Bolachões voltam às prateleiras

Em plena era digital, de MP3 e iPod, toca-discos ganham lançamentos e conquistam jovens de São Paulo

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Parece que estamos nos anos 80. Ou dentro de um filme saudosista, daqueles que passam insistentemente na Sessão da Tarde. Ali naquela loja de música do shopping center, os clientes garimpam os últimos lançamentos internacionais em uma prateleira repleta de discos de vinil, segurando os bolachões como se fossem relíquias, analisando as artes da capas como se fossem quadros. "Acho até engraçado quando saio da loja com um LP debaixo dos braços, eu me sinto como se tivesse 12 anos", diz o administrador de empresas Caio Domingues, na realidade com 32 anos. "Em plena época do MP3, do iPod, iPhone, nada me deixa mais feliz do que ouvir o chiado da agulha em cima dessas belezas de vinil."Caio Domingues não é o único, longe disso. Desde 2006, a rede de lojas da Livraria Cultura começou a vender discos de vinil importados, novos em folha, com um catálogo que vai de Radiohead, White Stripes e Amy Winehouse a reedições de Beatles e Bob Dylan. A resposta foi imediata - e está cada vez mais forte. Nos primeiros cinco meses deste ano, as vendas de LPs superaram em três vezes as vendas do ano passado inteiro. A livraria conta hoje com um acervo de cerca de 600 títulos de discos de vinil e trabalha com mais de 90 selos, incluindo os americanos e os europeus.Para se ter uma idéia do sucesso, o álbum Back to Black, da polêmica cantora Amy Winehouse, vende 60 unidades por mês, ao preço de R$ 74,57. Tudo importado, claro, pois a última fábrica de bolachões do País, a PolySom, em Belfort Roxo, no Rio, baixou as portas no começo do ano, na contramão do renascimento dos LPs. "As vendas não representam quase nada no nosso faturamento, é uma espécie de mercado de nicho, mas queremos ter cada vez mais vinis", diz Fabio Herz, diretor comercial da rede de lojas. "Se existir o público, teremos vinis", afirma.A Livraria Saraiva também dispõe atualmente de um acervo de 3 mil títulos de discos novos. E os números internacionais realmente mostram esse fenômeno com ainda mais propriedade. De acordo com uma pesquisa da Nielsen SoundScan, empresa que monitora a movimentação da indústria fonográfica americana, cerca de 1 milhão de LPs foram comprados em 2007, ante 858 mil em 2006. Com base nas vendas do primeiro semestre de 2008, esse número pode pular para 1,6 milhão até o fim do ano. Enquanto isso, segundo a Associação da Indústria Fonográfica da América (RIAA, na sigla em inglês), o consumo de CDs caiu 17,5% durante o mesmo período. As vendas de toca-discos, que despencaram de 1,8 milhão em 1989 para 275 mil em 2006, voltaram a crescer e atingiram a cifra de meio milhão de unidades vendidas no ano passado.FETICHE"Acho que é quase uma mudança de comportamento, pois o vinil deixa você criar uma relação com a música que o arquivo de MP3 simplesmente não permite", diz a estudante Priscila Ferreira, de 17 anos, nova fã dos LPs que já nasceu na época da popularização do CD. Os discos de vinil aterrissaram no Brasil em 1958 e atingiram seu auge na década de 80. Existiam seis grandes fábricas - a principal delas, a RCA, tinha 45 prensas e produzia 3 milhões de LPs por mês. Em 1994, quando o compact disc já fazia sucesso, o Brasil foi o país que consumiu e produziu mais LPs no mundo - algo em torno dos 15 milhões. Mas a agulha perdeu o rumo com o passar dos anos e o vinil teve de se contentar em ser exibido apenas em sebos e coleções de saudosistas. Agora, em plena era da música digital, com as grandes gravadoras sem um norte para seguir e com uma facilidade cada vez maior de consumir música na internet, os discos de vinil estão deixando de ser apenas um fetiche ou um objeto de desejo de colecionadores para conquistar cada vez mais jovens. Um dos argumentos para esse renascimento (grifa-se, segundo os próprios amantes dos 33 rotações) é a diferença do som. As gravações em CD ou MP3, por serem comprimidas digitalmente, teoricamente "cortam" as freqüências mais altas e baixas, eliminando ecos, batidas graves e espacialidade do som."O áudio do CD é magro e pálido perto do vinil", diz o DJ Ricardo Andreoli, de 22 anos, que tem uma coleção de mais de 500 discos. Há, claro, a questão do ritual que o disco de vinil envolve - analisar o encarte, tirar o disco do plástico, colocar a agulha suavemente na faixa. O LP pode ser visto, tocado e sentido da mesma forma que pode ser simplesmente ouvido. "Quando eu coloco um disco de vinil, eu realmente paro para ouvir, aprecio aquele momento", diz a estudante Priscila Ferreira, que pagou R$ 400 em um toca-discos usado na Rua Santa Ifigênia para ouvir seus bolachões. "Não é que nem o MP3, que eu só clico e já começa a tocar. Com o vinil, você dá mais valor à música."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.