer pelo menos uma reunião semanal. As mudanças serão feitas por meio de um decreto, já em elaboração pela Casa Civil. INDENIZAÇÃO A TAM divulgou que já pagou a primeira indenização a uma das famílias das vítimas do acidente. A informação foi dada pelo presidente da companhia, Marco Antonio Bologna, que admitiu pela primeira vez, ontem, que a empresa enfrentou dificuldades para comunicar as famílias logo após a tragédia e isso atrasou a divulgação da lista de vítimas. Apenas 66 dos 199 mortos haviam sido identificados pelo Instituto Médico-Legal. A Defesa Civil ainda autorizou ontem a liberação de 11 dos 27 imóveis interditados na região de Congonhas. Cinco imóveis comerciais da Rua Baronesa de Bela Vista, nos fundos da TAM Express, reabriram.

O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2024 | 00h00

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